Resta saudade de tudo o que não vivemos

em

R., mãe de uma princesa e do anjo Teodoro, 35 anos.

Desabafo Anônimo: Saudades do que não vivi…
Vivo um relacionamento há dezesseis anos, temos uma linda filha de oito anos e hoje sinto a dor amarga de ver meu sonho abreviado às 30/31 semanas de gestação do meu anjo Teodoro.
Teodoro, parece irônico, mas tal nome significa dádiva de Deus, um presente que me foi dado sem eu querer e tirado no momento em que eu mais amei e desejei. Quanta dor, quanta frustração…
Há menos de um ano atrás, eu traçava vários planos em minha vida: estava concluindo um pós-graduação e estava empenhada em melhorar minha saúde e aparência física. Estava obesa há dez anos e já com comorbidades, após dois anos tentando emagrecer, me submeti a uma cirurgia bariátrica no início de 2017. Descuidada engravidei em menos de dois meses após a cirurgia, tanto eu quanto meu marido ficamos chocados, sempre tive controle sobre meu ciclo menstrual e no período fértil sempre utilizávamos preservativo. Quando me percebi grávida já estava com oito semanas, sentia o peito coçar e a menstruação simplesmente não desceu, ali estava HCG positivo e na ecografia um embrião de quase nove semanas, o que não fechava com os meus cálculos, conforme o médico, tive uma ovulação precoce. Esse Teodoro levado… Segui com a equipe multidisciplinar: cirurgião, nutricionista, psicóloga, cardiologista (a pressão voltou a subir) e obstetra, uma legião de médicos, exames e monitoramentos.
De início enlouqueci, eu não poderia engravidar no meio do processo de emagrecimento, como forneceria os nutrientes suficientes para mim e um bebê? Aos poucos fui me acalmando, afinal, conhecia duas pessoas que passaram pela mesma situação e tiveram seus bebês sem problemas, fora um grupo que passei acompanhar sobre gravidez pós bariátrica.
Quanto aos nutrientes, em todo o período estiveram nos níveis normais, não precisei repor nada além do uso contínuo de um polivitamínico e ácido fólico nas primeiras semanas.
Enjoos, enjoos, nunca senti tantos. Continuava perdendo peso com o passar da gestação, fora os enjoos nada mais me incomodava. O bebê se desenvolvia normalmente, com alegria recebemos a notícia de que teríamos um menino, e eu agora estava radiante com a possibilidade de ser mãe novamente, além de que minha filha sempre pedia por um irmão.
Fomos nos afeiçoando, curtindo, comprando as roupinhas, pensando nos detalhes do quartinho (tivemos de trocar de quarto para que coubessem duas crianças no espaço)
Tudo corria bem, na ecografia morfológica (21 s) ouvimos da médica: ele é perfeito, está se desenvolvendo muito bem… Senti como se estivesse envolta em um cobertor quentinho: ufa! Está tudo certo com o meu filho, já posso respirar. Esqueci de um detalhe: o mocinho estava sempre transverso e de costas, conforme crescia incomodava bastante…
Meu pesadelo começou nas 25 semanas, mais precisamente no dia 27/09, quando no ecocardiograma fetal, notamos um longo silêncio do médico, um silêncio assustador. De repente, ouvimos:
– Fez a morfológica? Aqui? Com que médico? Estava tudo bem?
Gelei e pedi a Deus que tudo estivesse bem. Ouvi então, a notícia perturbadora:
– Teu bebê tem um probleminha. Uma válvula do coração não se abre totalmente. (Assim sem rodeios)
Comecei a chorar compulsivamente, meu marido e filha acompanhavam o exame e ficaram apavorados também. Após, o médico tentou me tranquilizar dizendo que havia correção e que era um procedimento simples, um cateterismo, iríamos repetir o exame dali três semanas. Enquanto isso me torturava procurando casos de estenose aórtica no Google.
Passadas as três semanas mais longas da minha vida, repetimos o exame no qual foi constatado um agravamento do quadro: um lado do coração estava crescido e já havia derrame no pericárdio, o procedimento seria realizado logo após o nascimento e o risco de morte uterina era grande.
Ficamos desesperados, apesar de ser uma cardiopatia congênita, nunca esperávamos que evoluísse de maneira negativa tão rapidamente. Conversamos com o obstetra sobre procurarmos um hospital especializado em cardiologia e ele concordou – antes me prescreveu quatro doses de corticóides – e lá fomos nós cheios de esperança e desejo de ver o nosso filho bem. Conseguimos um encaixe com um pediatra que nos passou muita tranquilidade, disse que ao nascer o procedimento seria feito. Assim em seguida, no setor de cardiologia fetal, repetimos ecocardiograma e tudo estava ainda pior: havia uma obstrução no septo e o fluxo sanguíneo estava muito prejudicado, o átrio esquerdo estava enorme. O médico da ecografia foi direto: se continuasse nesse ritmo nosso filho morreria em três ou quatro semanas, assim nos foi oferecida a oportunidade de fazer um procedimento intrauterino para tentar dar chances do Téo (💞) aguentar até o momento de nascer para realizar o cateterismo, mas os riscos eram muitos, independente da escolha que fizéssemos. Desde já fomos encaminhados a psicologia do setor que nos acolheu e foi nos preparando para os possíveis ocorridos: morte, UTI, nascimento prematuro.
O procedimento consistia em dilatar o septo do coração do bebê ainda no útero através de punções, seria aplicada anestesia raquidiana e o feto também receberia anestesia.
Tudo isso foi muito rápido, em questão de quatro dias marcamos o procedimento, avisamos os familiares, inclusive da possibilidade do Teodoro não resistir. Organizamos nossa rotina para que alguém cuidasse de nossa filha, pois eu ficaria internada uns quatro dias após o procedimento enquanto Téo e eu seríamos monitorados. Mala pronta, com livros para ler no hospital, algumas mudas de roupas, conforme a orientação da psicóloga, “vai que o bebê resolva nascer”. Antes de sair de casa, rezei muito, fiz promessa e pedi a Deus que permitisse que o Teodoro nascesse em condições de ter uma vida normal e lá fomos para o hospital. Dividi o quarto com uma menina a qual o bebê tinha batimentos de 220bpm, já estava internada há quarenta dias. Fiquei apavorada.
Fui bem atendida inicialmente, tiramos algumas fotos Téo, meu marido e eu, a enfermeira veio e verificou os batimentos e ouvimos aquele tamborzinho tum, tum, tum, até gravamos o áudio.
O médico que realizaria o procedimento veio conversar conosco sobre os riscos e complicações.
Em seguida, fui levada para a sala de cirurgia, recebi a bendita raquidiana e o procedimento começou (era uma equipe de umas oito pessoas na sala, sempre perguntando se estava tudo bem), sentia a obstetra pressionando minha barriga, após chamou o médico e disse: Vai, coloca o balão! Aumenta o balão por um maior. Agora infla! (Enquanto isso eu conversava mentalmente com o Téo para que ele ajudasse os médicos, pois era para o bem dele). Rapidamente eu ouço um deles comentar que os batimentos caíram, pedindo medicação para o Téo (para 2kg) e a obstetra diz ao anestesista:
– Dr. aumenta a sedação da mãezinha! (Ali percebi a gravidade da situação).
Acordei na sala de recuperação com meu marido me olhando com amorosidade. Ainda grogue de sedativos perguntei o que havia acontecido.
– O procedimento foi realizado, mas tiveram de fazer uma cesárea de emergência.
Pensei e obtive a confirmação do pior: meu filho não havia sobrevivido. Chorei, chorei…
Em seguida a obstetra veio falar comigo, disse que meu filho nascera sem vida, que tentaram reanimá-lo e que ele não respondeu. Pedi a ela para vê-lo e em seguida ela me trouxe o meu anjinho coberto por um lençol, peguei-o no colo e nisso meu marido chega e desaba. Chamei-o:
– Amor, vem conhecer o nosso filho! Olha os pés e mãos, são como os teus.
Beijei-o, senti aquele corpo gelado contra o meu, ali havia acabado o meu sonho. Pedi ao meu marido que tirasse uma foto minha com ele, para a obstetra pedi o prendedor do coto para recordar e segurei-o comigo o quanto pude.
O nascimento de um natimorto é tão desumano que o enterro costuma ocorrer e a mãe fica internada no hospital, como se a mesma não tivesse o direito de despedir-se do filho.
Conversei com meu marido sobre não fazermos enterro (as funerárias não acondicionariam o corpo até eu receber alta) e optamos pela cremação, também acho muito triste as mães que passam uma vida chorando sobre uma sepultura e nós decidimos que um dia escolheríamos um lugar lindo, nosso para libertar o nosso Teodoro, o nosso presente de Deus.
Também comunicamos os amigos e deixamos claro que não faríamos velório, seria algo íntimo, pois não aguentaríamos dividir tamanha tristeza com eles, sem contar na imensidão de bobagens que ouvimos: foi melhor assim, Deus sabe o que faz, tu vai ter outro (como se filho pudesse ser substituído). Preferimos nos proteger.

Saí da sala de recuperação à meia-noite numa maca e vi minha mãe e irmãos no corredor chorando, percebi o quanto minha família se preocupava comigo, eles moram a 80km de distância e ali estavam. Retornei ao quarto e a minha colega continuava com seu bebê na barriga, o meu estava morto e minha barriga cortada, dormi porque estava sedada, falando enrolado, mas ciente: acabou! Meu filho morreu e levou uma parte de mim.
No outro dia recebi a visita da psicóloga que foi maravilhosa e teve a iniciativa de me transferir para um quarto privativo, pois seria muito sofrimento dividir o espaço com uma grávida. Confesso que chorei ao ver o marido dela passando a mão em sua barriga. Perguntei-lhe por que comigo.
Enfim, fui bem atendida no hospital por todos, insistiam em perguntar se eu estava bem… Mas fui tratada com humanização, carinho e respeito.
Após 36 horas (as mais longas e difíceis da minha vida), recebi alta e nos dirigimos a cerimônia de despedida do nosso Teodoro. Mais um problema: minha filha foi me visitar e contamos sobre a morte do irmão, ela estava ciente dos riscos, porém, não sabíamos como agir na cerimônia se assistiria, veria o corpo, etc. Conversamos com a psicóloga, obstetra, diácono, pastor e todos concordam que ela deveria sim participar desse momento. Alguns familiares não concordaram com isso, ela queria até ver o corpinho e eu acho que ela tinha esse direito sim… Influenciaram ela que acabou desistindo, durante a cerimônia nos revezamos e caminhamos com ela pelo cemitério. Ao final, ela pediu para ver o irmão e a funerária já havia levado para a cremação, então, mostramos uma foto e dissemos a ela que poderia olhar sempre que quisesse. Ouvimos dela:
– Que fofinho!
Saímos da cerimônia e passamos numa igreja para fazermos uma oração nós três pelo nosso anjo Teodoro. Combinamos de escolher um lugar lindo para um dia nós despedirmos dos restos do nosso amor. Ouvimos dela com amorosidade:
– Um lugar com cachoeira! Não chorem mais, o Téo está bem lá no céu. (Como pode tanto amor e sensibilidade numa pessoinha?)
Voltei para casa com a barriga cortada, as mãos vazias e a alma rasgada. As noites têm sido cruéis, revivo aquele pesadelo, aquela noite em que deitei com meu filho mexendo e acordei com ele morto. Minha filha amada e meu marido têm me fortalecido, se não tivesse essa princesa talvez tivesse optado por não viver, seria tão simples, mas ela nos motiva a seguir em frente e pede para que possamos lhe dar um irmão. (Linda, linda!)
Ainda não recebi ninguém, não me sinto preparada para conversar com ninguém além do meu marido e choro escondida da minha filha que ao me flagrar enxuga minhas lágrimas e diz:
– Mãe! Não quero te ver chorando.
Ela tem sido muito mais forte do que nós e parece entender os propósitos dessa vida louca, enquanto nós nesse momento questionamos a existência de Deus e o porquê de tamanha tristeza. Posso dizer que momentaneamente quebrei os pratos com Deus e estou buscando respostas para toda essa loucura, esse pesadelo. Um filho que chegou sem avisar e partiu sem que pudéssemos ouvir seu choro, risos e descobertas.
Enfim, resta saudade de tudo o que não vivemos, do amor que não recebi e dei, do calor que não senti, das roupinhas que não usará, do quarto montado, de vê-lo viver e crescer com a irmã.
A gente vai sobreviver, mas um pedaço sempre vai faltar: o nosso Teodoro!

3 comentários Adicione o seu

  1. Anne disse:

    Olá mãezinha!
    Sua história é muito parecida com a minha. Gostaria de revidar um abraço apertado e contar como sobrevir esses últimos três anos.
    Se puder e quiser me mande um e-mail para que possamos conversar.

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  2. Só posso te dizer que estou te dando um abraço,mesmo que virtual,sinta-se abraçada por mim. ♥

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  3. Ana disse:

    Força Mãezinha. Perdi uma princesa em maio. Com 21 semanas tudo ok. Com 25 diagnosticaram hidrocefalia. Em 5 dias piorou tsnto que veio a óbito. Sei bem o que passas. Tem 7 meses e parece que foi ontem…aquela ssla de parto vazia…silenciosa me assombra…força!

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