Somos sobreviventes de uma pandemia

Não está nada fácil. A primeira vez que falei sobre o Coronavírus aqui na página, estávamos no 3º dia de confinamento, eram 11.000 contágios e 500 mortos aqui na Espanha.

Naquele momento a gente ainda não fazia ideia do que estava por vir. O vírus veio arrebatando muitas vidas, muitas certezas, muitos empregos, muitos planos.

Eu perdi o emprego há 2 meses, justo quando declararam o estado de alarme por aqui. Demoraram quase 2 meses para me pagar o proporcional do seguro desemprego. Desde o primeiro dia estou procurando trabalho e até hoje não há uma luz no fim do túnel.

Os primeiro dias foram estranhos, a primeira semana foi um baque: sem trabalho, escolas fechadas, confinamento. A segunda semana foi bastante complicada: a incerteza de se o estado de alarme ia se estender, a dúvida sobre como vírus ia se propagar, a filha de 6 anos tendo crises de tristeza e super sensível. A terceira semana foi mais tranquila em casa mas muito mais difícil na rua: milhares de pessoas contagiadas, vários mortos, a curva subindo desenfreadamente.

E quando a gente viu, já estávamos há um mês encerrados em casa, sem poder viver a rotina de antes, e com uma previsão bastante alarmante, afinal, estamos enfrentando uma PANDEMIA. UMA PANDEMIA. ESTADO DE ALARME. CONFINAMENTO. UFA, QUE SUFOCO.

Ainda estava por vir um período muito triste e difícil com as mortes aumentando aos centenares cada dia, os contágios aumentando aos milhares diariamente. Nós por um lado felizes de ter o privilégio de estar em um país onde o governo decretou o alarme relativamente cedo, onde temos uma casa confortável para passar esse tempo de confinamento.

E as horas, dias, semanas seguiram passando. Eu tive suspeita de estar com o vírus e durante esse primeiro período estava sendo monitorada por telefone quase que diariamente. Eu tinha tosse e nenhum outro sintoma.

Eu acho que tive falta de ar desde o primeiro momento que o vírus se instaurou, mas a minha falta de ar eu não sabia se se devia ao Coronavírus ou a minha angústia. A impotência, o medo, a tristeza tomaram conta e se instalaram profundamente quase sem eu perceber.

Normalmente, de noite, antes de dormir essa falta de ar, o coração batendo a milhão, a angústia estava grudada em todas as células do meu corpo. Antes de dormir era sempre (e ainda é) a pior parte de tudo que está acontecendo. Respirava fundo para ver se era falta de ar mesmo ou se era uma crise de pânico ou de ansiedade que estava chegando… e aos poucos consegui dormir.

E o sono não é tranquilo, sonhos estranhos, pesadelos gráficos, medos do passado, do presente e do futuro continuavam a me perseguir inclusive durante o sono desregulado, horários totalmente diferentes do habitual, cansaço mental nada mais acordar.

Muita conversa com a filha pequena, muita energia boa estar com ela, atividades escolares ajudaram a ela a lembrar que a escola existe, que a profesora pensa nela e facilitou a que ela tivesse vontade de fazer coisas pequenas mas que ajudam a seguir adiante, a distrair, a estar tranquila.

Muita conversa com a minha melhor amiga sobre a situação surreal que estamos vivendo, somos sobreviventes de uma pandemia. Muito choro enquando a cria dorme, muitas dúvidas e uma certeza: que menos mal que estamos juntas nessa luta, que conseguimos encontrar uma certa harmonia em casa e que somos pessoas que estamos cumprindo as regras, estamos na medida do possível preparadas para o que ainda está por vir, que vamos juntas nesse caminho tortuoso da epidemia.

Agora as crianças podem sair 1h por dia para dar um passeio e ao memo tempo que isso é um alívio depois que elas estiveram confinadas quase 2 meses, surgem “novidades” sobre como o vírus se comporta nas crianças, está se falando de efeitos novos que antes não se sabia. Tem que ficar de olho com alguns sintomas novos e as internações de crianças de menos de 10 anos aumentaram durante os últimos dias.

Parte da Espanha está em processo de desescalada que vai se dar em 4 fases. Aqui na Catalunha onde nós moramos poucos lugares passaram da fase 0 para a fase 1, aqui em Barcelona onde moramos, segue a fase 0. Pra nós, chega a ser um alívio, porque já vemos muita gente nas ruas, vemos algumas (várias?) pessoas descumprindo as normativas e também vemos um rebrote na China e Coréia do Sul.

Estamos há 2 meses confinadas. É difícil de cair essa ficha. Mas a realidade é essa: estamos enfrentando como guerreiras uma PANDEMIA em pleno 2020. Uma pandemia que é cercada de incertezas, que o cientistas vão descobrindo a cada dia algo novo, diferente e que não dá grandes esperanças de que vamos a ter uma ideia de quando isso tudo vai se estabilizar, pelo menos, porque acabar já sabemos que não vai.

O que se fala por aqui, é que com sorte o vírus vai dar um descanso em Setembro e Outubro e provavelmente em Novembro, quando chegue o outono, vai haver muitos casos novamente, sendo possível um confinamento outra vez, sendo possível o fechamento de escolas outra vez.

Dos mais de 200 mil casos que temos hoje, mais de 100 mil seguem ativos, estamos longe de conseguir controlar a pandemia.

Eu falo isso tudo, outra vez aqui, porque voltando ao início do texto, a primeira vez que me manifestei eram “apenas” 11 mil casos e 500 mortes. Hoje são 229 mil casos confirmados e 27.104 mil mortos.

Quando eu trouxe a realidade aqui, as pessoas estavam muito preocupadas aí no Brasil, pediram pra que eu falasse mais, pra fizesse uma Live contando como estava a coisa por aqui.

Hoje no Brasil são 179 mil casos e 12.484 mil mortes.

E ainda assim parece que não aprendemos nada enquanto humanidade. Parece que existe uma grande parcela da população que ESCOLHE não ver a realidade, que escolhe não aprender de outros países e agora mesmo, ESCOLHEM IGNORAR O QUE ESTÁ ACONTECENDO NO PRÓPRIO PAÍS!

EU VOU DIZER E REPETIR QUANTAS VEZES FOREM NECESSÁRIAS: FIQUEM EM CASA. FIQUEM EM CASA. FIQUEM EM CASA!!!

Aqui, em teoria, “o pior já passou”, chegamos ao pico dos contágios, os hospitais já não estão sobrecarregados e estamos em desescalada. Mas ainda assim temos 100 mil casos ativos. Não podemos relaxar de forma alguma.

Em 24h foram 184 mortes, ou seja, um avião lotado. Mas isso agora, parece bom em comparação as 900 e poucas mortes que foi o record em um dia aqui na Espanha. Veja bem, é pra se “alegrar” que “só” 184 pessoas morreram de ontem pra hoje.

A gente não sabe ainda os efeitos globais a curto, medio e menos ainda a largo prazo dessa pandemia.

Uma coisa que eu sei é que a gente aqui, está já vendo os efeitos na sociedade, vendo os efeitos psicológicos, vendo as mudanças de padrões de comportamento e sono, nem que seja na gente mesmo.

Outra coisa que eu sei, é que seguimos com dúvidas, incertezas. Seguimos sem saber quando e como a coisa vai “estabilizar”. Seguimos, com dias melhores outros piores. Seguimos chorando e gargalhando em outros momentos. Seguimos tentando tirar o lado bom das pequenas coisas. Seguimos com medo e com aquela esperança que é a última que morre. Seguimos dando muitos abraços aqui em casa, seguimos acolhendo as nossas dores, conversando muito, escutando a menina de 6 anos que nos ensina muitas coisas. Seguimos tentando distrair a cabeça brincando com os 3 gatos que nós temos, com as graças que uma criança nos traz diariamente, com uma garrafa de vinho para relaxar, com conversa leve. Também seguimos com a conversa sobre a dura realidade, sobre como as informações mudam dia a dia e nós nunca sabemos como vai ser amanhã. Mas ainda assim seguimos, fortes e fracas, como podemos.

E vocês como estão vivendo? Como estão se sentindo? Como estão enfrentando a pandemia? Esse post é também para que vocês possam expressar essas dúvidas, medos, cansaço. É mais que normal e esperado que a gente tenham esses sentimentos. Quem sabe compartilhando podemos enfrentar juntos tudo isso.

Deixo aqui um abraço gigante para todos vocês, e principalemte para os brasileiros que estão apenas no início dessa pandemia devastadora. FIQUEM FIRMES, FIQUEM FORTES E PRINCIPALMENTE FIQUEM EM CASA E IGNOREM O PRESIDENTE.

Um beijão,

Thais e Vida, mãe e filha enfrentando a pandemia do Coronavírus diretamente de Badalona, Barcelona, Espanha.

#covid19 #coronavirus #ficaemcasa

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