Pessoas que não têm coração vão nos maltratar

Sem filhos vivos, estudante de psicologia, 23 anos


Resolvi escrever em função de haver discussões sobre maternidades do SUS x Particular em casos de aborto espontâneo.

Perdi dois bebês em um ano e seis meses. No primeiro pré-natal fui atendida pelo SUS e perdi com cinco semanas, as causas nunca foram descobertas. Passei mal longe do hospital, procurei o posto de saúde e lá uma ambulância me buscou. Na ambulância fui muito bem atendida por dois profissionais homens que me trataram o tempo todo como se eu fosse uma criança, foram gentis, me cuidaram, conversaram, consolaram. A partir do momento em que entrei no hospital começou o pesadelo, fui atendida por um médico que não me olhou no rosto em nem um momento sequer, anotou mil coisas num papel, me mandou fazer uma ecografia que deveria ser paga pois o equipamento do SUS estava quebrado, saímos do hospital fomos até uma clínica, pagamos e voltamos pro hospital, não tinha sobrado nada do meu bebê, o rapaz da ecografia (da clínica particular) disse “pode ir pra casa que agora só tem sangue pra sair, tá tudo bem” até parece que estava né?? Voltei ao hospital e depois de uma meia hora fui embora “correndo”, nunca mais voltei lá, achei que tinha acabado e tentei colocar um fim a esse sofrimento. Tentei realmente esquecer, até que engravidei novamente . No segundo pré-natal fui atendida o tempo todo em uma clínica particular na cidade vizinha em função de estar traumatizada pelo que já havia ocorrido… O médico custava uma fortuna, não somos ricos, mesmo assim pagamos todos os exames, consultas e todo o necessário, nos primeiros exames os batimentos do meu filho já estavam “instáveis”, às vezes estavam normais, às vezes acima, às vezes abaixo, o médico dizia o tempo todo que estava tudo bem e me negou medicações pra tentar resolver esse problema, pedi progesterona no início da gestação para tentar manter meu filho bem em função de eu já ter perdido o primeiro bebê e ele também me negou. A clínica não abria nos finais de semana e num sábado comecei a sentir um líquido estranho saindo de mim. Eu estava com doze semanas, começando a ficar tranquila achando que não corria mais riscos, tentei contato com o médico e nada dele atender o celular. No domingo fui até o hospital da cidade vizinha, me disseram lá que estava tudo bem,  o médico fez um exame de toque e me mandou procurar meu médico particular na segunda-feira. Voltei para casa e comecei a sangrar de madrugada, voltei pro hospital, o tempo todo tentei contato com meu médico e ele não atendeu. Chegando no hospital da cidade vizinha precisamos pagar uma ecografia particular porque a médica do SUS que fazia as ecografias havia faltado naquele dia, mas enfim, pagamos a ecografia, o médico que fez a eco foi super atencioso e teve que me dar uma das piores noticias da minha vida, meu bebê estava sem vida já faziam três semanas. Eu entrei em desespero, quis morrer, queria me matar, fui levada ao centro obstétrico onde um médico estúpido me disse que eu poderia escolher “deixar sair sozinho” ou voltar na quarta-feira para fazer uma “raspagem”.  Disse que só faziam “raspagens” nas quartas-feiras, meu marido ficou apavorado com o tempo que o bebê já estava morto dentro de mim e mais apavorado ainda com a ideia de que fazem um “mutirão” para fazer curetagem uma vez na semana. Questionou o médico sobre isso, disse que era absurdo juntarem várias mães e fazerem tudo no mesmo dia, o médico nem se deu o trabalho de responder e nos deixou sozinhos na sala. Logo veio uma enfermeira pedindo para sairmos pois tinha outros pacientes aguardando, meu marido começou a ligar desesperadamente para o meu médico particular, ele nunca atendeu. Não nos deram nenhuma cópia do boletim médico, aliás eles nunca dão, tentamos descobrir quem foi o médico que me atendeu no dia anterior e ninguém nos respondia, as enfermeiras faziam o possível para sair de fininho, nós não estávamos lúcidos o suficiente para procurar a direção e reclamar, voltei pra casa arrasada, acreditei que encontraria meu médico particular quando abrisse a clínica pela manhã e que tudo ficaria bem. Ligamos para clínica e explicamos o ocorrido para a recepcionista, ela mandou aguardar, voltou ao telefone e nos disse que o Dr. não tinha horário disponível na agenda pra nos atender. Mesmo assim fomos até a clínica, não nos deixaram passar da recepção, ele nunca mais nos atendeu. Voltei pra casa desesperada, me  senti um lixo, não sei nem expressar com palavras tudo o que senti. Escolhi um médico “renomado” para ele sumir na hora em que eu mais precisei? Eu sabia que não conseguiria ser acolhida em lugar nenhum, ninguém naquela clínica particular, nem naqueles dois hospitais públicos que existem mais próximos de mim me atenderia decentemente, eu não voltaria no hospital onde já havia sido maltratada no meu primeiro aborto espontâneo, também não queria voltar onde tinha sido atendida nesta ocasião e negligenciada pelo médico, afinal se ele tivesse me mandado fazer exames teria percebido que meu filho não tinha mais vida. Então tomei uma das decisões mais difíceis daquela época, optei por esperar em casa e passar pelo que tivesse que passar sozinha. Na terça-feira começaram as contrações, passei 17 horas  sofrendo de dor, de medo, de tudo mais. As últimas duas horas de contrações  foram insuportáveis, desmaiei no banheiro e acordei de baixo do chuveiro, meu marido me lavou e me levou de novo até o hospital. Chegando lá eu senti que meu bebê estava pronto para sair, falei isso pra enfermeira e ela me mandou ficar sentada no vaso sanitário até o médico chegar para eu não fazer “lambança” no consultório. Meu marido quis me levar até o banheiro e ela não deixou ele entrar, disse “ela consegue caminhar sim, levanta daí pra sair tudo que tiver que sair dai de dentro” sentei no vaso e lá senti que tudo que havia dentro de mim caiu literalmente. Gritei, chamei e nada. Quando a enfermeira resolveu aparecer ela disse que não podia fazer nada que não ia tirar o que tinha caído dentro do vaso sanitário que se eu quisesse fazer exames no feto eu deveria tirar. Eu sangrava muito, chegou o médico, não tive forças para tirar nada que estava no vaso, me levaram para o consultório, deitei, sem avental, sem lençol, fiquei completamente nua na frente de um médico e de 5 enfermeiras, tentei segurar a mão de uma delas e ela não deixou, puxou a mão de volta, eu gritava não de dor mas sim de raiva, de tristeza, chorava horrores, estava completamente constrangida de estar nua, de estar chorando, a mesma enfermeira estúpida disse pro médico “Dr. tem certeza que saiu tudo? Não quer uma bacia pra não se lambuzar aí?” Aliás eu acho que ela adora essa palavra “lambuzar, lambança”… Finalmente ele parou de mexer em mim, mandou eu me vestir e disse que eu poderia ir pra casa e voltar quando parasse de sangrar pra fazer uma eco, que caso tivessem “restos” eu deveria fazer a “raspagem” na quarta-feira da próxima semana. Pedi para as duas enfermeiras que ficaram por último comigo na sala enquanto eu me vestia um absorvente, uma delas disse “não damos absorvente aqui, porque não trouxe de casa!?” Como é que eu ia levar absorvente de casa se estava desmaiando pelo caminho? Como é que eu ia me lembrar disso? Meu marido ia mesmo pensar em absorventes? Nunca mais voltei lá a não ser a uns 2 meses atrás quando rompi o ligamento do meu pé direito. Se eu tivesse recolhido meu bebê (que pra mim não era só um feto) talvez hoje saberia as causas desses meus dois abortos. Eu não tive esse direito, não consegui até hoje tratamentos pelo SUS, aliás sempre que tento os médicos dizem ” o SUS só investiga esse tipo de situação depois do terceiro aborto”. Já se passou um ano do meu último aborto e estou tentando engravidar, juntei dinheiro, consegui uma médica que me parece muito decente, mas aqui não existem maternidades preparadas pra fazer partos humanizados. Moro numa cidade que tem 3 hospitais bem próximos de mim e eu já fui maltratada em 2 deles. Não sei o que vai ser. Quando finalmente tiver um filho provavelmente vou procurar uma maternidade na capital que fica a mais ou menos 100 km daqui. Até lá, seja o que Deus quiser, já percebi nessa caminhada que pagando ou não pagando não faz diferença, seja SUS ou particular as pessoas que não têm coração vão maltratar a gente igual.

Além disso gostaria de registrar aqui também que depois de tudo ainda tive que viver com comentários ridículos e que machucam até hoje, esses comentários partiram da família do meu marido, da minha família, de todos os lados, falar pra mães que perderam os filhos coisas do tipo “logo tu engravida de novo”, “agora não engravida mais né!? Vai tratar essa doença primeiro”, “daqui um pouco passa”, “se nascesse uma criança doente ia ser bem pior”, não ajudam. Sou taxada de louca por que não quis vender as coisas que já havia comprado para os meus bebês, sou taxada de egoísta por que não quis doar, sou taxada de anti social quando não quero participar de reuniões de família onde até hoje todos me olham com cara de pena, mas nunca me perguntam nada a respeito disso, nunca bateram na minha porta pra saber se estou bem e quando tento participar de algum assunto ainda tenho que ouvir “ah tu fala isso por que tu não é mãe ainda” será mesmo que não sou? Me sinto mãe sim! Meus filhos existiram, eles existem, sei que estão em algum esperando por mim, sei que um dia terei alguém nos meus braços pra chamar de MEU!

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1 comentário Adicione o seu

  1. Andréia disse:

    Sinto muito querida por suas perdas e pelo tratamento que recebestes nesses momentos tão dolorosos da perda de um filho. Você é mãe sim. Mãe de dois filhos, filhos que não estão junto a ti, mas que vivem em seu coração e que sempre serão amados e lembrados por você. Sou mãe de um filho “anjo”(gestação de 40semanas, natimorto) e uma filha que está comigo, após uma gestação a base de injeção diária de doses de heparina para Trombofilia ( vale vc dar uma pesquisada), doença que descobri após a partida do meu primogênito. Fica bem, receba meu carinho e solidariedade. Torcendo que desta vez td seja diferente e melhor pra vocês.

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