Eu me dei conta que eu não precisava estar naquela relação.

Anonima,

idade: 35 anos

Há mais de 10 anos, assim como tantas outras
mulheres, também vivi um relacionamento abusivo. Eu, particularmente,
não demorei muito pra me livrar dele (da primeira vez). Em 6 meses de
namoro, reconheci que não existia possibilidade alguma do sujeito e eu
seguirmos adiante de forma saudável, então terminei. Porém, logo
depois me descobri grávida. Na época escolhi não abortar e levei a
gestação em frente. Sozinha, em outro estado, ainda na faculdade,
longe de minha família, vivi um inferno. Quando confidenciei a ele
minha suspeita, ele ironicamente exclamou: “Ah, você está prenha!
Não se preocupe, se for meu, eu assumo”. Sem chão, filha de uma
educação rígida e machista achei – com a consciência que eu tinha na
época – não ter outra opção senão retomar provisoriamente o
relacionamento. Foi o que eu fiz. A família rica dele me assistiu
financeiramente mas paguei o preço: fui coagida muitas vezes. Durante
um ano e meio, fiz tudo o que ele (s) queria (m). Desde sexo sem vontade
com o pai do meu filho até exame de DNA para comprovar a paternidade
para ele e sua família. Após inúmeras agressões psicológicas e algumas físicas (aperto no braço, beliscões e empurrão ainda gestante), eu definitivamente me anulei. Logo eu que sempre fui cheia de
vida, surpreendentemente murchei e me percebi chorando quase diariamente pelos cantos do apartamento onde eu morava. Após esse período, com um bebê de 10 meses em meus braços decidi encerrar definitivamente o relacionamento. De repente eu me dei conta que eu não precisava estar naquela relação. Detalhe: nunca moramos juntos. Mesmo assim, foi preciso juntar a família dele pra comunicar e justificar a minha
decisão, pois ele me ameaçava, se vitimizava e me perseguia. Feito! De
lá pra cá, assumi sozinha a maternidade. Desde então, ele deposita
mensalmente uma pensão simbólica na minha conta e acredita que assim
está cumprindo o seu papel de pai. É ausente e não conseguiu criar
vínculo nenhum com o meu filho que não o ignora mas também não faz
questão de falar com ele. É um desafio não ter com quem dividir as
responsabilidades, as dúvidas e as aflições. Nem os momentos de
alegria ultimamente eu divido, pois ele me bloqueou no WhatsApp e me
pediu para não incomodá-lo mais depois que pedi gentilmente o
comprovante do depósito da penúltima “contribuição”. Não há
diálogo, difícil! Há um ano e meio aproximadamente moramos longe e a
distância geográfica foi fundamental para resgatar parte de minha
saúde emocional. É que eu pensei que já havia me curado, no entanto,
recentemente me dei conta que ainda há muito a ser curado. Quando as
memórias surgem vêm acompanhadas de raiva, de angústia e do
sentimento de injustiça. No fundo (e nem é tão no fundo assim), eu
realmente acho injusto assumir tudo sozinha. Amo meu filho, mas não
gosto de ser mãe, é pesado demais, mas, de novo, faço por amor.
Abracei a responsabilidade da maternidade solo mas reafirmo que é um
desafio educar um filho sozinha e, pra isso, ser frequentemente obrigada
a renunciar possibilidades e oportunidades em favor desse compromisso e
heroicamente se esforçar para me manter minimamente ativa em tantos
outros papéis de uma mulher. Tenho mil faces e luto com todas as
forças para não me resumir a face de mãe. Acredito que nasci mulher e
me tornei mãe solo neste mundo porque o Criador me deu uma oportunidade de evoluir. Escolhi alimentar essa crença como uma estratégia de sobrevivência. Sinceramente, se não acreditar nisso, eu me revolto em absoluto. Do fundo do meu coração, é o meu desejo transmutar essa dor e me perdoar de vez. Transformar, quem sabe, a raiva em compaixão.
Quero fazer algo bom com esse fato ruim da minha vida que é tão comum
a tantas mulheres. Talvez eu sinta mais ou menos que elas, mas
infelizmente sou consciente de que a minha história pode ser
(re)contada muitas vezes; basta substituir as personagens, explorar as
nuances e preservar os conflitos. Sinto que quando finalmente souber o
que fazer, o meu processo de cura dará um salto quântico. Universo,
estou disponível! Enquanto não descubro, agradeço a oportunidade do
desabafo. Agradeço duplamente aos que me leram até aqui. Quem disse
que compartilhar as vulnerabilidades não é também um processo de
cura? Estou aliviada. Por essa e outras, eu abençoo essa iniciativa.
Obrigada.

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