Mãe e filha sofrem com machismo. Basta ser mulher para sofrer por isso.

Renata, Sem filhos, desempregada, 19 anos

Desabafo Anônimo: Estou passando por uma barra. Sempre passei. Desde criança, meu pai é extremamente controlador, possessivo, agressivo, machista, o que o torna muito abusivo. Não tenho lembranças brincando na rua e fazendo besteira como qualquer criança. Ficava sempre presa em casa. Sentia uma angustia por não poder brincar como as outras crianças, sentia medo, por meu pai sempre me ameaçar se eu tivesse algum comportamento que não o agradasse. Isso acabou afetando meu psicológico, e hoje tenho consciência que desde a infância me tornei uma pessoa insegura e depressiva. Até minha pré adolescencia, quando ele deixava eu sair uma vez por semana. Mas se eu chegasse 10 minutos atrasada, levava porrada. Minha primeira paixão, porrada. Falar no telefone com minhas amigas em casa, monitorada. Tudo ele me controlava. Até que cresci. Cheguei aos 12/13 anos. E cheguei em casa 22:30, o combinado era 22h. Muita porrada. Minha mãe vendo e não fazendo nada. Ele me encurralando na parede, e me dando muitos socos. Me pegando pelo cabelo. Tentando me enfiar dentro de um carro a força para ir brigar com a amiga que eu estava (e que não tinha culpa de nada!).

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Desde então prometi a mim mesma que não disperdiçaria mais minha vida por um pai controlador. Já havia me acostumado a tomar porrada, o corpo já era calejado. Saía na madrugada escondida. Dormiam 23h, acordavam 6h. Eu saía 23h, voltava as 5h. Conheci o baile de comunidade. Primeiro contato com drogas. Primeiro gole na bebida, na intenção de esquecer o que me doía. E assim foi, por semanas. Conheci o álcool, solventes, sintéticos, fumos e a perda da virgindade. Fiz o que quis com o cabelo, coloquei o piercing que tanto queria. Com 13 anos eu finalmente senti que correspondia a idade que tinha. Apesar de ter perdido fases importantes da minha formação, me sentia uma mulher. Ele já não me controlava mais. Porrada? Já havia me acostumado. E eu me sentia dona de mim. Escritora da minha história. E eu não fazia as coisas para chamar atenção, como muitos dizem que adolescentes rebeldes fazem, e sim para desviar a atenção, me sentir distante. Me entorpecia todo dia. E esquecia a dor que carregava dentro de casa. Aos 16 anos sabiam que eu não seria mais domada.  Saia e voltava a hora que quisesse. A rua me ensinara a respeita-los como meus pais. E me respeitar como mulher. Na verdade, a rua me ensinou tudo que sou hoje. Me ensinou a não deixar meu pai vencer meu psicológico. Comecei procurar formas de obter autoconhecimento. Reaprendi o que é amor, quando comecei acampar. Aprendi a importância do coletivo, do ajudar ao próximo. E até então larguei as drogas sintéticas e solventes,  apenas fumava e bebia. Bebia muito. Com 17 anos eu bebia caninha da roça como um velho que fica o dia todo no bar da esquina. Comecei me sentir em casa, próximo a natureza. Numa comunidade isolada da cidade, revivi o que deveria ter sido minha infância. Me reencontrei. Sentia o amor pleno em mim. Meu anjo surgiu em meio esse acampamento. Foi amor. Ficamos juntos, meses morando na praia. Decidimos ficar juntos. Apresentei aos meus pais, voltei a morar em casa, ia procurar emprego e escola para nós dois, tudo estava ficando perfeito, eu já era dona de mim, escritora da minha história, mas ainda morava no teto do meu pai. Até um dia, de madrugada, dentro do meu quarto, porta fechada, eu e meu namorado no começo de uma transa, meu pai me abre a porta. Puta, suja, vagabunda, piranha. Eu deveria ir embora com meu namorado, mas ele me permitiu passar a noite. Dia seguinte, nos expulsou. Meu namorado me levou pra casa dele então, novembro/2015. Vim morar com ele. Outro bairro, outra família, e no começo me senti acolhida, pois eu não imaginava que depois de anos, me veria naquela situação de submissa novamente de ser julgada, tachada e agredida (verbalmente). Eu estava errada? Transar no meu quarto, de madrugada, de portas fechadas, com o namorado que já havia dormido la outras vezes? Enquanto meu irmão, levava a namorada e podia dormir la tranquilamente. Eu chorava. Eu sabia que era erro do meu pai, mas respeitei pois sei que ele tem o modo de pensar dele, aliás ele tem 60 anos. Mas chorei muito, pois minha familia me abandonou. Todos viraram as costas, só por eu estar amando. No Natal, minha mãe me procurou e eu achava que a ceia seria uma boa oportunidade de reconciliação. No dia fui pra minha casa mais cedo, ajudaria na cozinha e me arrumaria la. Quando chego no meu quarto, tudo estava diferente. Minha mãe havia jogado coisas especiais minhas, no lixo… Desrespeitaram tudo que até então eu tinha, por menor valor material que tivesse, eram as únicas coisas que eu tinha. Fui reclamar com minha mãe e questionar o motivo dela ter feito isso, e meu pai se meteu, pegando o resto das minhas coisas (que estavam numa sacola) e jogando forte contra o chão, a fim de quebrar, por nada, só para me magoar. Não abaixaria a cabeça novamente, minha vida toda fiz isso e custou minha felicidade por muito tempo. Comecei eu mesma gritar, e quebrar minhas coisas. Dizendo que o material pouco me importava, que eu me desprendi desse apego. Que ele não ia me afetar assim. Ele partiu pra cima de mim, eu revidei. Pela primeira vez reagi. Me defendi com o pé, e pegou no rosto dele, gerando um leve sangramento no dente, como quando passamos fio dental e machuca a gengiva. Ele me expulsou. Não iria participar mais da ceia. Fui pra rua, com minha humilde bolsa, com poucas roupas. Uma amiga me acolheu. Meu namorado, estava com a família e amigos, e não tinha como eu ir para lá (ele mora em bairro distante, já era tarde). Passei o Natal de 2015 dormindo. Doeu. Mas eu estava ficando calejada cada vez mais. Demorou para uma aproximação. Minha mãe veio falar comigo, eu jamais fui de guardar rancor e trata-los mal, então eu falava normalmente, como se estivesse bem e feliz. Talvez por isso nunca perceberam a angústia que vivia dentro de mim. Transparecia alegria. Só para não criar aquele clima chato. 2016 me mantive mais distante. Sabia que era a melhor forma de evitar atrito, e nos darmos bem. Até que, em 2016 não houveram brigas. Eu não posso reclamar da vida que levo, mas estou desempregada ainda. Morando com meu namorado, e isso gera certas necessidades, que sei que são temporárias. Até que em setembro, soube que minha mãe tentou se matar. Tomou um vidro de rivotril inteiro. Só fiquei sabendo uma semana depois. Soube da história. Minha mãe suspeitava que meu pai a traía, ela brigou com ele, e ele propôs uma separação. Minha mãe largou a carreira para cuidar dos filhos e vivia dependente dele.

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Provavelmente se viu sozinha, pois meu irmão a magoou só porque ela precisava de um tempo sozinha depois da discussão e ficou o dia todo na rua espairescendo e não botou a comida pra ele (detalhe o ser tem 22 anos!), ele a tratou mal, incentivou que meu pai separasse, ela ouviu a conversa escondida, entrou no quarto e virou um vidro de rivotril em gotas. Uma semana dormindo, e eu só soube quando ela ja estava fora do hospital, na casa da minha avó. Assim que soube, fui para la. Pude perceber que tudo que eu sofria com meu pai, ela tambem sofria. Todo machismo, opressão, controle… E que ela, minha mãezinha, era uma menina tão frágil como eu, numa casa com dois homens extremamente machistas, opressores, sem coração … E isso acaba comigo. Ela voltou, por conselho de uma psicóloga, para a casa do meu pai, que é dela, e meu pai me prometeu que esperaria ela fazer o tratamento da depressão antes de separar. E creio que é isso que ele está fazendo, mas todo dia me dói saber que minha mãe é obrigada a cuidar de dois marmanjos como se fossem crianças. Me dói saber que tudo que sofri e tive força e iniciativa de fugir, minha mãe sofre e não pode escapar. Nos falamos todo dia e ela parece melhor. Mas sabe como depressão é. Eu sofro, por não ter um emprego e não poder oferecer amparo pra minha mãe, que depende do meu pai há 23 anos e tem medo do que possa vir após a separação. Eu sei que o melhor pra ela seria se separar, meu pai é muito abusivo e meu irmão uma cópia dele. É o melhor pois foi o melhor para mim. Mas não quero vê-la sofrer. Mãe e filha sofrem com machismo. Basta ser mulher, para sofrer por isso. Sigo sofrendo, hoje, pelo meu desemprego, minha mãe estar sofrendo, minhas necessidades, esse mundo cruel com as mulheres.

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2 comentários Adicione o seu

  1. Fernanda Fehr disse:

    Renata. Também sofri e sofro muito com o machismo. Mas no meu caso minha mãe apoia as ações machistas, mesmo ela tendo sido uma mulher independente. Só me preocupa o fato de seu pai dizer que vai se separar dela quando ela melhorar da depressão. Pelo que conheço de machistas ele vai fazer de tudo para ela nunca melhorar e continuar sendo a escrava dele. Se alie a ela. Só assim vcs conseguem superar isto.

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  2. LUDMILA RAQUEL disse:

    Quanto sofrimento e quanta força! E que grande chance de resgate da sua mãe. Juntas vocês vão conseguir, estou muito na torcida por isso. Dê mais notícias!

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