Temos que falar sobre Interrupção Voluntária da Gravidez

Desabafo Anônimo: IVG – Interrupção Voluntária da Gravidez (precisamos falar sobre isso)

Havia feito 30 anos quando decidi ser mãe, nunca havia sido um sonho até então. Assim que parei de tomar pílula em um mês engravidei, felicidade total, era dia 02/02/2012. Tudo correu normalmente até a ecografia morfológica das doze semanas. Fizemos com onze semanas e quatro dias. A translucência nucal alterada indicava que poderiam haver alterações no feto. Não conseguiria aguardar até 16 semanas. Fizemos nova eco que identificou ainda mais alterações. Optamos pela BVC (Biópsia de Vilo Corial)  em cinco dias o resultado revelou um menino com Síndrome de Patau, de incidência rara e incompatível com a vida e que poderia levar minha vida junto caso levasse adiante. Seis médicos foram unânimes em sugerir a IVG. Meu mundo caiu! Fui do céu ao inferno em segundos. Mas eu não teria estrutura física e psicológica para levar uma gestação adiante que poderia acabar a qualquer momento ou ver meu filho morrer logo após o nascimento. Enterrar um filho, carregar as marcas no corpo de um bebê que não poderia ser carregado no meu colo não seria algo que eu soubesse lidar. Agendamos o procedimento para dali uma semana. Foi a pior decisão e atitude que precisei tomar na vida. Eu estava optando por matar meu tão desejado filho. Uma mistura de sentimentos me tomaram. Me sentia incapaz de gerar um filho saudável, vergonha e uma enorme tristeza que jamais havia tido. Logo eu tão pra cima estava no mais lodacento fundo do poço. Como a via legal poderia levar meses fizemos tudo dentro das brechas legais. Fui extremamente bem assistida, mas me perguntava sobre como fazia quem não tinha a mesma sorte que eu por ter família e equipe médica do meu lado. Foi tudo muito rápido e dolorido, no corpo e na alma. Uma injeção letal na barriga e vinte minutos depois meu filho estaria morto. Deste dia até a indução e curetagem foram uma semana. Carregar meu filho morto no ventre foi horrível. Me sentia assassina, um caixão. Decidimos que esse bebê não viria em vão, iríamos doar o feto para uma Universidade para estudos e maior conhecimento. Providenciamos a papelada. Dei entrada no hospital e começou o processo de indução que duraria mais de vinte e quatro torturantes horas até o momento em que finalmente o útero expulsou o feto. Nesse período estava alojada em um box ao lado de várias gestantes que chegavam para ganhar seus bebês. Ouvia seus ultrassons, os choros de seus filhos e só pensava que eu não iria sair dali com o meu. Senti então meu bebê sair, as partes de seu corpinho. Não quis ver. Não queria guardar mais esta trágica lembrança. Senti nessa hora um alívio, sentia que tudo finalmente estava acabado. Na época eu trabalhava numa escola com crianças de todas as idades. Voltei ao trabalho e só conseguia ficar no berçário. Ao final do dia chorava voltando para casa. Até que um dia eu não consegui levantar. Nunca havia sentido depressão e confesso que achava que isso não existisse. Conheci o lado negro da depressão quando percebi que não tomava banho nem comia há 3 dias. Ali percebi que precisaria me afastar do trabalho temporariamente e que precisaria de remédios para me auxiliar. Eu não sou triste assim! Tudo que queria era engravidar logo, como se uma nova criança pudesse substituir a anterior. Percebi que ninguém merece nascer para substituir ninguém. Aos poucos fui retomando o ritmo normal, mas ainda hoje, quase quatro anos depois tive duas filhas lindas e saudáveis, mas a dor do que passei com meu menino e a culpa pelo que fiz a ele me perseguem diariamente. Me doía e me dói ainda a clandestinidade pela qual fui obrigada a passar pela legislação em vigor que nos faz sofrer duas vezes num momento como esse, pois não prevê todos os casos de incompatibilidade com a vida que justifiquem uma IVG. Até pouco tempo tinha vergonha de falar sobre isso, culpa, medo. No dia da curetagem foi sancionada a lei que permite aborto de anencéfalos e frutos de violência sexual. Mas ainda espero que nossos debates legais a respeito saiam de debates religiosos ou ideológicos e pensem pelo o que passa uma mãe numa hora triste como essa. Por muito tempo me senti só, mas quanto mais pessoas eu confessava esse caso, mais histórias surgiam. Onde estavam essas mulheres que não podem falar sobre seus abortos? Espero que ninguém passe pelo que precisei passar. Temos que falar sobre IVG.

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