Violência obstétrica e a cultura do estupro

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Podemos pensar em uma proximidade entre violência obstétrica e a cultura do estupro, visto que inúmeras mulheres que sofreram violência obstétrica sentem-se violadas, envergonhadas e culpadas, sentimento muito comum também entre as mulheres que foram vítimas de abuso sexual. A violência obstétrica se aproxima muito do sentimento de corpo violado, principalmente em sua vagina, o que pode levar a mulher a se sentir usada, manipulada como um objeto, tendo seu corpo desrespeitado em uma invasão que pode acarretar em elevado sofrimento psicológico. Pode ser inclusive, o eliciador de problemas de saúde mental no puerpério, com prejuízos para a relação mãe-bebê e até para a vida sexual.
Violência obstétrica é um termo utilizado para caracterizar diversas formas de violência – física, verbal/psicológica, negligência, sexual e despersonalizante – que a mulher sofre da gestação ao puerpério, durante os cuidados obstétricos realizados pelos mais diferentes profissionais que atendem a gestante, parturiente ou puérpera (TESSER et al., 2015). Os procedimentos desnecessários e danosos como a episiotomia, clister, tricotomia, uso de ocitocina rotineira, impedir acompanhante, cesarianas desnecessárias, o não alojamento conjunto, o não aleitamento materno na primeira hora quando há condições, também são formas de violência obstétrica.
Historicamente, o homem na figura do médico, assume a posição de detentor do conhecimento sobre o corpo da mulher.  Ele passa a ditar as regras de comportamento no processo de parturição, baseado frequentemente naquilo que ele considera a favor de si e não da mulher. A posição horizontal no parto, por exemplo, foi criada por François Mauriceau no século XVII, pois facilitava o seu trabalho. O corpo da mulher, portanto, entendido como objeto de manipulação do homem.
Essa dominação masculina sobre o corpo da mulher é, de fato, uma violência simbólica. A violência simbólica é um tipo de agressão velada, implícita, que torna a própria vítima insensível a ela. O poder simbólico é invisível e é exercido com a cumplicidade daqueles que estão sujeitos a ele. A pessoa sente-se mal com a ação do outro, entretanto, aceita por acreditar que aquilo é um ato normal ou certo. Na relação médico-paciente há uma hierarquia, o médico está no topo e detém o poder técnico e “científico” de decisão sobre o corpo do outro.
Como resultado de um tratamento desrespeitoso e frustrante em um momento tão delicado, muitas mulheres chegam a ter reações semelhantes às de vítimas de estupro. Passam  a rejeitar o próprio corpo, temer relações sexuais, além do pavor de uma nova gestação ou ansiedade por outra na tentativa de substituir as péssimas memórias. O fato de muitos profissionais realizarem o exame de toque na parturiente pode caracterizar também como um sentimento de estupro coletivo, o que pode levá-la, quando já no puerpério, a ter um sentimento de que o parto normal foi horrível, com desrespeito de seu corpo e de seu ser. Esse sentimento pode desencadear nela os mais diversos comportamentos, desde um sentimento de que algo não estava certo na sua cena de parir até situações mais graves como um Transtorno de Estresse Pós-traumático.
É preciso que mulheres tenham conhecimento a respeito do que é normal e do que não é normal na cena de parto. É preciso empoderar mulheres para que se sintam mais seguras quanto ao momento do parto e identificar se estão passando por violência obstétrica. Assim, as denuncias finalmente começarão a ocorrer em nosso país. Esse realmente é um assunto do qual precisamos falar sempre.

Imagem: MammaLoves via Visual hunt / CC BY

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