O que podemos aprender com as tragédias?

Por Paula Osés – Psicóloga Acolhedora da ONG Temos que falar sobre isso – 28/01/2018

Na manhã da sexta-feira (dia 20/10/2017), em uma escola particular em Goiânia – GO, um garoto de 14 anos sacou uma arma que havia pego da família e atirou contra seis colegas de sala de aula e acabou matando dois deles. Este foi um caso que comoveu todo o Brasil e nos deixou emocionalmente envolvidos, não só por ter sido uma tragédia, mas por envolver adolescentes pouco saídos da infância. Quando algo assim acontece, nos questionamos quem foi o culpado e o que poderia ter sido feito para que a tragédia fosse evitada.

Inicialmente culpou-se o bullying, ou seja, os tiros teriam sido uma reação do garoto contra um colega que por meses e repetidamente o perseguia e provocava chamando o garoto de fedido entre outras coisas. Sendo assim, uma das vítimas seria, em partes, culpada pelo atentado. Mas logo se deixou essa hipótese de lado, pois mesmo o bullying sendo algo muito grave a polícia concluiu que nesse caso especifico o bullying poderia nem existir. Outras teorias foram levantadas: falta de acompanhamento ou problemas na educação do garoto por parte da família, transtornos psiquiátricos, sintoma de intolerância extremista e etc. Lógico que provavelmente nunca saberemos o que ocorreu, mas podemos usar o caso como uma alegoria para buscarmos compreender um pouco mais sobre nossas crianças quando entram na puberdade.

Podemos refletir, por exemplo, sobre o quanto um adolescente de 14 anos, mesmo não sendo mais uma criancinha, é bem mais próximo da infância do que da fase adulta de sua vida. O quanto ele entende as consequências de suas ações? Compreende a morte como algo irreversível e com um impacto social alarmante e assustador? Ou ainda é fantasioso, modificando a realidade de maneira infantil e exagerada na sua imaginação, acreditando que podem e são muito mais que a realidade permite, sonhando amores e paixões perfeitas de contos de fada (mesmo que não acreditem nos contos em si) e outras fantasias. Portanto é estranho atribuirmos culpa total tanto para o jovem que atirou quanto para o outro que, até então, teoricamente o provocou. As coisas acabam sendo mais complexas, pois os jovens envolvidos ainda dependiam muito emocionalmente e socialmente dos adultos em sua volta.

E uma pergunta que vem sendo feita por muitos é: se o problema estava no emocional do menino, mais que em outros lugares, mesmo que não somente, os pais são os maiores culpados? Uma regra que os pais precisam compreender é que não adianta seguir cartilha nenhuma e nem tentar ser o mais perfeito, pois nada garante filhos perfeitos. O que os filhos precisam é um vínculo de confiança e amor com a família e limites, o resto vai de família para família e não existe nada que garanta resultado, mesmo que facilite para que o jovem seja mais saudável emocionalmente. Esse garoto que atirou em seis (6) colegas muito provavelmente deu sinais antes do ocorrido. Os colegas descreveram ele como alguém que gostava do nazismo e satanismo, que ficava sem tomar banho entre outras coisas. Esses pequenos sinais poderiam ter sido alertas para os adultos em sua volta. Alertas de que algo não estava indo bem. Uma criança que é escutada pelos pais, normalmente (lembrando que isso é bem provável, mas não absoluto) fala sobre seus problemas para os pais na adolescência, o que poderia minimizar riscos. Mas será que fazemos nosso melhor para ouvirmos nossas crianças e nosso adolescentes?

Devemos aprender com as tragédias, portanto, que nossas crianças e jovens precisam ainda muito da gente. Eles SEMPRE querem conversar e falar de si e sua vida, mas para que isso ocorra precisam saber que encontrarão aceitação. Nós adultos, em nossa angústia e desejos, sempre damos sermões quando algo sai do nosso controle. Quem sabe não podemos nos esforçar para questioná-los um pouco mais sobre seus problemas e motivos e tentar junto deles encontrar uma solução para o problema? Às vezes um problema absolutamente bobo para gente, pode ser enorme para eles.

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