Estrelinhas de luz da minha vida

Luciene, 2 anjinhas no céu, Pedagoga, 36 anos


Helena 08/05/2014 – 29/07/2014
Júlia 22/05/2015 – 15/11/2015

Florzinhas, estrelinhas de luz da minha vida, pedaços de minha alma, eu as amo tanto, tanto, que peço todos os dias a Deus que vocês consigam seguir seus caminhos apesar de minha infinita saudade.

Helena minha primeira filha, de maio, você veio numa grata surpresa, pois embora planejada não contávamos que nossos caminhos se cruzariam tão cedo. A ciência que estava ao meu alcance naquele momento não me permitiu avaliar condições e me fez crer que praticamente nenhuma verificação se fazia necessária para preparar sua vinda. Ledo engano. Sequer me foi permitido sentir seus movimentos, antes que eu pudesse saber ao certo quem você era, tive de me preparar para a despedida. Era muito cedo para que eu pudesse vê-la sem que isso fosse impactante e traumático. Em 10 semanas partiu, em 12 soube de sua partida.
Como deixar você ir sem saber o que a impedia de estar comigo? Você que me fez mãe, que me permitiu realizar o amor aguardado por uma vida inteira! Como deixá-la ir sem cuidar do que não me foi permitido em sua curta vida? Busquei a ciência em diversas fontes, pedi auxílio a Deus diariamente e conseguimos descobrir o que a tinha levado de nós. A jornada não foi fácil. O mundo tentava me convencer de que você não chegou a existir, quer fosse para eu me consolar por sua partida ou para facilitar o meu manejo. Sim, eu sabia que existia a possibilidade de não obter as respostas, mas nem por isso deixei passar em branco, pois você valia cada consulta, cada exame, cada leitura, cada troca de experiências. Você tinha o direito de partir, mas eu não podia deixar sua partida ser em vão. E não foi.
Helena minha amada, você evitou que a mamãe tivesse outros problemas no futuro, você evitou possíveis complicações médicas ou fatais em seus irmãos mais novos, você me inseriu num universo onde diariamente me é concedida a bênção de esclarecer outras mamães, confortar outros corações, somar e compartilhar conhecimentos e emoções que criam redes de apoio a tantas mães em silêncio. A cada mamãe que me agradece, é você filha, a responsável pela capacidade que eu desenvolvi de esclarecer algumas dúvidas e acalentar aquelas mãezinhas.
Foi duro, precisei aguardar a cura do corpo e a resignação da alma, deixar fechar a cicatriz para então dar seguimento ao único plano sempre presente em minha vida. Não seria justo comigo nem com você alterar este curso, muito menos tentar esquecer a sua passagem.
Trombofilia: predisposição a eventos trombóticos, em especial quando em situações favoráveis, dentre elas a gravidez.
Você permitiu que a mamãe se cuide durante situações favoráveis à trombose evitando uma embolia pulmonar ou vascular, TVP, tromboembolismo cerebral, aumento de homocisteína e suas consequências venosas e arteriais. Você permitiu que a mamãe cuide para evitar em seus irmãos, morte fetal por trombos na placenta ou cordão umbilical, resistência das artérias uterinas, restrição de crescimento e tantas outras possíveis complicações mais ou menos fatais. E graças a tudo que você me ensinou, me senti forte e confiante para lhe dar uma irmãzinha, assim veio a Júlia.
Julinha, minha segunda filha de maio. Parecia que os céus haviam decidido me trazer um bebê no carnaval. E assim você veio com a bênção de sua irmã mais velha, com todos os cuidados desde antes de sua vinda e redobrados com a descoberta de sua presença, bem antes do tempo em que tradicionalmente as mamães se descobrem acompanhadas. E aquilo que teimam em chamar de estímulo aversivo, era nada menos do que a razão da minha felicidade. Existia uma forma de tentar contornar com grandes chances de sucesso aquilo que havia levado sua irmã um ano antes. O que são injeções abdominais diárias diante da manutenção de sua vida? Nada! Doendo ou não, sangrando ou não, com ou sem edema, com ou sem hematoma, um custo baixíssimo diante de tamanha felicidade. Tivemos muito medo, desde o primeiro risquinho indicativo de sua existência. Aprendemos muitas coisas no ano que se passara, inclusive que aquele risquinho podia significar tudo ou nada, felicidade ou tristeza, alegria ou luto. Mas você foi forte, do primeiro ao último dia. Quando todos me preparavam para te ver sem poder ainda te ouvir, você estava lá, pulsando forte essa vida que Deus te deu, mostrando a todos seu coraçãozinho acelerado. A cada exame, um frio na espinha, um medo latente que despertava, mas você sempre me mostrando que os anticoagulantes estavam dando conta do recado. E deram mesmo, do primeiro ao último dia.
Um dia, meu corpo começou a dar sinais do que te ocorria, mas nada conseguia ser detectado. Meu corpo doía, mas não estava doente, os exames estavam normais. Suas imagens não seriam capazes de ver o terror invisível que lhe assolava. Desde o primeiro dia, um pavor, uma pontada no peito que em tese não se justificava, pois não existiam sintomas indicativos de que eu pudesse lhe passar algo. Mal sabia eu que já tinha passado, meses antes e que você resistiu bravamente até onde lhe foi possível. Meu corpo não refletia algo de errado em mim, refletia a devastadora infecção que acometia você. Eu que a vida inteira gozei de muita saúde a ponto de sequer contrair vírus banais que praticamente toda criança e adolescente do mundo contrai ao longo da vida, tornando-se adultos imunes a eles, na gravidez, condição de natural queda de imunidade, acabei contraindo de forma assintomática, totalmente silenciosa. Sim, banais, assintomáticos na maioria das vezes, mas devastadores durante a gravidez. Sempre soube que não tinha anticorpos para Citomegalovírus, mas segui confiante de que a probabilidade de contrair aparentemente não era grande. E realmente, não o contraí, mas sim seu “primo” desprezado o Epstein Barr, aquele tão comum entre crianças pequenas e principalmente em adolescentes. Desprezado, pois apesar das semelhanças, nunca havia sido associado a problemas gestacionais o que o torna algo nunca verificado antes da concepção nem acompanhado durante a gestação, pois simplesmente todos os médicos do mundo inteiro aprenderam que não precisa. Aí o universo resolveu que o primeiro registro na literatura médica seria o seu! Ah, filha, só de lembrar o quanto seu corpinho sofreu até seu último dia na Terra, parece que o mundo se abre novamente sob os meus pés, o ar me falta, o peito se afunda e o mundo parece não fazer sentido. Deus me deu duas filhas com breves vidas que vieram para ampliar as possibilidades de vida dos outros. Nem eu em mais de três décadas me percebi sendo capaz de ajudar tanto o próximo quanto vocês fizeram em tão pouco tempo. Você não há de ter sido a primeira filha, outros bebês podem ter tido a vida encurtada por esse vírus sorrateiro, mas nós tivemos a primeira oportunidade de investigação e estudo. Filha, eu não ligo de me chamarem de louca, de neurótica, obcecada, apegada, você e sua irmã ensinaram muito e se eu não tivesse insistido não teria aprendido nada com vocês. Lembra que a mamãe não deixou a Helena partir sem explicação? Não poderia ser diferente com você.
Tivemos mais tempo, cantamos, dançamos, ouvimos músicas, conversamos sobre o mundo que te esperava aqui fora. Muitos aguardavam por você, assim como aguardaram a Helena. Conseguimos encontrar as melhores parcerias para os nossos cuidados, você nos supreendida com seu desenvolvimento acima da curva, mas seus planos foram alterados. Você cresceu bastante, já estava perfeitinha e mesmo sabendo que jamais sentiria sua respiração, aguardamos 3 intermináveis dias para te conhecer de pertinho. Ainda tão pequena, com pouquíssimo esforço você nasceu, papai cuidou de você, conversou, limpou seu rostinho, deixou comovida toda equipe que não esperava a cena de amor que vocês protagonizaram. Finalmente te trouxeram para o meu colo e me correm as lágrimas ao lembrar que eu não conseguia levantar para te beijar, tive que levar na ponta dos dedos até o seu rosto. O rostinho da família, herdado da bisa Almerinda e os lindos cabelos negros herdados do papai. Eu queria ter ficado mais tempo com você filha, mas sei que todo tempo do mundo não seria suficiente. Nossa fada madrinha até hoje também sente sua falta, também custou a acreditar que você tinha partido quando dei a notícia, ela esteve conosco todos os dias.
Meninas, papai tenta ser forte, sente-se triste por perder vocês e por não ser capaz de retirar a minha dor. Ele sempre esteve conosco nos bons e maus momentos, também cantou, tocou, acariciou, fez tudo que estava ao seu alcance. Mamãe precisa sempre lembrá-lo de que ele pode e deve chorar a dor de perdê-las.
Queridas, o mundo pode não saber, mas sempre seremos seus pais não importa o que digam. Vocês podem vir a ter outros irmãos, mas eles nunca tomarão o lugar de vocês, a saudade sempre estará presente, seremos felizes, mas sempre levaremos a cicatriz dessa ferida.
Julinha, você também me ensinou que certas “perebas” são mais resistentes no ambiente do que eu imaginava e que essa barreira de aço da mamãe fica frágil durante a gravidez. Quem me dera ter sido uma louca neurótica vivendo numa bolha, você ainda estaria aqui. Assim como a Helena, você também trouxe mais uma informação importante para a proteção do próximo irmão ou irmã. Agora além da trombofilia temos que dar um jeito de evitar o Citomegalovírus que causa também tantas devastações em quem está ainda em formação.
Não sabemos ainda como será isso filhas, mas confiamos que a cada novo conhecimento que nos é concedido, novas barreiras são ultrapassadas.
Sim, temos medo de dar a vocês outros irmãos e que eles também partam precocemente, mas esse medo não é maior do que o medo de deixarmos de lado a razão da existência de vocês em nossas vidas. Vamos seguindo, nos recuperando e ajudando os pais que vivem dificuldades parecidas neste mundo que faz de conta que esse tipo de morte não acontece.

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