Já desejei a minha morte e a da minha filha, na minha cabeça isso resolveria.

I.
Um filha
Estudante
24 anos

Desabafo Anônimo: Sabe, estou cansada. Comecemos do inicio: fui mãe aos 15 anos e ai começa todo o problema! Era uma mocinha linda, super protegida pela mãe, uma guerreira que criou a mim e meu irmão sozinha, que sofreu violência doméstica pelo pai do meu irmão mais novo e isso tudo acontecia na nossa frente. Perdeu meu pai e meu irmão mais velho (que na época tinha 7 anos) quando eu ainda era um bebê, morreram afogados em um rio da minha cidade natal.
Depois de muito sofrimento com esse novo companheiro, o pai do meu irmão mais novo, fugimos de casa sem amparo nenhum, porque na época não havia Maria da Penha. Fomos para outro lugar e lá começamos a nossa vida novamente. Minha mãe conheceu uma pessoa boa e começaram um relacionamento no qual está até hoje. Esse meu padrasto tem 3 filhos e um deles sempre foi o mais querido dele, que tem a minha idade, morava com a mãe em outro estado e vinha raramente visitar o pai. Comecei a gostar de um vizinho meu mas não sabia beijar e esse filho do meu padrasto disse que me ensinaria a beijar, beleza. O problema é que fomos além do beijo, tivemos relações sexuais, foi muito natural aquilo, sabe, e na minha cabeça não daria nada porque éramos duas crianças, eu com 14 e ele com 13. Além de que eu não sabia muito coisa sobre o assunto. Acredite, fui criada em uma bolha onde minha rotina era casa-escola, casa-igreja (PS: escolas evangélicas). E o medo de falar pra alguém, meu Deus, eu iria para o inferno.
E isso tudo na surdina, no fim nem fiquei com menino, mas ok! NUNCA na minha vida achei que poderia estar grávida. Minha menstruação tinha vindo pela primeira vez em fevereiro e o ocorrido foi em outubro do mesmo ano, não sabia de nada, nada, nada. Eu achava que só podia ficar grávida depois de casar. Gente, eu era demais!
Aí a vida continuou, o filho do meu padastro voltou pra cidade dele, não namoramos, minha intenção era saber beijar somente. A menstruação não veio, minha mãe disse que era normal e que na família acontecia muito, mas que iriamos consultar pra sabermos ao certo do que se tratava. Me dizia que muita coisa ia mudar, que estava me tornando uma mocinha, e eu nem me lembrava daquele acontecido porque pra mim não tinha relevância nenhuma pra minha vida. Ganhei uma festa de 15 anos da minha tia no interior do meu estado, e como meu aniversario é no mês do carnaval e nas férias aproveitei bastante. Juntei com umas primas e amigas e fomos pros bloquinhos e lá sim, beijei muito, mas só ficou nos beijos mesmo. Ao voltar pra casa já tinha um exame de ultrassom (que havia demorado 3 meses pra sair, nosso querido SUS) pra saber como estava meu útero, sabendo que minha mãe tirou o dela por problemas.
Meu padrasto que me levou e ficou me esperando na recepção. Na sala havia um médico e uma enfermeira, foi o dia mais traumático da minha vida, ele disse: ‘Você já é mãe?’. Eu disse que não, até ri, disse que era muito nova (15 anos) e que se um dia fosse, ter seria depois dos 18.
Ai ele disse com o tom de ironia: ‘Pois você vai ser mãe! Quer ouvir o som do coração?’.
Logico que fiquei super nervosa, falei que ela não podia fazer esse tipo de brincadeira, que eu poderia passar mal ali (tinha crises convulsivas quando mais nova, principalmente quando ficava muito nervosa).
E ele continuou e riu enquanto colocava os batimentos do bebê. A enfermeira ficou preocupada com a minha reação e brigou com o médico, só ai que ele parou e disse que poderia entregar o resultado pra mim, mas como a minha reação foi de pânico só entregaria pra minha mãe. Quando sai da sala, chorei, chorei, chorei. Me lembro da sensação ao escrever e choro toda vez que me lembro. Ia começar o ensino médio, minha vida tinha acabado pra mim, esse dia tive o primeiro pensamento suicida. E era bem propício porque meu padrasto me levou de moto. Liguei em prantos pra minha mãe e falei o que o medico disse (PS: nem me lembrava do acontecido). Ela ficou desapontada e disse que quando chegasse em casa conversaríamos. Fiquei com vergonha de falar pro meu padrasto, ele estava achando que era câncer. Ai minha mãe falou pra ele por telefone que eu estava grávida e ele disse: ‘Só isso? Achei que fosse coisa pior!’. Pra mim era o pior, ai que eu chorava mesmo.
Cheguei em casa, meu padrasto saiu e disse que deixaria a gente sozinha porque era problema só nosso. Coitado!

Depois de muito ouvir sermão e de me martirizar, me lembrei do acontecido e contei pra minha mãe. Coincidiu do meu padrasto chegar e ficar sabendo que seria avô. Ele ficou muito feliz, ainda mais porque eu ficaria ali perto deles, já que ele não participou muito da criação dos filhos deles. Ah, esqueci de mencionar, estava com 5 meses já. Foi uma correria, mas deu tudo certo. Atrasei meus estudos, o pessoal da igreja viraram as costas pra mim, disseram que era pecado e bla bla bla. Na hora que mais precisei de apoio, eles apontaram o dedo e ainda falaram coisas horríveis pra mim. Por muito insistência da família, tentei um namoro com o pai da minha filha, mas não gostava dele e ele aparentemente gostava de mim. Todos queriam que desse certo, mas pra mim não foi e tive que aprender a me defender.

O tempo passou o filho do meu padrasto voltou pra mãe dele, ficou se fazendo de vítima. Nunca pedi nada pra ele e nem quero. Minha mãe me apoiou em tudo, voltei a estudar depois de 2 anos que minha filha nasceu. Quando ela tinha 5 anos o pai dela veio morar com o pai dele, se envolveu com muita coisa errada, tinha uns rolos, começou a se relacionar com prostitutas, fazer parte de baderneiros e bandidos disfarçados de “torcida organizada”. Eu aconselhava ele, dizia pra não mexer com isso, cheguei a tentar um relacionamento pra ver se ele melhorava, mas eu não dei conta porque não gostava dele (ele fala que morre de amores por mim). A coisa ficou tão feia que ele voltou a morar com a mãe dele.

Em 2014 comecei a faculdade no curso que queria em uma universidade publica, foi lindo, minha filhotinha grande,  minha vida se encaminhando, mas com um monte de problemas antigos dentro de mim sem se resolver. Mas, graças a Deus, o pai da minha filha tinha ido embora, porque ele pra chamar minha atenção me pirraçava, fazia brincadeiras sem graça com a minha filha, mas passei por tudo. Com a faculdade veio outros problemas, uma realidade totalmente diferente, e a bola de neve dentro de mim só aumentando.

Me sentia um lixo, questionava minha existência, minha inteligência, autoestima, nem sabia mais o que era. Os pensamentos suicídas eram frequentes, tinha até tudo planejado, o dia a hora, nada estava importando. Não sentia mais o amor das pessoas próximas para comigo, só existia o vazio, me sentia gorda e feia em relação as minha colegas de curso (estou cursando Nutrição). Sempre dependi financeiramente da minha mãe, mas não falava isso com ninguém, afinal iam dizer que era frescura, bobeira.

Um dia, em uma reunião de amigos, enfie o pé na jaca e acabei colocando tudo pra fora, e meu irmão estava junto e ficou chocado com tudo que eu falei, eu já não me lembrava de muita coisa no outro dia, mas ele lembrava de tudo. Falou coma minha mãe e juntos ele me ajudaram. Procurei ajuda profissional e foi lindo e de graça.

Agora em 2018,  as coisas mudaram um pouco e quem é que voltou pra infernizar nossas vidas? Isso mesmo, o pai da minha filha. Só que dessa vez ele tem todo apoio do pai, que esta muito doente e arrependido por não ter dado assistência e ser mais um pai mais presente quando ele era criança. Voltou com as mesmas pirraças e brincadeiras sem graça, uma pessoa palhaça, que não respeita. Por causa dele sai da casa onde morava com a minha mãe e meu padrasto pra morar com meu irmão. Não é ruim, eu amo meu irmão e nos damos muito bem, o problema é que dependo da minha mãe, ela me ajuda a cuidar da minha filha enquanto estudo e minha filhotinha ficou com eles.

O filho do meu padrasto não está na casa dele mais, eles brigaram bastante e mudou pra outra casa. Desde que ela era pequena dormimos juntas, pelo menos a noite ficamos juntinhas, já que meu curso é integral, mas também não quero que ela se afaste dos avós, sabe. Não estou morando muito longe, são só dois quarteirões de diferença. Tem horas que sinto que se ela não existisse não estava passando por isso, poderia estar vivendo a minha vida normal, fazer outras escolhas. Já desejei a minha morte e a da minha filha, na minha cabeça isso resolveria. Minha mãe não ficaria presa por cuidar da minha filha enquanto estou na faculdade por minha culpa, não sofreria tanto por motivos financeiros, poderia cuidar mais dela.

Mas quando vejo a gravidade dos meus pensamentos me assusto. Um pouco poderia ser resolvido se eu tivesse uma renda, ai como gostaria. Têm algumas coisas da minha filha que é o avô que ajuda a pagar e o dinheiro que eu e minha mãe recebemos não dá pra pagar tudo, escola, plano de saúde  e algumas despesas. Uma ajuda financeira seria a solução, mas não tenho como trabalhar por conta da faculdade. Tentei nos fins de semana, fiquei um ano como free lance, ajudou muito, era 100 reias por duas madrugadas, mas eu já não estava mais rendendo, comecei a ficar doente e a ir muito mal nos estudos.

No momento tudo que eu e minha mãe juntamos é pra investir na minha filha, mas falta roupas pra todas nós, voltarmos a nos cuidar. O pai não ajuda em nada e, sinceramente, nem faço questão. Se quisesse ajudar, viria de livre e espontânea vontade. Na verdade, ele não está nem ai pra filha, fala que ama, mas não se importa. Tudo que eu queria agora era ter um negocinho próprio, mas quem disse que tenho pelo menos 10 reais pra tentar começar alguma coisa. Queria muito uma ajuda financeira ou produtos pra começar, vender bijuterias, calcinhas, comida, qualquer coisa, mas acredito que alguma coisa vai dar certo. Só quero poder ter mais estabilidade pra poder cuidar da minha filha sem depender de ninguém, enquanto estudo em busca de futuro melhor pra nós.
Foi muito bom falar isso tudo, obrigado às pessoas que tiveram essa ideia.

 

 

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