Maternidade: o véu que nos faz ficar invisíveis

“Um dia, quando eu lhe falava do que vivenciava como o desconforto de ser mulher, ele me disse: “Você não é a única, isso não a torna menos sozinha””.

(Catherine Millot, sobre Lacan em ‘A vida com Lacan’)

Texto de Renata Corrêa – 03 Junho 2018 – Autorizado para publicação aqui no site

Imagem: Ellen Greene


Mulheres com trinta, trinta e poucos, trinta e muitos e com filhos na primeira infância estão pedindo a separação. Ou pedindo relacionamentos abertos. Ou em crise com seus maridos.

É um fenômeno, pelo menos na classe média onde eu vivo. Mulheres que depois da maternidade se chocaram com uma opressão estrutural de maneira que nunca perceberam antes. Que viram seus companheiros, antes tão modernos, tão esclarecidos, tão “desconstruídos” se beneficiando dos mesmos privilégios de seu pais e avôs provedores, que deixavam suas esposas em casa enquanto iam “ganhar a vida”. Nem de longe dividem as tarefas, nem de longe estabelecem uma parceria real. Não se sentem remotamente felizes com suas conquistas ou desejos. Criam espaços onde suas companheiras estão longe do seu potencial criativo, humano e de felicidade.

Daí o puerpério passa, o bebê se torna um pouco mais independente e a máscara dos homens caiu. As mulheres passaram por uma transformação brutal, e vocês ficaram na margem dessa transformação. Algumas se quebraram e não se recuperaram, ainda tateiam pelos escombros; outras se reerguem mais rápido e florescem novamente, como seres sexuais e desejantes, com outros projetos, com uma visão mais ampla de vida. E nos dois casos, as mulheres percebem que para receber um pouco, para receber qualquer coisa é melhor receber nada e se bancar sozinha. Afetivamente, financeiramente, fisicamente.

Algumas são generosas e propõe acordos. Tentam transformar essa parceria em algo real, e significativo. E vocês resistem. Olha, mas minha companheira tão dócil, tão alegre, tão ideal, que me amava tanto agora quer ____________________ (e aí você inclui aqui o que quiser: morar em casas separadas, ir na casa de swing, abrir o relacionamento, fazer terapia de casal). Que horror né? Que desgraça! Outras intuem ou pressentem que não há terreno fértil para que nada de novo cresça e rompem de uma vez. Cortam pela raíz.

Parece que há um complô de mulheres, uma cartilha a ser seguida, uma cartilha de crise, que deixa o terreno da família mole, instável, inseguro. Os homens nunca se colocam no problema. “O que aconteceu com nossas mulheres? O que aconteceu que eu não sirvo mais? Afinal o que elas querem? O que faz delas tão insatisfeitas?”

Mas se há uma movimentação feminina que acontece na intimidade por relações mais justas e satisfatórias, se existe um movimento que pinga nas torneiras das casas, na cama feita, no pó de café derrubado na bancada, nas manchas escuras e misteriosas nas roupas, se existe algo que está se infiltrando pelas paredes do lar, se essas mulheres se movem ao mesmo tempo, arriscando não só as casas, mas também os bairros e ameaçando inundar e incendiar as cidades, é porque muitos de vocês não foram capazes de amá-las como elas merecem ser amadas, respeitá-las como elas merecem ser respeitadas, desejá-las como elas merecem ser desejadas, honradas como elas merecem ser honradas.

Que surpresa, não é mesmo? Que coisa surpreendente.

Lembro sempre de uma história que contam na minha família de uma prima de segundo grau que quando o filho fez dois anos desapareceu. Voltou um ano depois dizendo que desapareceu de cansaço.

Eu perdi a conta de quantas vezes quis desaparecer, e acabei desaparecendo mesmo, des-existindo.

Antes de reclamar de alguma articulação maligna de mulheres que agora querem gozar (e coloca aí gozar num sentido beeeem amplo) perguntem-se se vocês, homens, maridos, companheiros, estão ajudando suas mulheres a permanecerem vivas depois do nascimento dos filhos, ou são mais uma camada do véu que nos faz ficar invisíveis.

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(Texto escrito após ver o filme Tully, com roteiro da diva Diablo Cody)

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