Como uma criança estou reaprendendo a viver

Eliza, sem filhos, vendedora, 36 anos

Desabafo Anônimo: Olá! Há quatro meses consegui que o meu ex companheiro fosse embora. Uma das primeiras coisas que fiz foi escrever para vocês. Não enviei porque o relato é triste e eu queria trazer uma boa notícia. Tenho essa comunidade como uma amiga, apesar da gente não conhecer as mulheres – me sinto parte de vocês.

Quero dizer que estou bem. Estou conseguindo seguir e como uma criança estou reaprendendo a viver. Bem, além do dano psicológico eu fiquei com muitas dívidas e isso me preocupava muito.

Trabalho com vendas. Após a separação consegui vender nos três meses seguidos, coisa que nunca tinha acontecido antes. Com isso, quitei três parcelamentos em cartões de crédito que estavam me tirando o sono. Ainda tenho muitas contas a colocar em dia, mas cada avanço deve ser comemorado.

Só quero dizer que tenham coragem. Não vou dizer que é fácil. Mas, por favor, não permitam mais um dia de abuso psicológico.

Ainda estou digerindo tudo que passou. Creio que vai demorar muito tempo ainda, mas já me sinto muito bem. Obrigada a todos que incentivaram a Eliza, 36 anos, sem filhos, a ter coragem. Escrever para vocês foi terapêutico. Um beijo em todas minhas irmãs, juntas podemos mais.

O texto abaixo eu escrevi na semana seguinte a separação. É triste.

“Queridas, já estive antes aqui e vocês disseram que eu conseguiria sair daquela relação abusiva.

E, a propósito, eu me dei conta que essa não foi a primeira relação com traços de violência psicológica. Também assumo que tem menos de dois anos que ouvi falar disso. Bem, depois de muitas brigas e já alguns meses dormindo em cama separada, ele resolveu, enfim, arrumar um canto.

Antes, como sempre, me lembrou que o que ganho não daria pra sustentar a casa. Vai comer o quê, perguntou ele irônico mais de uma vez.

Justo eu com medo. Eu que já morei anos em uma capital vivendo com dois estágios. Ora com um emprego e um freela, não vivi tão bem, mas tinha as contas pagas, tinha a minha casa, que parecia comigo. Agora me sinto completamente com medo. Medo da rua, medo de tudo.

É muito grave a violência da alma. Ninguém vê, não tem onde prestar queixa, não tem ninguém pra te defender.

Me dei conta da minha depressão profunda quando tirei os protetores de travesseiro para lavar. Uma sujeira sem igual. Justo eu, com mania excessiva de limpeza, de trocar roupas de cama duas vezes na semana. Eu desisti da vida. Estava esperando um milagre e morrer.

Depois que ele saiu, eu passei uns três dias lavando roupa, organizando o armário e fazendo a faxina interna. Por diversas vezes no dia eu me senti uma fracassada por não ter conseguido uma relação saudável e feliz, como essas que a gente vê nas redes sociais. Me senti fracassada por não ter um trabalho decente, por não ter conseguido um companheiro legal. Sim. Me culpei e ainda me culpo.

E sabe que eu nem me dei ao luxo de viver uma depressão? Quem convive comigo tem risada, tem piada, eu tô sempre num disfarce. E quem via nós dois jurava que o casal era perfeito.

Eu fico me perguntando como deixei essas coisas tomarem essa proporção. Por qual razão eu aceitei uma pessoa que, na maioria das vezes, só me colocava pra baixo, me ridiculariza e sempre me tratava com indiferença.

Os elogios nunca partiam dele. Talvez até consiga enumerar as vezes que recebi um elogio, de tão raro que era. Sempre fui fiel a ele. Não por merecer, mas porque acredito que devia fidelidade a mim.

Estou super confusa. Me sinto em outro planeta. Ele não tinha amizades, não cultivava nenhum amigo que também fosse casado e tivesse algum programa frequente. Mais uma dica pra relacionamentos abusivos: essa pessoa vai ilhar você. Me dei conta que em quatro anos de relação conheci dois amigos e fui em dois casamentos. Ele me cobrava que frequentasse o calendário da festa da família dele, porém eu sempre estava chateada e parei de ir. Isso também causava muitas brigas. Eu pensava: mas como ele se preocupa com a família e não se interessa pelo meu bem estar?

Além de uma pessoa sozinha, sem contato com amigos, ele era bem calculista. Fazia tudo bem planejado. Colheu provas para levar o ex empregador na justiça, tudo bem discreto. E creio que, no fundo, não fui eu que consegui que ele fosse embora. Foi ele que cumpriu com as metas dele.

Eu me anulei a ponto de lembrar que não fui nem ao ginecologista nesse período. Não me cuidei, não fazia a unha, nada. Economizei cada centavo para não pesar para ele. Por um bom tempo não consegui emprego fixo. Tudo que ganhava comprava em coisas pra casa. Na primeira parte do relacionamento ele tomava umas 4 cervejas diariamente. Mesmo assim eu permanecia economizando no supermercado.

Mulheres, não permitam que suas irmãs sofram nas mãos de seus parentes, amigos. A vítima não tem forças pra reagir sozinha.

Fui contar para minha irmã o ocorrido. Ela só endossou que ele se aproveitou da moradia gratuita que tinha. Eu queria ser acolhida. Só fui lembrada que ela, eu e minha mãe só atraímos pessoas que não nos amaram. Aí mais uma vez me culpei por não ser essa mulher que sabe ser amada. Me senti feia e sem graça. O que será que falta em mim para não ter essa pessoa legal? Eu não sei.

Estou muito triste. Preocupada com as contas. Precisando ir ao dentista, com óculos vencido, com cartões a pagar. Realmente, estou preocupada. Estou me enchendo de esperança, tomando fôlego para seguir. Eu lembro do sofrimento que passei para criar forças.

Dessa relação eu não sei o que dói mais. Tem as poucas coisas que sobraram. Tem um monte de coisas velhas e gastas com o tempo. Tem uma parte do armário vazio e o coração partido mais uma vez.

Não é a falta do amor que vai doer. É a constatação que não teve amor. Por isso fica doído. Eu não mereci a aliança com detalhes em brilhantes ou uma zircônia que fosse. Nem uma aliança qualquer.

Também não veio o casamento em cartório ou na igreja. E ainda também não tivemos aquela viagem agradável para recordar. Teve mais lamento que riso. E, mesmo assim, demorou para acabar. Demorou porque a gente tinha uma esperança de mudança, não veio. Igualmente não tivemos noites intensas de amor. Não teve aquele cansaço de tanto namorar. Tinha era cansaço para namorar.

Faltou aquelas palavras de incentivo naquele dia difícil. Veio muito mais “eu te avisei”, que mais parecia uma praga. As rugas não surgiram pelas gargalhadas. As rugas escondiam uma tristeza.

E como eu faço mais uma vez sozinha? Não que eu não estava. Talvez, o amor não seja pra mim. Talvez, o amor não nasceu pra mim.

Me pego no choro, na dúvida, no questionamento. Eu realmente lamento por ter sido tão fraca e ter permitido que essa pessoa fizesse esse estrago na minha vida.

Eu recordo de cada sofrimento para me lembrar que aquela relação não era saudável, que não havia amor ali. Não sei muito o que fazer, mas eu estou juntando o que sobrou e estou indo. Mandem boas energias.”

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1 comentário Adicione o seu

  1. ILMA disse:

    PARABENS VIVAAAAAAA !!!!
    que ótimo Eliza, é isso mesmo vamos nos amar, cuidar de nós com todo amor que merecemos, somos únicas minha querida. Não importa quanto tempo durou, o importante é recomeçar….

    Você é nosso orgulho, e exemplo para muitas de nós que passamos por situações adversas e não sabemos lidar…. enfim como muitas aqui na comunidade, estão conseguindo ir em frente, cada passo precisa ser comemorado, e ser reconhecido como sucesso….
    grande abraço tudo já DEU certo !!!!

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