Um anjo agora me olha do céu

Cássia Oliveira – Concierge Hospitalar – 25 anos – 1 anjo no céu


O maior vazio de todos. Isso é o que define o que a dor da minha alma sente. Estava grávida de 23 semanas e 5 dias e estava com uma gravidez tranquila e tudo corria bem. Mas uma intuição muito forte fez eu procurar ouvir os batimentos do meu bebe pois não sentia mais seus movimentos. Como trabalho em uma maternidade, rapidamente tive a pior notícia da minha vida. Após tentar por 3 vezes escutar com o sonar o coração, na tela do ultrassom tudo foi confirmado: o coração do meu maior sonho havia parado de bater. Olhar para aquela tela e ver seu bebe imóvel, os olhos arregalados do seu médico e o desespero da auxiliar ao ouvir o choro que saiu da minha garganta foi horrível. Com quase seis meses de gravidez, meu anjinho foi chamado ao Céus, sem explicação aparente, pois não tive nenhum sangramento, sinal de aborto ou perda de líquido. Um mistério. Um triste e doloroso mistério. E como dar a notícia a todos? Como explicar ao seu marido, que na noite anterior estava com a mão na sua barriga, conversando com o bebe, pedindo para ele mostrar o sexo no ultrassom que eu iria fazer no próximo dia, pois “papai precisa pintar seu quarto e comprar suas coisas”.

Fui internada para receber medicação e induzir um parto normal. Recebi medicação intravaginal e quando começasse o sangramento iria receber soro para contração. Foram 3 remédios intravaginais e nada de sangramento. Após uma madrugada de muita aflição, dor desesperadora, diarreia, vomito, sensação de desfalecimento, colo fechado e sem forças esperando o sangramento, a obstetriz constatou o motivo de tanta dor: meu corpo começou a expelir sozinho o meu bebe, junto com a bolsa, que estava intacta. Não deu tempo de colocar o soro de contração. As dores já me dominavam. Correram comigo para o Centro Cirúrgico e eu delirava de dor. O Tramal na veia já não fazia efeito algum. Então entre uma dor e outra e uma necessidade de empurrar, senti uma dupla sequência de dor extremamente forte e tirando forças não sei de onde, empurrei e coloquei para fora meu bebe. A primeira sensação foi de alívio, pois as dores tinham cessado. Depois o desespero ao saber o que eu iria olhar. A surpresa da enfermeira e da médica foi inevitável. Meu bebe saiu do meu ventre dentro de sua bolsa, ainda cheia de líquido. E lá, eu, meu marido, minha irmã e minha mãe constatamos o que três ultrassom não conseguiram mostrar: o sexo do meu bebe. Minha primeira filha. Uma menina. Que dentro daquela bolsa parecia estar apenas dormindo. Toda formada e perfeita. Minha Heloísa mesmo sem batimentos, preferiu nascer agarrada a sua bolsa. No seu canto, mergulhada no líquido, que era seu porto seguro.
Após o parto, que considero natural pois não precisei de pontos, soro, cortes, apenas força de Deus. Uma coisa é você esperar que seu corpo expulse um bebe pequeno, com ajuda de medicamentos. Outra é seu corpo expelir um bebe dentro da bolsa e ainda junto com partes da placenta. A natureza que explique essa parte, pois meu raciocínio é limitado.
Após o parto, fui encaminhada a curetagem, onde tive que tomar a anestesia da raqui por duas vezes, pois a primeira e dolorosa agulhada não encontrou seu destino certo. Depois do procedimento e do repouso, a dor maior estava comigo: a dor emocional. A dor de saber que você passou por tudo isso e não tem o bebe em seus braços. De saber que seu precioso sonho não está com você, que foi encaminhado para análise para tentarem achar respostas. A dor de saber que você passaria por mais quatro, cinco ou quantas noites for preciso se fosse pra ter seu bebe. Dor de ver outras grávidas que estavam com uma gestação caminhando no mesmo período que a sua. A dor de não conseguir se olhar no espelho, pois sabe que não irá ver o que gostaria. De não conseguir tocar a sua barriga, pois sabe que ela está vazia. A dor de ouvir que você é nova e terá outros filhos quando no momento você só queria ter o que se foi. A dor de ver seu marido, parentes e amigos tentando ser fortes. Dor de vestir suas roupas olhar para baixo e ver uma sobra de roupa no lugar que estaria sua linda barriga de grávida. De sentir seus seios doendo pois o leite que estava preparado para alimentar a sua cria está secando. A dor de olhar na calcinha e ver o sangramento do seu útero, que há dias atrás estava cheio de vida. A dor de acordar de madrugada e chorar ao saber que nada foi um pesadelo. A dor de pesquisar na internet sobre o assunto e saber que infelizmente você não é a única que passou por isso. Dor de voltar pra casa e ver as coisas preparadas, cada canto da casa aguardando a chegada do bebe. Dor de saber que você tem que seguir em frente, quando sente a força de um caminhão te puxando para trás. A dor de não se sentir mais um ser tão especial, de não se sentir digna de ter vontade de comer algo, desejar algo. Dor ao ouvir os choros de outros bebês, sabendo que você daria tudo o que tem pra ouvir o choro do seu. Dor de saber que a rotina não muda, que você terá que voltar pra ela, o que será particularmente complicado para mim, pois como disse, trabalho em uma maternidade e minha jornada de trabalho e totalmente voltada a grávidas e recém nascidos. A dor de ouvir a música Um anjo do céu e lembrar que você cantava pra ela, acariciando a barriga. A dor de sentir medo de engravidar novamente ou não conseguir engravidar mais. Dor. Dor e dor. É apenas o que sinto agora. Faz dois dias que tudo aconteceu. A cada segundo minha mente me leva novamente as cenas. Tento falar para mim mesma e para os outros que Deus sabe de todas as coisas. Que talvez seria uma criança que teria muitos problemas, alguma doença incurável ou uma vida de sofrimento. Eu falo. Mas meu coração não aceita. Agradeço a Deus pois sei que Ele esteve comigo, pois sozinha não conseguiria. E peço força para continuar. Força para tentar viver um dia de cada vez. Sinto uma constante dor emocional. Sinto que minhas lágrimas saem direto da alma.
Sei que o texto ficou longo, mas pensei que talvez escrevendo e colocando pra fora um pouco do que senti eu iria melhorar um pouco.
São muitos porquês que rodeiam minha mente. Sei que não terei respostas para tudo, e o que basta é eu continuar vivendo. Sei que tenho que ser forte e não perder a fé em Deus e na vida. E sigo, sobrevivendo um dia de cada vez, sabendo que assim como minha Heloísa está gravada abaixo do coração como tatuagem no peito do meu marido, assim ela segue na minha vida, dentro do meu coração, muito amada desde o começo de tudo. Um anjo que dorme ao lado de Deus. Um pequeno ser que tive a honra de amar incondicionalmente, da forma mais preciosa, desde o primeiro momento. Um pedaço de mim, que foi levado a Deus. Um anjo, que agora me olha do céu.

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