Pare de enganar seus filhos

fonte: https://ravishly.com/stop-gaslighting-your-kids
SAM MILAM | 09.8.17

Nós vivemos em uma cultura que se orgulha de ser dura. Um constante bombardeio de “seja forte, engula o choro, não reclame” e “a vida não é justa” permeia a infância de muitas crianças.

Quando uma criança cai no chão, nós dizemos “Levante, deixe isso pra lá! Você está bem!”. Quando a criança chora na loja de doces por uma barra de chocolate que ela não pode ter, muitos falam “Pare de chorar ou eu te darei um bom motivo para chorar”.  Quando uma criança soluça porque sua irmã ganhou um presente maior que o seu, ela pode ouvir “engula o choro, a vida não é justa”.

O que todos esses exemplos têm em comum? Um adulto (pai, mãe, cuidador, professor, familiar) está tentando impedir uma criança de fazer birra. Eles estão tentando moldar a criança para incutir nela que a vida é dura, por isso ela precisa aprender a lidar com aquela dificuldade. Às vezes os pais estão reagindo por seus próprios medos – medo de que seu filho cresça sendo exigente ou indelicado. Mas e se o que você está fazendo estiver prejudicando seriamente o seu filho?

Quando nós dizemos aos nossos filhos que eles estão bem ou que eles precisam parar de chorar ou que a vida não é justa, nós estamos tentando rejeitar o que eles estão sentindo e experimentando. Imagine você dizer a alguém “estou tão triste agora porque meu gato morreu” e eles responderem com um “Ah, você está bem. Você pode ter um novo gato. Não é o fim do mundo”. Você não se sentiria validado. Nesse cenário, alguém está tentando amenizar sua situação ao invés de ser compreensivo e empático. Quando isso acontece as suas emoções estão sendo desconsideradas.

Vamos olhar um outro cenário, mas substituindo o adulto por uma criança. A criança cai e começa a chorar: “Chega já, vamos lá, você está bem”. Isso é chamado de ‘gaslighting’ uma forma de manipular psicologicamente alguém ao ponto de que a pessoa desacredite de si mesma e da sua sanidade mental (engano/manipulação/abuso psicológico).

‘Gaslighting’ – ou abuso psicológico – é quando você tenta convencer alguém de que as experiências dela não são verdadeiras. Quando nós forçamos as crianças a continuarem comendo quando elas dizem que estão cheias, ou quando as convencemos de que não estão machucadas quando elas estão, ou dizemos a elas que a razão pela qual estão chorando não vale a pena e é uma besteira, o que nós estamos dizendo às crianças é que as suas experiências não são reais. Quando nós manipulamos nossos filhos, eles começam a questionar seus próprios julgamentos. Eles param de ouvir sua intuição. Eles perdem o seu próprio senso de segurança e confiança.

Outras pessoas dizem que eu estou chorando por nenhuma razão, que meu cérebro está confuso sobre o que eu deveria estar sentindo. Deve haver algo errado comigo. Sinal de ansiedade, frustração e deterioração da própria imagem.

Pessoas choram por alguma razão. Uma dessas razões é liberar excesso de estresse durante um evento intenso. Uma queda, um brinquedo quebrado, a cor do copo errada, querer alguma coisa que eles não podem ter – são todos eventos intensos para uma criança. Quando nós os criticamos por serem egoístas, rudes, exigentes, chorões, ingratos ou dramáticos, nós só os estimulamos a sentirem que há algo de errado com eles.

O cérebro jovem de uma criança não está desenvolvido o suficiente para pensar além deles mesmos. Eles não podem compreender como a fome no mundo está relacionada com eles desperdiçando uma refeição que você preparou para eles. Eles não conseguem fazer a conexão entre ideias abstratas que eles não podem ver nem experimentar.

“Então qual é a alternativa para dizer aos nossos filhos que eles estão bem? Eu tento ensiná-los a serem fortes e pararem de chorar porque a vida é dura e eles precisam aprender a  lidar com isso”, algum pai pode perguntar.

Nós podemos ensinar nossos filhos sobre resiliência, empatia e compaixão modelando esses comportamentos com eles. E o mais importante, nós paramos de manipulá-los. Nós paramos de dizer a eles que se animem. Nós paramos de dizer que eles estão exagerando, sendo sensíveis demais ou chorando sem motivo. Nossa intenção pode não ser prejudicá-los, mas o impacto é o que é importante nessas situações.

Nós podemos parar de enganar nossos filhos por meio de uma mudança da nossa perspectiva.

Ao invés de desligar as emoções, nós os ajudamos e tentamos entender o que eles estão experimentando. Nós perguntamos se eles estão bem, ao invés de dizermos que eles estão bem. Nós temos empatia por eles com frequência.

Nós temos empatia dizendo “Eu entendo como você está se sentindo. Eu me sentiria assim também se eu estivesse no seu lugar”. Validar as experiências de alguém é uma demonstração poderosa de compaixão e compreensão. Pode parecer contraproducente deixar uma criança chorar no seu ombro em um momento aparentemente inoportuno. Mas ao permitirmos essa liberdade de que expressem suas emoções (bastante humanas), nós estamos dando aos nossos filhos as oportunidades que precisam para terem uma saúde mental equilibrada, para descarregarem as emoções e vivenciarem seus sentimentos.

Os efeitos da nossa paternidade tem o potencial de ser passado de geração a geração. Um estudo mostrou que o meio ambiente afeta a composição genética de até 14 gerações de futuras de uma lombriga. Estudos como este são muito mais difíceis de realizar em humanos por causa das nossas vidas mais longas, mas muitos acreditam (e alguns estudos demonstraram) que nosso DNA armazena algumas de nossas experiências ambientais.

As escolhas que nós fazemos agora definitivamente impactam nossos filhos, mas também podem impactar nossos netos e além. Quando nós pararmos de enganar, manipular, abusar psicologicamente das crianças e começarmos a validar as experiências daqueles que são os mais vulneráveis em nossa sociedade, o resultado será a ruptura de um ciclo de abuso e gerações futuras mais felizes e saudáveis.


Traduzido livremente por Temos que falar sobre isso

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