Um dia que deveria ser perfeito e foi traumático

em

Raquel, 1 filha, jornalista, 35 anos.

Desabafo Anônimo:

Engravidei oitos meses depois de casada. Não foi uma gravidez planejada, mas desejada. Eu havia acabado de começar em um novo emprego, descobri a gravidez 1 semana depois. No início foi meio conturbado, mas depois as coisas foram se ajeitando. Fiz o pré natal e decidi fazer o parto com o médico plantonista. A DPP estava prevista para dia 20/03. Fui dispensada de ir ao trabalho no início do mês, deixaram eu ficar em casa mesmo recebendo salário. Foram muito gentis comigo. Já estava prestes a completar 40 semanas e comecei a sentir muitas dores. Liguei para a minha obstetra e a secretária ficou de dar o recado. Nunca me retornaram. Na quinta feira, fomos para a maternidade, minha pressão estava um pouco alterada, mas me mandaram para casa. O médico disse que eu não estava tendo contração, que minha carinha estava muito boa para quem tem contração. Na madrugada de sábado para domingo, minha bolsa rompeu. Corremos para a maternidade e lá começou meu calvário. Tacaram ocitocina na minha veia, jogaram água queimando nas minhas costas para dilatar. Fiquei toda vermelha. Fui para a bola, para o cavalinho, as doulas me acompanhando e dizendo que era assim mesmo, que a dor era normal. O tempo foi passando. Chegou uma hora em que eu não aguentava mais de tanta dor. Está normal, é assim mesmo. Meu marido do meu lado, desolado por não poder me ajudar. Lá pelas tantas, me mandaram sentar e levantar da cama para ajudar na dilatação. Meu Deus, parecia que eu ia morrer de dor. Comecei a chorar e vi sangue na cama. Comecei a gritar. Meu marido saiu e foi atrás de ajuda. Depois ele me contou que fez o maior escândalo. Me levaram para a sala de parto, me deram anestesia nas costas e eu fiquei tranquila. Vão fazer uma cesárea, eu pensei. Logo minha filha estará nos meus braços. Não, eu estava enganada. Me mandavam fazer força, um enfermeiro forte pressionou minha barriga e eu achei que ia morrer de tanta dor novamente. De repente, percebo algo errado. A médica tenta escutar o coração do bebê e não consegue. Outra médica entra na sala e faz o mesmo. Então eu só vejo meu marido entrando na sala e uma grande movimentação. Minha filha nasce, roxa, sem chorar. Começo a me desesperar. O que aconteceu? Me dão remédio e eu apago. Acordo horas depois, sob o efeito da anestesia. Minha sogra do meu lado. Uma médica vem falar comigo e me fala o seguinte: Fizemos uma cesária de emergência senão seu bebê teria morrido. Ela está aguardando uma vaga no CTI. O pediatra vai vir falar com você. Nunca veio. Minha filha ficou internada 11 dias, sendo que no segundo dia de vida teve uma convulsão causada pelo sofrimento fetal que teve. No dia em que eu recebi alta, implorei para ficar no hospital para não sair sem ela, mas não deixaram. Fui ao hospital todos os dias até que ela desceu para a enfermaria e eu pude dormir com ela. Nesse meio tempo, eu estava muito inchada e minha sogra obrigou a marcarem uma consulta para mim. Minha pressão estava altíssima e eu quase tive uma eclampse pós parto. No dia em que eu passei mal, havia dormido sozinha porque pedi ao meu marido para ir para casa mais cedo descansar. Relatei à enfermeira que não estava me sentindo bem, mas ela ignorou.
Hoje eu sou grata a Deus pela saúde da minha filha, sei que foi um milagre ela ter sobrevivido sem sequelas. Mas ficou uma ferida aberta de um dia que deveria ser perfeito e foi traumático. Fico pensando nos dias que me tiraram a companhia da minha filha e na mãe cheia de traumas que me tornei. Ela teve que tomar Fenobarbital por um tempo, o Guardenal para evitar convulsões. Nisto ela dormia muito no hospital e ninguém conseguia acordar ela. Morria de medo de quando ela estivesse em casa eu não conseguir acordá-la. Não consegui nem pegar minha filha quando ela recebeu alta. Eu estava em choque com tudo que tinha acontecido. Até hoje me sinto roubada. Não amamentei quase nada. Tive que dar fórmula. Foi outra ferida aberta. Sei que muitos podem me chamar de mal agradecida, pois no final minha filha está bem, graças a Deus, mas eu me dou o direito de chorar e de ficar com raiva daqueles médicos. Deixar um bebezinho sofrer assim em seus primeiros dias de vida, quase matar mãe e filha no parto em troca de quê? Me desculpem o desabafo, mas eu precisava falar

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