Meu pai é um pedófilo.

em

Carol
1 filho
Bancária
35 anos

Desabafo Anônimo: Minha história é longa e complexa, mas hoje em particular eu estou bem chateada. Pra começar, pra resumir, se é que isso é possível, meu pai é um pedófilo. Desde que eu era criança até agora, e segue normal a vida, impune, no quarto casamento, onde tem uma filhinha de uns 3 anos, que logo deve se tornar mais uma vítima sua. Cheguei a contar minha história de forma anônima para a revista eletrônica Língua de Trapo e até teve uma repercussão maior do que eu esperava. A página Ginecologista Sincera compartilhou, a página do projeto Infância Livre também, mas o link da revista não está mais disponível, quem tiver interesse em saber um pouco mais da minha história, posso mandar a matéria por inbox.
Enfim, o fato é que por causa disso minha vida sempre foi uma bagunça. Eu sempre tive dificuldade nos relacionamentos, me envolvi com as piores pessoas e com a pior delas gerei um filho. Como uma compensação divina, eu que nem pensava em ser mãe, tive uma criança muito inteligente e iluminada, e por sorte – porque eu entendo que isso não acontece com todas – o papel de mãe me coube como uma luva e nele eu encontrei motivo pra me refazer. Claro que todas as marcas da infância deixaram marcas fortes em mim e em meus irmãos. Meu irmão mais velho é dependente químico, outra irmã é alcoólatra, outra é bipolar e eu tenho Transtorno Ansioso Depressivo com crises de pânico eventualmente.
A vida inteira o que mais ouvimos das pessoas, e geralmente das que não conhecem nossa história, é que “você tem que ser forte”e aceitando essa falácia de que “a vida é dura pra quem é mole”, eu fiz aquilo que esperavam de mim: Vim, vi, venci! A despeito do meu pai pedófilo, a despeito da infância pobre (um pouco em favela, um pouco em fazenda, um pouco em conjunto habitacional), a despeito da educação pública ruim, de não ter ProUni ou FIES na minha época, mesmo assim eu consegui. Me formei. Historiadora. E mergulhei na área social, que eu amava, mas não tinha o distanciamento que precisava, tive que abrir mão. Prestei concurso, a parte racional da cabeça sempre funcionou pra compensar o quanto o emocional me prejudica. Passei bem, logo fui chamada, hoje sou bancária.
O banco, apesar de ser totalmente distante da minha formação, me trouxe muita coisa, e me devolveu algo que eu nem sei se tive antes na vida: confiança. Com este emprego eu resgatei minha autoestima, minha autonomia, conquistei coisas pra mim e pro meu filho, que com o salário do social eu não alcançaria, mas o que o banco me deu de mais importante foi a possibilidade de me tratar, já que a partir disso eu tinha um plano de saúde decente. Já estou na minha quarta agência, em 5 anos de banco. Na primeira delas, fui imensamente feliz, consegui ser considerada uma ótima funcionária. O que em pouco tempo me levou a minha segunda agência, comissionada num cargo melhor. Lá, confesso que não tive um desempenho tão elevado, pois meus problemas pessoais e familiares a essa altura já estavam tomando proporções pesadas, mesmo assim eu tive um rendimento que considero bom. Até que houve um grande choque: meu pai estava repetindo as coisas que fazia comigo com a minha irmã do terceiro casamento dele, que devia ter uns 8 anos na época. Acho que só não surtei totalmente porque foi mais ou menos aí que conheci meu marido, que é um verdadeiro anjo na minha vida, e olha que não foi fácil deixar de lado meus traumas e bloqueios e dar uma chance pro amor, mas foi a melhor coisa que eu fiz, porque além de eu ter um companheiro excepcional, meu filho tem um excelente pai.
Mas voltando aos meus surtos, mesmo com eles, mesmo com todas as dificuldades de ir pra uma nova cidade, eu e meu marido decidimos casar e morar em outra cidade, longe das coisas que me assombravam. Aqui compramos casa, aceitei perder o cargo pra ser transferida pra uma cidade próxima, meu marido fazia bicos e assim fomos levando a vida, até que ele abriu um comércio. Mas eu ainda não tinha absorvido todas as pauladas que a vida tinha me dado, e mesmo com a vida caminhando, eu fui ficando cada vez mais adoecida. Tive alguns afastamentos na terceira agência e lá meu desempenho foi bem regular. Por aconselhamento do médico do trabalho, fui transferida para a cidade onde moro, e achei que tudo ficaria bem a partir dali, mas tive novas notícias do maníaco do meu pai, meu irmão recaiu no crack, minha irmã cada vez mais enterrada no bar, minha mãe consumida na culpa de não conseguir ajudar os filhos, e eu só vendo ela definhando sem poder ajudar em nada. E pra ajudar, reestruturação no trabalho, a cabeça bugou! Tentei suicídio, tive crises de pânico, alucinações. Nesse meio tempo, minha psiquiatra faleceu. O novo psiquiatra me afastou do trabalho em novembro, quando eu retomei minhas consultas com a psicóloga (houve um período de fuga porque foi difícil pra mim chegar nas coisas que eu não queria lembrar). Em janeiro, eu passei pela perícia, com o Laudo do meu médico que recomendava que eu retornasse ao trabalho apenas em março, pois ainda não apresentava condições laborais (em janeiro eu já estava um pouco melhor, mas ainda não saia sozinha e não conseguia conversar com estranhos sem chorar, o que inviabilizava meu contato com os clientes do banco). O perito, não sei por qual motivo, sequer leu o laudo, ele atestou minha incapacidade laboral, mas apenas até aquela data, não até o período que o médico havia recomendado. Resultado: o banco pediu avaliação de duas médicas do trabalho, e ambas me declararam inapta. Tentei entregar recurso na Agência do INSSs onde a perícia foi feita, disseram que não poderiam receber porque não tinham funcionário para dar andamento ao recurso, e também me disseram com essas palavras: “Você está perdendo tempo”. Fui orientada pelo meu RH a agendar nova perícia após 30 dias, e assim o fiz, a perícia ficou marcada para 19 de Março, quando, para minha surpresa, a perita faltou. Tanto meu psiquiatra, quanto a psicóloga e a médica do trabalho que passou a me acompanhar tomaram a decisão conjunta de só me dar alta após essa ultima perícia, pois seria o tempo necessário para que eu fechasse o ciclo terapêutico, me adaptasse aos remédios e retomasse minha rotina. E, de fato, foi uma decisão muito acertada, pois apesar de ter dado pequenos passos mês a mês, foi só nesse último que tive segurança pra voltar a sair sozinha, retomei as brincadeiras e atividades com meu filho, já fui conhecer uma organização social perto da minha casa, onde já acertamos pra eu atuar como voluntária, retomei meu artesanato, estou me impondo uma rotina de exercícios. Enfim, houve muito comprometimento da minha parte nesses últimos 6 meses.
Hoje finalmente ocorreu a perícia e expliquei todo esse processo à médica. Vim pra casa com a sensação de dever cumprido, e aguardei até as 21h o resultado… para descobrir que meu benefício foi indeferido, pois não foi constatada incapacidade laboral. O que é uma incoerência porque o mesmo laudo que utilizaram como base para atestar incapacidade laboral até janeiro é o que estão usando para atestar capacidade de janeiro até aqui. Fora que esse último mês eu fiquei em casa porque a perita faltou. Estou decepcionada. Porque eu me esforcei pra ficar bem, eu fiz como tantos me disseram: só pensa na sua saúde. Eu fiz isso e agora eu devo 3 meses de salário para o meu empregador. O INSS está tirando de mim hoje algo que eu, junto com toda uma equipe médica, demorei meses pra recuperar, que é minha motivação. Sei que vou vencer mais essa, mas não é com esse ânimo que eu gostaria de voltar ao trabalho. Não quero parecer pelega, mas a empresa fez toda sua parte nesse período, tanto os colegas quanto a instituição propriamente, todos cumpriram seu papel. Eu gostaria de retribuir isso retornando ao trabalho motivada como eu já fui, produtiva. Mas está muito difícil manter a positividade hoje, por considerar essa decisão do INSS totalmente injusta.
Desculpem o texto longo e enfadonho, eu realmente estava precisando desabafar.

 

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