Agora eu tenho meu bebê

Manu, Cirurgiã-Dentista, 34 anos, mãe da Cecília, da Beatriz e da Maria Eduarda.


Com 31 anos, conheci um cara legal. Eu era solteira, trabalhava em vários lugares, estava na verdade meio solta por aí. Me apaixonei. Com 2 meses engravidei e a gestação tinha tudo pra dar certo. O relacionamento tinha tudo pra dar errado, imagina, engravidar de uma pessoa que você nunca viu na vida em apenas 2 meses! Iniciei em um emprego novo, mais estável, porém passava a semana toda fora da minha cidade. Voltava só nos fins de semana. Descobri a gravidez com 9 semanas depois de uma onda de enjoos sem explicação. Lá estavam as duas listras e eu, numa cidade do interior, sozinha. Fiquei com medo de perder o emprego, como levaria aquilo adiante? Sempre sonhei em ser mãe.. eu só sabia que queria aquele bebê. Contei pro pai da criança, que me apoiou e ficou radiante. Mas não estávamos preparados pra uma gestação, não morávamos juntos, eu morava com um irmão, não tínhamos espaço nem estrutura pra chegada de um bebê. Iniciei uma corrida contra o tempo. Pré-natal atrasado, mil exames pra fazer, sem plano de saúde, depois com plano de saúde, procurei apartamento grande pra alugar, comprei móveis. Com 5 meses e 3 semanas de gestação e muitos conflitos com o pai do bebê depois, estava eu numa cidade do interior do RS. Acordei, tomei café da manhã e fui trabalhar. Quando estava pronta pra chamar meu primeiro paciente, comecei a sangrar. Meus colegas se assustaram, eu não sabia o que estava acontecendo. Não tinha nem a pasta de pré-natal comigo. Fui levada de ambulância até o hospital de uma cidade próxima, Hospital Universitário, onde recebi um péssimo atendimento. Primeiro, alunos do quinto ano de medicina me examinaram e não encontravam os batimentos do bebê. Depois, residentes assistiram ao meu ultrassom onde o médico que fazia o exame sequer lavou as mãos e comia uma banana ao mesmo tempo. O bebê estava vivo, estava bem. O aparelho de ultrassom era velho demais e o diagnóstico foi oligodrâmnio. Eu nunca tinha ouvido falar nisso, descobri que era pouco líquido amniótico. Li em um site qualquer no meu celular que precisava tomar bastante líquido, e bebi toda a água que pude naquelas horas em que eu estava ali. Não tinha leito. Fiquei deitada na maca do ultrassom por horas, sem roupa, sem calçado, com uma mala do meu lado (levei comigo na ambulância) e sem saber o que aconteceria. Consegui falar com meus pais, que viajaram até lá pra me ajudar. O pai do bebê estava muito nervoso e achei melhor que ele não fosse até lá. Isso foi um erro.
Passei a noite na enfermaria, sangrando pouco. Dentro do hospital, me disseram que esse diagnóstico era muito ruim e que o bebê poderia nascer com algum problema, que nesses casos era considerável um aborto. Fiquei revoltada, disse que tenho um irmão médico, que não decidiria nada ali, sem minha família e sem meus médicos. Consegui ter alta no dia seguinte, após um novo ultrassom ter acusado “normalidade”. Meus pais me trouxeram pra Porto Alegre, fui direto pro hospital. Minha médica me encontrou e começou uma bateria de exames, fiquei internada por mais de uma semana no total. O sangramento diminuiu, mas eu sentia muitas cólicas, expelia coágulos. Dois dias depois saiu um diagnóstico de infecção no útero, comecei a receber antibióticos e segui com exames, e com cólicas. Na internação eu e o pai do bebê brigamos e ele me abandonou ali, internada. Virou as costas e se foi. Dois dias depois as dores aumentaram e eu entrei em trabalho de parto. Com 24 semanas gestacionais nasceu a minha menina, Cecília, 515gr, de parto normal. Nasceu ainda dentro da bolsa, envolta por líquido amniótico. No parto, apenas os médicos e meu irmão que também é médico. Cecília nasceu e foi direto pra UTI Neonatal, tinha um leito reservado a ela já. O parto foi indolor, senti muita dor nas contrações, mas depois fui anestesiada. Fui avisada que a situação era muito ruim e as chances dela, pequenas. Saí da sala de recuperação e fui pro quarto. De madrugada as enfermeiras me ajudaram a tomar um banho e então pude conhecer minha filha, cheia de tubos e fios. Ali, do lado da incubadora, chorei e pedi pela vida da minha filha… com dez horas de vida, ela faleceu. Fui chamada na UTI pra conversar com a psicóloga e com as médicas, fui informada que precisaria providenciar o registro de nascimento e de óbito da Cecília, o traslado e o sepultamento, já que ela não era natimorta, e sim um nascido vivo que faleceu. Eu definitivamente não estava preparada pra toda essa burocracia.. precisei do pai dela, que não chegou a conhecê-la… foi horrível, tivemos que ligar pro trabalho dele e contar pros colegas o que aconteceu, até que ele apareceu e registrou a nossa menina. Optamos pela cremação, seria mais rápido e menos doloroso, no entendimento da minha família. Cecília foi cremada pelos meus pais e pelo pai dela, mas eu não estava lá, não tive liberação pra sair do hospital. Tive alta 4 dias depois, traumatizada e chocada com tudo que aconteceu. Não consegui pegar minha filha no colo, quando as médicas me trouxeram ela enroladinha num lenços, de touquinha, e morta, não tive coragem.
Dias depois o pai dela se reaproximou, conversamos sobre tudo, e seguimos juntos. Fomos buscar as cinzas dela e dispersamos num Santuário. Guardei as coisas que tínhamos comprado pra ela, comecei uma terapia com uma psiquiatra, um anjo na minha vida. Passei 4 meses em licença-maternidade pois tinha direito, meio perdida por não saber o que fazer com todo aquele tempo livre… Passou. Cecília virou um pequeno anjo que está comigo sempre.
Voltei ao trabalho. Voltei a viajar pelo Estado. Eu estava numa cidade longe de Porto Alegre, trabalhando, quando me senti diferente. Comprei um teste de farmácia e lá estava eu, de novo, fora de casa, sozinha, com aquelas duas listras na minha frente. Senti uma felicidade, pois nada aconteceria de ruim desta vez. Eu teria o meu bebê!
Novamente trabalhei viajando, mas logo fui chamada pra cobrir férias de colegas em Porto Alegre… eu estaria em casa! Com 3 meses já não viajava mais, comuniquei a chefia da minha gravidez e todos ficaram apreensivos. Trabalhava normalmente e fazia minha terapia pra enfrentar essa nova gravidez com melhor preparo. Tive vários conflitos com o pai do bebê, mas era sazonal.. bons e maus momentos. Com 23 semanas fiz um ultrassom que mostrou: é menina! Choramos abraçados e saímos felizes comprar o enxoval, o quartinho, tudo que poderíamos escolher naquele momento. Nesse mesmo ultrassom mostrou uma resistência aumentada nas artérias uterinas, eu nem fazia ideia do que era isso. Também mostrou uma maior chance de desenvolver pré-eclâmpsia na gestação. Mas não aconteceria nada, era só uma possibilidade… Na semana seguinte, com 24 semanas, meus pés começaram a inchar. Minhas mãos estavam sempre formigando, era estranho. Minha psiquiatra me levou ao hospital e minha pressão estava 17×10. Tive consulta com meu obstetra (havia mudado de obstetra pra me desligar daquela primeira experiência) e ele me explicou que a minha placenta não estava bem formada, os vasos eram frágeis. Disse que iríamos levar a gestação até onde desse. Passei 4 semanas indo ao hospital, fazendo exames, internando. Pintamos o quarto, montamos os móveis, eu estava me preparando porque a nossa segunda menina ia chegar antes e tinha que estar tudo pronto! Com 28 semanas de gestação, tivemos que fazer o parto, ela estava em sofrimento. Foi uma cesárea difícil, fiquei com uma cicatriz grande no útero, pois ela era pequena demais pra idade gestacional, já não estava recebendo nutrientes corretamente. Beatriz nasceu com 485gr e 38cm. Era muito restrita, nasceu respirando sozinha pois tínhamos feito o corticoide pra ajudar nos pulmõezinhos, chorou fraco e foi direto pra UTI Neonatal. Não pude pegá-la no colo e nem vê-la. Desta vez, meu companheiro estava comigo, mas não assistiu o parto. Foi conhecê-la na UTI, me contava como ela estava, como ela era. Conheci minha filha cheia de tubos e fios depois que saí da sala de recuperação, e pude caminhar até a UTI. Ali, novamente chorei e novamente pedi pela vida da minha segunda filha. Tive alta do parto e ela ficou internada. Todos os dias eu ia até o hospital, ficava com ela, no quarto dia tiraram a touquinha dela e eu pude ver que ela era bem cabeludinha. Um amor! Com 6 dias de vida, na mesma UTI em que a minha primeira menina esteve internada, ela faleceu. Recebi a notícia de que ela dificilmente sobreviveria numa manhã de sexta-feira. Estive com ela nos seus últimos momentos, até o coraçãozinho parar, eu segurei a mão dela. Depois que ela faleceu, retiraram os tubos e a enrolaram em um lençol, e então eu quis segurá-la. Apertei ela contra o meu peito, aquele bebê tão frágil e pequeno, e disse que nós tínhamos muitas coisas pra fazermos juntas. Meu companheiro chegou, tratamos da burocracia, fizemos uma oração, conversamos com minha psiquiatra que estava lá nos apoiando, e decidimos resolver os trâmites pessoalmente. Fomos providenciar registro de óbito, traslado e novamente, cremação. No dia seguinte cremamos nossa segunda menina, no mesmo local onde a primeira foi cremada. Novamente, dias depois, buscamos as cinzas dela e dispersamos no mesmo Santuário. Duas vezes, duas filhas diferentes, mesmo desfecho. Eu estava destruída.
Novamente, 4 meses de licença-maternidade e eu não sabia o que fazer com aquele tempo livre. Voltei a trabalhar, fiquei um tempo em Porto Alegre, fiz vários exames. Minha pressão seguiu alterada, fui medicada e investiguei Trombofilia. Deu positivo, tenho Trombofilia, uma alteração de coagulação que traz várias complicações na fertilidade e na gravidez. Me preparei, estudei a doença, meu irmão é casualmente médico Hematologista, ou seja, ele me trataria. Me preparei pra tentar de novo. Fiz estoque de medicação, conversei com meu Ginecologista, fiz academia, organizei minha mente, fiz muita terapia. Num dia, meu companheiro olhou pra mim e disse que me daria a menina que eu tanto queria, e que ela se chamaria Maria Eduarda. Estávamos num bom momento, desde que vivenciamos a perda da Beatriz juntos, nossa vida mudou. estávamos mais cúmplices, mais próximos, mais tolerantes. Estava planejando engravidar meses adiante, mas novamente senti que algo estranho estava acontecendo. Fiz as contas, olhei meu calendário, nem estava atrasada a menstruação ainda, mas eu me conheço: estava grávida. Lá estava eu, desta vez em casa, com meu companheiro perto, em frente às duas listras novamente. Agora sim eu teria o meu bebê. Imediatamente, avisei meu irmão e comecei a usar a medicação que eu tinha em estoque, uma injeção por dia, na barriga. Marquei consulta com o obstetra. Fiz um exame de laboratório. Eu estava com menos de 4 semanas de gravidez. Foi uma gestação muito difícil. Medo, medo, e medo.. e muita medicação. Eu usava anticoagulante, aas, cálcio, multivitamínico, anti-hipertensivo, sulfato ferroso. Todos os dias, onde quer que eu estivesse, carregava minha bolsinha com remédios e injeções. Fiz terapia, fiz hidroginástica, trabalhei, Fui transferida pra uma Unidade em Porto Alegre, dormia na minha cama todos os dias e trabalhava feliz, pois estava na segurança da minha casa, com meus médicos perto. Só comuniquei a gravidez a minha chefia quase no oitavo mês. Meus colegas foram percebendo a gestação com sete meses, mas eu não falava nada, não conversava sobre isso. Então, com 7 meses e meio assumi minha barriga, andava de macacão de gestante, só falava nisso. Todos se consternaram e me apoiaram. Trabalhei até oito meses e meio quando fui comunicada que meu parto seria antes, porque minha cesárea anterior tinha sido muito complicada. Não poderíamos arriscar entrar em trabalho de parto. Preparei o quartinho com os móveis e as roupas que tínhamos comprado pra Beatriz, e as fraldas e produtos de higiene que tínhamos comprado pra Cecília, e mais algumas poucas coisas que compramos novas. A terceira gestação foi um processo, uma soma das outras duas, e mais algumas coisas novas que se intensificaram no final. Eu nunca havia tido barrigão. Nunca tinha passado da 28 semana. E lá estava eu, com 30 semanas fazendo as fotos de gestante com meu companheiro, que nunca desistiu, mesmo com todos os conflitos, mesmo com todas as decepções. Com 32 semanas de gestação eu fiz o chá da Maria Eduarda, lindo, incrível, emocionante. Nossa terceira menina nasceu linda e saudável com 37 semanas de gestação e 3.215gr e 48cm. Foi direto pro meu colo, chorou em alto e bom som e preencheu aquele vazio da sala de parto. Eram dois obstetras, anestesista, hematologista, psiquiatra, pediatra, e o pai dela do meu lado, presente, paramentado, com ela no colo. Foi a cena mais linda que eu vi. E então pude ter os meus 4 meses de licença-maternidade e soube muito bem o que fazer com aquele tempo livre…. teve muito choro, muita fralda, muito leite, muitas canções de ninar, muita dor nos braços, muitas noites em claro, mas tudo com um gosto de vitória.
Olhando pra trás, vejo que a vida dos meus anjos não foi em vão. Elas me deram força pra seguir a vida. Foram uma gestação em 2013, uma em 2014 e uma em 2015. Meu corpo está marcado e minha alma está lavada. Agora eu tenho o meu bebê.

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5 comentários Adicione o seu

  1. Manuela Zubaran disse:

    Admiro sua força e sua coragem!!!!!! Sejam profundamente felizes…

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  2. elisamorales08 disse:

    Lindo, lindo, lindo! Mulher, você é forte!
    Que maravilhosa história de superação, de fortalecimento, de fé. Com certeza as dificuldades da maternidade tem um outro significado pra você.
    Muita saúde e vida plena, pra você, seu companheiro e sua menina. Deus abençoe grandemente!

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  3. Gabi disse:

    Chorei! Com a dor de uma mãe que também já perdeu dois. Com a alegria no coração cheio de esperança de ter o meu terceiro em breve encomendado! Saúde e vida longa à família! Beijos.

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  4. Fe Augusto disse:

    Chorei, chorei e chorei…
    Mas chorei de felicidade ao ler que seu final foi feliz, a cada linha sentia uma agustia não qurendo acreditar que vc passaria por duas perdas tão grandes para finalmente conseguir ter sua amada e tão sonhada filha.
    Não sei se eu teria tanto força para seguir adiante como vc teve, mas fiquei orgulhosa e feliz em ler que vc conseguiu.
    Tenho certeza que é uma ótima mãe e acredite, eles são sempre capazes de mudar basta eles quererem!
    Bjss e parabéns!

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  5. Alcineide Mendes disse:

    Que história linda,intensa! Curta muito seu bebê e sejam imensamente felizes.

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