Me preparei para o parto normal e fiz uma cesárea

em
Por Rafaela Schiavo
 De acordo com inúmeras referências de pesquisa, cerca de 70% das gestantes desejam parto normal*. Entretanto, tanto no setor privado, como no público, menos da metade das mulheres que desejavam parto normal conseguem realizá-lo. Isto se dá principalmente quando a mulher é atendida no setor privado, onde mais de 80% dos nascimentos ocorrem por via cesariana**, provavelmente devido à preferência dos obstetras pelo procedimento***, fazendo com que o desejo da gestante pelo parto normal vá minando ao longo da gestação.
De acordo com a pesquisa “Nascer no Brasil”  – inquérito nacional sobre parto e nascimento,  que envolveu pesquisadores de várias instituições científicas do país, sob a coordenação da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) – em 2011, 53.7% dos nascimentos no Brasil ocorreram por via cesariana, sendo 83% nos hospitais particulares e 38% em hospitais públicos. ****

Tais dados vem assustando centenas de mulheres que gostariam de ter um parto normal, muitas delas são ativistas do parto humanizado, são mulheres que buscam informações, lutam por seus direitos, não se deixam enganar por obstetras cesaristas, ou seja, estão bem informadas e sabem bem o que querem. Mas infelizmente, mesmo para estas mulheres, o nascimento via cesariana pode vir a ocorrer.
Quando uma mulher deseja muito o parto normal, estuda e se prepara de todas as formas para realizá-lo, mas por algum motivo este parto não é possível, quando há realmente indicações de que o melhor naquele momento é a realização do procedimento cirúrgico, o sentimento de frustração é muito grande. Não raro, mulheres nesta situação desenvolvem um sentimento de culpa por não terem realizado o sonho do parto normal. Elas acabam carregando um grande peso e uma sensação de incompetência, que não deveria sentir.

Estamos a todo tempo falando da importância do parto normal, que acabamos deixando de lado o fato de que há também circunstâncias em que é necessária a realização do procedimento cirúrgico, principalmente para salvar a vida da mãe ou do bebê. E já é hora de começarmos também a falar sobre isso, e principalmente divulgar a importância deste procedimento para os casos em que existem indicações reais. Ao prepararmos as mulheres para que se sintam empoderadas para o parto normal, precisamos também empoderá-las para que sejam fortes o suficiente para receber uma cesariana indicada. Só assim poderemos evitar sofrimento no pós-parto.

Temos que falar também da cesárea humanizada. Não é simplesmente realizar uma cesariana quando há indicações, mas há a necessidade de que a parturiente seja respeitada, que o bebê seja respeitado, que a mulher não precise ficar amarrada na maca, que mãe e bebê possam ficar juntos imediatamente após o nascimento, tudo isso poderá diminuir o sofrimento da mulher que desejou o parto normal e por algum motivo não foi possível.

Você, mãe, que sonhou tanto com um parto normal e por algum motivo não realizou este sonho, sinta-se acolhida por nós. Entendemos o seu sofrimento, sabemos que, mesmo consciente de que foi o melhor a ser feito no naquele momento, ainda assim, é normal uma sensação de não realização. Quando não conseguimos alcançar nossos sonhos, nos frustramos, é natural. Entretanto, lembre-se de que você fez tudo o que podia, se preparou, estudou, analisou, todo o caminho foi percorrido com sabedoria. Portanto, você venceu! Parabéns por ter feito a melhor escolha para você e seu filho. Precisamos de mais mulheres assim, audaciosas, corajosas, guerreiras. Deixo aqui a minha sincera admiração por você! Agora olhe para o futuro e deixe o passado no passado, pense o que é possível aprender com o que aconteceu. Cresça e se fortaleça com este aprendizado e vá em busca novamente de seus sonhos, pois sei que você tem muitos.

*Dias et al., 2008; Domingues et al., 2014; Leguizamon Junior; Steffani; Bonamigo, 2013.

**Domingues et al., 2014

*** Leguizamon Junior; Steffani; Bonamigo, 2013

****Caderno de Saúde Pública, 2014).

Referências

CADERNO DE SAÚDE PÚBLICA. Rio de Janeiro, v.30, suplemento 1, 2014.
DIAS, M.A.B. et al. Trajetória das mulheres na definição pelo parto cesárea: estudo de caso em unidades do sistema de saúde suplementar do estado do Rio de Janeiro. Ciência & Saúde Coletiva, v.13, n.5, p.1521-1534, 2008.
DOMINGUES, R.M.S.M et al. Processo decisão pelo tipo de parto no Brasil: da preferência inicial das mulheres à via de parto final. Caderno de Saúde Pública, v.30, suppl 1, 2014.
LEGUIZAMON JUNIOR, T; STEFFANI, J.A; BONAMIGO, E.L. Escolha de via de parto: expectativa de gestantes e obstetras. Rev. Bioética, v.21, n.3, p.509-517, 2013.

Imagem via: ckpicker on Visualhunt.com / CC BY-NC-ND

1 comentário Adicione o seu

  1. Eu não faço parte desses 70%. Uma cesariana salvou a vida da minha filha. Antes fui obrigada a tentativa de um parto “normal” que quase a matou.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s