A linha tênue entre o luto materno e a depressão pós-parto

Por Rafaela Schiavo – 13 Abril 2016


 Luto é um processo de adaptação à uma perda significativa e a depressão pós-parto é uma forma de depressão que afeta a mulher após parir levando-a ao adoecimento mental.
Cerca de 80% das mulheres após três dias do parto apresentam uma melancolia, uma tristeza que não sabem muito bem de onde vem e porque estão sentindo, essa tristeza recebe o nome de Baby Blues e é normal e até mesmo esperado que ocorra nos primeiros 45 dias após o parto. O baby blues não é considerado um adoecimento mental e não necessita de intervenção farmacológica, ter uma boa rede de apoio familiar e social ajuda a puérpera passar esse momento sem grande perturbação psicológica.
A depressão pós-parto por sua vez atinge no mundo cerca de 20% das mulheres que “dão a luz” (PEREIRA; LOVISI, 2008), e no Brasil essa porcentagem é considerada maior (MOSSO et al., 2008; GUEDES et al., 2011; FIGUEIRA; DINIZ; SILVA FILHO, 2011). No entanto, em pesquisa recente realizada por Schiavo (2016) notou-se que a frequência de mulheres que apresentam sintomas de depressão pós-parto é bem inferior à frequência apresentada nas pesquisas, isso porque, a maioria dos estudos nacionais que investigaram a frequência de mulheres com depressão pós-parto em cidades brasileiras, foram pesquisas chamadas transversais, o que significa que foram aplicados instrumentos para ver quantas mulheres apresentavam sintomas de depressão entre o segundo e sexto mês pós-parto, resultando em frequências acima dos 20%. No entanto, pesquisas longitudinais, ou seja, pesquisas que acompanham o sujeito ao longo do tempo têm indicado que os sintomas de depressão não são mais presentes no pós-parto, mas sim na gestação. As mulheres que apresentam sintomas de depressão após o parto em sua maioria já apresentavam tais sintomas desde a gestação, portanto, esses sintomas de depressão, não podem ser chamados de pós-parto. Na pesquisa de Schiavo (2016) 17% das puérperas entrevistadas apresentavam sintomas de depressão aos seis meses pós-parto, entretanto apenas 7% das que não apresentaram sintomas de depressão na gestação, passaram a apresentar no pós-parto.
A vivência da maternidade influencia tanto positivamente como negativamente nos comportamentos, pensamentos e emoções das mulheres. Se tornar mãe é experienciar comportamentos, pensamentos e emoções nunca vividos ou sentidos antes, e que não necessariamente são todos positivos. Se tornar mãe é também fazer o luto por tudo aquilo que é necessário deixar para trás mesmo que temporariamente. Não é simples se ver de uma hora para outra sem tempo para si mesma, nas tarefas mais elementares como tomar banho, pentear os cabelos, escovar os dentes, dormir uma noite inteira e ainda assim receber visitas que não param de chegar e sempre com algum palpite para dar ou pior, ficam lhe observando e depois apontando o que julgam ser os seus erros na relação com o bebê. Portanto, a maternidade é também um processo de luto.
As perdas significativas do que você gosta de fazer mesmo que por um tempo apenas, podem influenciar sim no seu comportamento, pensamento e emoções. Infelizmente vivemos em uma sociedade em que não é permitido à mãe se lamentar daquilo que não consegue mais tempo para fazer devido às exigências da maternidade e quando alguém tem coragem de se lamentar, em seguida já é bombardeada de críticas, pois como pode uma mãe se lamentar da maternidade? “Se está se lamentando é porque não deve estar em pleno juízo mental, portanto, só pode estar doente, só alguém doente é que se lamentaria da maternidade e, portanto, ela tem depressão pós-parto”, Só Que Não.
É muito forte a representação social de que grávidas e mulheres que acabaram de dar a luz, estejam radiantes de felicidade, totalmente plena e feliz, entretanto, isso é uma grande mentira que nos contam e a própria mulher gestante ou puérpera acredita nessa falácia, e pensa que há algo errado com ela e que provavelmente está então doente, que está com a chamada depressão pós-parto.
O luto materno pelas coisas que a mulher perdeu temporariamente, tal como, cuidar de si, estudar, trabalhar, sair com os amigos para baladas, beber, chegar de madrugada em casa, acordar a hora que quiser em um feriado ou final de semana, assistir um filme, ter uma noite romântica, entre várias outras coisas, entristece a mulher, e o que vai dar o tom dessa tristeza é o quanto a mulher valoriza tais atividades, aquelas que não valorizam tanto, provavelmente passarão pelo processo do luto de forma bem tranquila e rápida, entretanto, aquelas que super valorizam algumas atividades que se pode fazer bem quando não se tem um bebê de meses em casa para cuidar, podem de fato passar pelo processo do luto de forma mais conflitiva e não rápida e isso não significa que a mulher está descontente com a maternidade, ou que não ame seu filho, longe disso, muito longe disso, é perfeitamente possível ser uma boa mãe, amar o filho e cuidar adequadamente dele, mesmo quando existe aí um pesar pelas coisas que gostaria de fazer, mas que no momento se encontra indisponível para tais ações.
Tal processo de luto não tem a ver com depressão pós-parto, podemos sentir tristeza, sem estar doente, é próprio do ser humano se sentir triste diante algumas situações, a tristeza passa com o tempo, e não precisa ser medicada, temos que aprender a nos permitir ficar tristes, e temos que aprender a lidar com a tristeza do outro, sem que nos incomode, pois a tristeza é uma emoção básica do ser humano e ela tem uma função importante em nossa evolução. A tristeza só se torna uma patologia, ou seja, se torna uma depressão, quando claramente há sintomas que prejudiquem a vida cotidiana do sujeito e/ou coloque em risco a sua própria vida e a de outros, tal como o pensamento suicida ou infanticida. Se a tristeza é tão profunda que a puérpera não consegue encontrar satisfação em mais nada, se isola em seu quarto, não quer se levantar ou fazer qualquer atividade pode ser um indicativo que a mulher não se encontra triste, mas depressiva, um diagnóstico realizado por um médico psiquiatra pode identificar se de fato a mulher apresenta, portanto, depressão pós-parto, ou qualquer outra patologia, ou se é uma tristeza que advém de um luto que ainda está sendo elaborado.


Referencias
FIGUEIRA, P.G; DINIZ, L.M., SILVA FILHO, H.C. Características demográficas e psicossociais associadas à depressão pós-parto em uma amostra de Belo Horizonte. Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, v.33, n.2, p.71-75, jul. 2011.

GUEDES, A.C.E et al. Depressão pós-parto: incidência e fatores de risco associados. Revista de Medicina, v.90, n.3, jul./set. 2011.

MOSSO, F.T et al. Prevalência de depressão pós-parto em puérperas de Maringá, Saúde e Pesquisa, v.1, n.3, set/dez. 2008.
PEREIRA, P.K.; LOVISI, G.M. Prevalência da depressão gestacional e fatores associados. Revista Psiquiatria Clínica, v.35, n.4, p.144-153, 2008.

SCHIAVO, R.A. Desenvolvimento infantil: associação com estresse, ansiedade e depressão materna, da gestação ao primeiro ano de vida. 2016. 150 f. Tese (Doutorado em Saúde Coletiva) – Faculdade de Medicina de Botucatu, Universidade Estadual Paulista, Botucatu, 2016.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Esta é uma linha do saber que deveria ser mais divulgada nas instituições universitárias, visto muitos graduando poderiam interessar-se por este setor de saber inclusive com um mestrado acessibilidade mais facilitada.

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