É PRECISO SANGRAR

Patricia Pavloski Perez, 2 filhos (um perdido ainda na gestação), jornalista, 31 anos.

Desabafo Anônimo: É PRECISO SANGRAR (16/11/2017) – Relato em forma de protesto do dia mais triste da minha vida, quando perdi meu bebê de 7 semanas.

Sangrando escrevo estas palavras. Literal. O útero se encaixa no lugar e sangra. Provavelmente mais rápido do que consigo superar emocionalmente. Eu sofri um aborto espontâneo. Não houve descolamento. O coração parou de bater.

Desde antes do meu primeiro filho nascer eu defendia o parto normal. Depois de dar à luz, mergulhei de cabeça neste universo maravilhoso que é a maternidade e descobri os avanços e conquistas que muitas mulheres, mães, doulas, obstetras e profissionais da saúde engajados haviam conseguido em prol da mulher. Para que tenhamos acesso ao que é nosso por direito: parir com dignidade e total respeito às nossas escolhas (sejam elas quais forem). Nunca pensei que hoje estaria levantando outra bandeira, a qual infelizmente precisei sentir na pele para ver o outro lado, tão ou mais vulnerável que o do parto: a dor de perder um filho ainda no ventre

Algumas mulheres chegaram impecáveis e felizes para a cesárea agendada; enquanto outras viviam o trabalho de parto ali há horas. Visitas entravam e saíam animadas. Pais eram preparados para entrar no centro cirúrgico acompanhar o momento mais importante da vida de um casal que sonha em ter filhos: o nascimento. Eu precisei aguardar porque o plano de saúde demorou a liberar a curetagem pós-abortamento. Alegavam que o carimbo do médico no laudo estava fraco. Eu já sangrava na sala de espera da Maternidade, a mesma que eu tinha ido um dia antes já sangrando e por ser feriado não pude fazer ecografia. A mesma que a enfermeira disse que passaria “a gestante” na minha frente quando pedi que aguardasse um segundo meu marido voltar do banheiro para ficar com nosso pequeno. Aquela que contrata uma enfermeira capaz de deduzir que eu não estaria grávida por ainda não ter barrigão – ou, no mínimo, vidente para prever que meu bebê podia já não ter batimentos. EU JÁ SANGRAVA o aborto espontâneo latente que numa conversa com o plantonista (que nem exame de toque fez) considerou absolutamente improvável. Voltei para casa, sangrando confiante.

Segui para o centro cirúrgico e meu marido não pode ir comigo. NÃO TEM LEI DO ACOMPANHANTE quando se está perdendo um bebê. Enquanto isso o sangue aumentava, junto com a dor. “Espere aqui”, disseram. Tomei os medicamentos para o procedimento: era preciso sangrar. No centro obstétrico, o som dos pais sendo orientados; as rodinhas das macas onde as gestantes eram levadas; gemidos; trabalhos de parto ativos; corre, corre, está nascendo.

Você precisa sangrar mais.

Apesar de saber que estaria bem cuidado, meu filho de 3 anos não saía um minuto sequer da minha cabeça. Não tinha meio algum de ter notícias dele, estava ali completamente sozinha e incomunicável. Quatro horas. A mesma dor do trabalho de parto que eu havia vivido há exatos 3 anos e 9 meses antes. Menos intensidade. Zero alegria. Diferentemente da outra vez, o corpo, o cérebro, todas as células trabalhando contrariadas. Forçadas. Você precisa sangrar mais.

Dor. Trauma. Solidão. Muita espera.

Preciso sangrar, penso o tempo todo. Meu marido na recepção. A enfermeira que pergunta, antes de ver meu prontuário, o motivo do choro. A outra que vai levantando a coberta, enfia a mão entre minhas pernas e simplesmente diz: você precisa sangrar mais!!! Não há biombos, cortinas, nada. Apenas a “rotina da curetagem” em mais um dia típico de trabalho, muita demanda, pouco pessoal.

E eu, que nunca havia perdido um bebê antes.

Chegam outras mulheres, vão colocar o DIU. “Está em trabalho de parto?”, perguntam. Não, eu só preciso sangrar. Choro. Uma delas vem e segura minha mão. A instrumentadora de um médico passa, me ouve e oferece mais apoio. Nunca mais esquecerei aqueles rostos, até então completamente desconhecidos, que me ofereceram a mão no momento mais difícil da minha vida. Meu marido não podia subir, apenas os maridos/acompanhantes de quem estava dando à luz.

Sangro o suficiente. Anestesia geral. Meu bebê de 7 semanas é retirado. Vou para sala de recuperação onde uma mãe, aflita por não ver seu bebê há algum tempo, pergunta: também teve seu bebê de cesárea? Silêncio.

Sigo meu caminho sem um pedaço de mim. Sangrando. Literal. O emocional Deus há de cuidar. Mas é preciso falar sobre perder um bebê. Pensei em sangrar silenciosa, mas espero que este relato chegue a cada mulher que já pariu; que já perdeu um filho na gestação; a qualquer um que seja solidário.

Precisamos humanizar os humanos que trabalham na área da saúde. Precisamos humanizar as administrações dos hospitais e maternidades. Precisamos apoiar e respeitar a mulher que dá à luz. Precisamos falar sobre curetagem. Precisamos falar sobre humanizar. Mas, principalmente, precisamos e devemos unir tudo isso.

Não soltem nossas mãos se perdermos um bebê, suplico.

Quero agradecer primeiramente a Deus pela vida do meu filho, pela minha e de toda minha família; ao meu ginecologista e obstetra, Dr. Wagner Aparecido Barbosa Dias, parteiro e grande apoiador da saúde e direitos da mulher; às enfermeiras Cislei e Simone, que me acolheram no Centro Cirúrgico, mas infelizmente encerraram seus plantões cerca de meia hora após minha chegada; à enfermeira Liliane, que me encaminhou ao Centro Cirúrgico e, antes de qualquer burocracia ou proceder, me deu um abraço; à instrumentadora Maria Isabel, um anjo que lutou para que me dessem um remédio para aliviar a dor e me fez companhia durante uma parte do doloroso pré-procedimento; à Kelly, que enquanto aguardava seu médico chegar para colocar o DIU pacientemente me consolou. Ao meu dedicado marido, que não saiu do meu lado um minuto sequer (mesmo quando foi impedido de estar, pois de longe podia senti-lo), da notícia até minha alta, aproximadamente 12 horas entre uma coisa e outra. E aqui permanece até agora.

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