Dar à luz com dignidade: não mais violência obstétrica

Por Kathleen Smith
http://exploringyourmind.com/giving-birth-dignity-no-obstetric-violence/#

*Tradução livre

 A violência obstétrica deixa uma marca profunda em quem a sofre. Dar à luz não é só um ato físico, é repleto de sentimentos, dúvidas e esperanças e pode ser uma experiência completamente desagradável se a mulher sentir que ela está sendo tratada como nada mais do que uma embarcação que carrega um conteúdo a ser esvaziado. Colocações como “não grite”, “não é tão ruim assim” e “acalme-se ou se não você vai fazer alguma coisa dar errado” são frases que tratam a mulher como uma criança, fazendo com que ela se sinta ridícula e desamparada, e invalida completamente a sua razoável expressão de dor e confusão em um momento crucial da vida dela.

Para ser um bom profissional médico, não é suficiente ter conhecimento técnico. Também envolve tratar os pacientes com respeito, empatia e compreensão do que eles merecem, no mínimo. Numerosos cortes no setor da saúde produzem um aumento de incidentes censuráveis na relação médico-paciente. Isso ocorre porque os médicos podem se sentir exaustos e sobrecarregados, e os pacientes podem perceber isso porque os médicos não são simpáticos ou são desinteressados.

Dar à luz com dignidade e ter o cuidado de um profissional respeitoso não é privilégio ou uma recompensa especial. Dar à luz com dignidade é um direito.

A origem da violência obstétrica

A sociedade diz à mulher, quase como uma obrigação implícita, que elas devem ter filhos. Entretanto, quando a mulher enfrenta problemas relacionados ao nascimento, elas não costumam ser tratadas da forma como elas deveriam ser. Isso é visto não só no cenário do parto, mas em todos os aspectos relacionados à saúde reprodutiva da mulher.

Não é estranho que a mulher se sinta atraída por outras formas de cuidado que não seguem os protocolos médicos, uma vez que elas se sentem fora do controle sobre todas as decisões no processo da gravidez e dar à luz; mesmo que elas corram o risco de não receberem a atenção médica rigorosa e especializada nem tenham as garantias de saúde  de um hospital.

Mulheres nos seus trinta anos que tomaram a decisão de não terem filhos e querem fazer a laqueadura estão sujeitas à constantes interrogatórios sobre sua decisão privada relativa à sua vida sexual e reprodutiva. Se um dia elas venham a se arrepender dessa decisão, seria algo que elas teriam que lidar e superar, assim como qualquer outra decisão na vida. Impedir as decisões livres de outras pessoas é opressivo, não consultivo. Você pensaria que essa decisão de ter um filho seria uma escolha pessoal. No entanto, as mulheres costumam receber tratamento autoritário do ambiente, como se elas tivessem uma reduzida capacidade de julgamento.

Dar à luz envolve muito peso emocional e dores físicas

Dar à luz é um momento que toda mulher grávida anseia e espera. Depois de uma gravidez cheia de profundas mudanças físicas e psicólogicas, a mulher quer que tudo aconteça de forma suave.  O ponto é que querer que tudo corra bem não se resume à simplesmente evitar quaisquer complicações médicas.

A mulher quer dar à luz se sentindo cuidada, sabendo que suas imensas dores das contrações não estão sendo minimizadas nem ridicularizadas. Temos estado fixados na ideia de que as mulheres têm hormônios hiperativos e não podem pensar por elas mesmas. Essa ideia é falsa, e também auto profética. Se os profissionais de saúde tratam a mulher como histérica desde o início, é provável que ela termine se comportando assim.

Violência obstétrica envolve negar informação, proceder com cesáreas desnecessariamente, injetar drogas quando não indicado, e verbal e fisicamente abusar da mulher grávida antes, durante e depois de dar à luz.

Se alguém nota e é condescendente e as trata com desdem, isso só aumenta a sua frustração e sua dor. Queixas são a maneira que elas têm de se defenderem em resposta a esse tratamento inconsistente e humilhante. Embora isso possa parecer exagero, certamente não é. Muitas mulheres que sofreram depressão pós parto identificaram o tratamento que elas receberam pelos profissionais de saúde como fator original de estresse durante a gestação, o nascimento e o puerpério. É bastante comum para as mulheres se sentirem sozinhas e surpresas nos seus novos papéis como mãe, e um sentimento de vazio e tristeza de superá-las depois de darem à luz. Se elas recebem tratamento desumano por profissionais de saúde essas emoções são acentuadas.

Elas têm esperado por meses, mas ninguém avisou que elas sofrerão um processo de reajuste tão difícil, ou que querer chorar constantemente é comum e natural. Neste ponto, elas podem começar a se sentirem culpadas, e elas podem até se sentirem profundamente incompreendidas por seu ambiente. Isso não ocorre em todos os casos, mas acontece com freqüência suficiente para ser digno de atenção. A informação sobre puerpério fornecida por profissionais da saúde é um ativo forte contra os desafios que o novo papel de uma mulher como mãe irá apresentar. Não informá-las adequadamente é uma forma de indiferença e negligência.

Construindo pontes entre as mulheres e os profissionais de saúde

Não estamos dizendo que o recebimento de tratamento acolhedor e empático pode prevenir 100% da tristeza ou desesperança sentida durante a gravidez, parto e pós-parto, mas certamente o suaviza e minimiza. Existem muitas iniciativas lideradas por profissionais médicos e pacientes que sofreram violência obstétrica para prevenir o tratamento desumano durante o parto.

As várias iniciativas na Espanha incluem diretrizes para assistência aprovadas pelo Ministério da Saúde ou pela Federação das Associações de parteiras de Espanha (FAME), bem como a Iniciativa Hospital Amigo da Criança pela UNICEF.

Existem muitos profissionais de saúde preocupados com esse assunto que fazem um trabalho fantástico no cuidado e acompanhamento de mulheres solteiras, ou mulheres e seus parceiros, para que essa informação não seja percebida como exclusiva, mas, sim, como condição necessária para um tratamento digno em uma processo natural, mas às vezes contraditório.

Podem haver discrepâncias ou pontos de vista diferentes, mas com determinação e vocação, os profissionais de saúde sabem como fornecer a informação adequada ao paciente. É necessário que o paciente se sinta como parte ativa deste importante processo que mudará sua vida para sempre. Denunciar a violência obstétrica não significa demonizar todos os profissionais da saúde ou questionar todos os seus protocolos. Na verdade, é bem o contrário.

Denunciar o tratamento desumanizante, querer dar à luz com dignidade e querer receber um bom tratamento dos profissionais médicos, é simplesmente querer que esses profissionais sejam parte positiva de um dos momentos mais importantes da vida. Sendo atendidos por profissionais que não apenas fazem seu trabalho, mas fazem de forma responsável, garantem o bem-estar físico e psicológico do paciente.

 

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