“A gente só aprende o que é amor verdadeiro quando…”

Já presenciei inúmeras vezes – e até mesmo proferi – essas palavras para dizer que só conhecemos o amor verdadeiro somente quando somos mães/pais. E como me arrependo disso! Não porque individualmente eu não possa sentir o maior ou menor amor do mundo pelos meus filhos. Isso realmente não vem ao caso.

“Faz quatro anos que venho tentando engravidar. Já fiz de tudo: diagnósticos confusos, remédios caríssimos, benzedura, reza, promessa, floral, reiki, (…) e nada deu certo. Não tenho plano de saúde e apoio do marido, já que ele não quer ter filhos.”

Após algum tempo permitindo-me escutar os desabafos das mulheres aqui da Temos que falar sobre isso, aprendo que não se pode encaixar todos os seres humanos em frases generalizantes assim. Não sabemos em que circunstâncias físicas, sociais, mentais, afetivas, culturais, econômicas ou religiosas cada ser humano está, ou nem mesmo se ele quer estar como mãe/pai. E não é por isso que ela/ele não possa conhecer amores verdadeiros.

“A cada dia percebo que faço parte dessa pequena parte de pessoas que estão destinadas a um sofrimento crônico, a um problema que não tem solução.”

Especialmente para os casais que planejam filhos, um diagnóstico de infertilidade pode trazer graves ofensas à autoestima, à imagem corporal ou levar a uma desproporcional autoavaliação.

“… mas a frustração de não ter uma resposta já dura 2 anos. Sim! 2 anos tentando engravidar e nada encontram de errado. Me sinto triste, só sei chorar, não tenho mais esperança e muito menos fé.”

Os tratamentos, por sua vez, podem ser longos, desgastantes, dolorosos, caros. Após períodos prolongados de tentativas, muitos homens e mulheres relatam desgastes ao relacionamento conjugal e sexual, uma pressão social enorme das famílias, dos amigos e dos conhecidos, ansiedade, depressão, sentimentos de isolamento, raiva, fracasso pessoal, pessimismo, irritabilidade.

“Li, com grande tristeza, vários desabafos sobre bebês perdidos, abortos… Mas a minha maior tristeza é não ter nem ainda conseguido engravidar em 4 anos.”

Os estudos que descrevem homens e mulheres em algum momento da descoberta da infertilidade são muitos. Pottinger et al. (2006) relata que há diferenças de gênero  no tratamento da infertilidade, em um hospital universitário da Jamaica. Mulheres não evitavam tanto que terceiros soubessem dos tratamentos quanto os homens, bem como as mulheres tratavam de se questionar mais do que os homens sobre o que havia provocado a esterilidade.

“Cada vez que me dizem que vou engravidar de novo, que ainda sou nova, que eles nem eram bebês, eram fetos, que eu preciso tratar minha ‘doença’ pra depois engravidar (eu não tenho doença nenhuma), estão me violentando.”

 Corrêa et al. (2007) sugeriu que haja acompanhamento psicológico preventivo e intervenções específicas para momentos de crise durante os programas de fertilização in vitro, especialmente para as mulheres, que possuíam menor eficácia adaptativa do que os homens, no estudo ocorrido em um Centro de Reprodução Humana no Brasil.

“Me sinto triste, só sei chorar, não tenho mais esperança e muito menos fé. Está sendo muito difícil lidar com isso, ouvir que ‘é ansiedade e que quando desencanar, acontece!”

Assim, generalizar a experiência de ter um filho como a única expressão do amor pleno pode ser isolar outros modos de ser e sentir. E muitas vezes, imputar um sofrimento terrível ao ser humano que está bem ao seu lado.

“Estávamos viajando, meu marido, os pais dele e eu. Subimos uma construção enorme e eu olhei pela janela e pensei: vou pular! Aquela dor que me apertava o peito iria acabar e eu não ia precisar me esconder para chorar.”

Cada ser humano embarca na aventura da maternidade por motivos nem sempre claramente identificáveis ou até mesmo prazerosos. E alguns ainda estão tentando embarcar.

“Comecei a ter dores horrendas no fundo da barriga, fui ao médico e diagnosticaram um problema no útero e ovários, falaram logo que teria de ser operada e que me teriam de retirar os ovários e que não poderia ter filhos. O mundo desabou aos meus pés, perdi o chão que caminhava e a vontade de viver. Tentei engravidar mesmo assim, os médicos diziam que só com um milagre…”

Aprendi que ter filho é uma experiência pessoal, singular, intransferível. Para mim ou para você pode ser boa, ou não. Tudo bem. Mas não há que se comparar com nada ou ninguém. Isso só deixa o meu, o seu, o nosso fardo neste mundo mais pesado.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Deise disse:

    Adorei a matéria… Parabéns por expor um assunto muitas vezes ignorado; percebi o quanto não pensamos no outro lado!!!

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