Adoção: ser pai/mãe é uma questão de escolha

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Por Rafaela Schiavo – 15 Novembro 2016


A Adoção em nosso país inicialmente teve uma característica de caridade, em que os ricos prestavam assistência aos mais pobres; os chamados “filhos de criação” se tornavam muitas vezes mão de obra gratuita. Tal fato contribuiu para os mitos e preconceitos que encontramos hoje na sociedade em relação à adoção (MAUX e DUTRA, 2010).
Até os anos 80, cerca de 90% das adoções no país eram realizadas por prática ilegal, ou seja, registravam-se as crianças nascidas de outra pessoa, sem passar pelos tramites de legalidade; geralmente essa prática era realizada por casais que não conseguiam gerar filhos biológicos. Ainda hoje, mais da metade dos casais que querem adotar uma criança são os que não conseguem gerar filhos biológicos. Há também um número expressivo de pessoas que desejam adotar, mas dizem não saber como iniciar um processo de adoção legal.
Para Maux e Dutra (2010) “embora a experiência da adoção seja singular para cada família, existem aspectos que são frequentemente observados, como a relação adoção e caridade; adoção e infertilidade; adoção e problemas de aprendizagem; além dos mitos e medos em relação à revelação da adoção para o filho”.
Um dos mitos presentes no processo de adoção é o do laço consanguíneo: acredita-se que a personalidade do sujeito é construída devido a sua genética. Tal fato é um mito, pois a personalidade não é dada geneticamente, mas sim como uma construção sócio-histórica do sujeito, na sua relação e experiências com o meio.
Ser pai e mãe – seja de filhos biológicos ou de filhos adotivos – sempre será uma atividade de aprendizagem. Ninguém nasce pai e mãe, todos aprendem a ser pai e mãe. Além disso, todos têm um filho imaginário/idealizado que geralmente não corresponde ao filho real. Isto quer dizer que cada um cria uma fantasia a respeito de como será sua vida parental e como serão seus filhos, atribui características físicas, psíquicas e comportamentais a essa criança imaginada e, portanto, quando se tornam pais, nem sempre o filho imaginado corresponde ao filho real, seja ele biológico ou não.
Pais e mães, de filhos biológicos ou não, sentem ambivalência (amor e ódio) pela atividade parental, pois ser pai e mãe implica em mudanças de comportamento, assumir responsabilidades, gastos financeiros, alterações emocionais, entre outros. Esses fatores fazem a parentalidade ser sentida como algo bom e ruim ao mesmo tempo, pois educar um filho – biológico ou não – é sempre uma tarefa difícil. E deve-se, em ambos os casos, sempre pensar se de fato quer ou não assumir as responsabilidades de educar e formar um cidadão.
Não há diferença, portanto, entre ser pai/mãe de filhos biológicos ou adotados; são filhos e pronto. Não há uma idade certa para dizer ao filho que é adotado, assim como não há uma idade certa para falar ao filho como ele foi gerado. O momento certo é sempre quando lhe é perguntado, independente da idade da criança. O que não é adequado é esconder do sujeito a sua própria história.

A pergunta que deve ser feita antes de engravidar ou adotar uma criança é: “Quero ser mãe/pai?” ou “Quero ter um filho?”. Se a resposta for quero ter um filho, é provável que seja melhor pensar mais um pouco a respeito da situação, pois ter um filho muitos têm, mas ser pai e mãe é uma tarefa desafiadora que implica aceitação do filho real, renúncia e luto do filho idealizado, aceitação de que não se cria um filho para si, mas para a sociedade e que para isso é importante assumir comportamentos como cuidar, proteger e educar.

Referências
MAUX, A.A.B; DUTRA, E. “A adoção no Brasil: algumas reflexões”. Estudos e Pesquisa em Psicologia, v.10, n.2, p.356-372, 2010.

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