Eu não queria ter feito o que fiz, mas não vi outra saída

Anônima, 23 anos

Desabafo Anônimo: Eu carrego um segredo comigo muito pesado e quando vi essa página, decidi escrever sobre isso para ver se de alguma forma eu me sinto mais leve.
Sou mulher.
Sou feminista.
Ano passado me envolvi com um cara do trabalho, alguns meses se passaram e eu percebi que estava enrolada da cabeça aos pés à um relacionamento abusivo. E como todo relacionamento abusivo, ele era cíclico, e eu encarava todas as fases só esperando chegar a fase “lua de mel”.
Numa dessas tantas idas e vindas que nós tínhamos, eu engravidei.
GRÁVIDA!
Uma criança estava se gerando no meu ventre do cara que engravidei mais amei e o cara que mais me fez sofrer.
A idéia de constituir uma família com ele, ao mesmo tempo que me encantava, me apavorava. Ele tem problema com cocaína e álcool, a ponto de fingir um sequestro para que eu lhe desse dinheiro. Como eu poderia colocar uma criança nesse contexto? Eu passar por isso, por mais que eu nunca consiga entender, era uma opção minha. Mas que culpa teria a criança? Não era justo que ela passasse por isso.
Pedi pra ele pra abortar mas ele não quis, dizia que sempre sonhou em ser pai, que não iria mais usar cocaína e que nós seríamos felizes.
Eu acreditei, como sempre. Mas algo dentro de mim me dava desespero! Eu chorava a noite inteira, enquanto todos estavam felizes por mim “filho é bênção!” “É a melhor coisa que poderia ter acontecido” “isso vai ajudar ele a sair das drogas” “que alegria”
Eu não conseguia ver nada disso. Era um pesadelo! Cada dia que passava eu me desesperava mais.
Procurei pela Internet remédios para abortar, falei com mulheres que conhecia, e pelo meu tempo de gestação, não era seguro um aborto medicinal. Então desisti. Parei de tentar decidir a minha vida e deixei que decidissem por mim.
Primeira consulta do pré natal e o dito cujo não apareceu. Minha irmã foi comigo. Eu chorei muito. Não estava acreditando que aquilo estava acontecendo.
Até que um dia minha irmã me disse “aceita que dói menos! Você sempre foi uma mulher decidida, se quisesse abortar, já teria dado um jeito. A verdade é que você quer esse filho!”
Essas palavras me fizeram tomar as rédeas da minha vida outra vez.
Em duas semanas eu já tinha marcado o procedimento e feito um empréstimo no banco de 3 mil reais, o resto eu usei da minha poupança.
Fui sozinha na clínica. Eu era a única que estava desacompanhada. O médico fez um preço bacana porque viu que eu era “batalhadora”. Ele viu que eu era pobre! Que eu não era essas mina branca cheia da grana que vai com a mamãe pagar um procedimento de 8 mil reais sem nenhum tabu. Porque o aborto é tabu pra mulher preta e pobre! Pra mulher classe média alta é legalizado. É bem feito. É seguro.
Pra nós é proibido, é pecado, é crime!
Dia 29 de junho, 8h da manhã.
Eu fui muito bem recebida. Tive o privilégio de encontrar essa clínica e conseguir pagar por ela pra não morrer.
Quando entrei naquela sala, com aquelas luzes fortes, me deitei na cama e a mulher disse que eu sentiria minha boca formigar. Quando acordei, o médico estava terminando a raspagem. Senti muita dor. Olhei pro lado e chorei, pois sabia que não tinha ninguém ali e que nunca poderia ter. Ninguém estaria ao meu lado nessa decisão. Então, num ato desesperado por compaixão, eu disse pra moça que me acompanhava até o quarto “eu fui estuprada”. Disse para ver se conseguia algum tipo de apoio, ou menos reprovação. Isso tudo ainda sob efeito da anestesia. A mulher, que segurava minha mão sorriu e disse “você ainda vai ter seu filho, mas na hora certa”.
Eu fiquei lá no quarto de recuperação até as 11h e recebi alta. De lá fui trabalhar.
Eu cheguei naquela clínica sozinha, sai sozinha. Resolvi tudo sozinha. Nunca me senti tão dona de mim. Nunca senti tanto orgulho de mim como naquele dia. Almocei no meu restaurante preferido e escolhi a melhor sobremesa.
Mas ainda tinha a pior parte: como dizer para os outros que não estava mais grávida?
Eu fingi um aborto espontâneo pra toda minha família e pro pai da criança. Foi horrível. Fiz muita gente sofrer. Fiz muita gente chorar. Eu chorei também. Chorei por tantos motivos que nem sei escrever tudo aqui.
Eu tenho medo que Deus nunca me perdoe. Eu tenho pavor de que alguém descubra algum dia o que eu fiz. Não acho que fiz a escolha errada, mas sinto culpa todos os dias. Eu menti pra muita gente. Eu pensei só em mim. Mas eu precisava pensar em mim!
O tempo todo eu tento me justificar comigo mesma, mas a culpa me machuca, me acorda no meio da noite. Eu não queria ter feito o que fiz, mas não vi outra saída.

5 comentários Adicione o seu

  1. Monique disse:

    Nossa ,se eu trabalhasse faria o mesmo pois estou gravida do 3 filho e não vejo alegro estou tentando achar graca montar o quarto bordar as toalhinhas mais queria perde esse bebe não odeio ele eu so não queria outro menino sei que Deus e quem decide e ele sabe o que é melhor mais essas palavras estão soando tão vazia dentro de mim até sexta eu amava Est gravida pó o tinha a possibilidade de ser uma menina maia e o 3 menino não quero morrer pq tenho os 2 meninos pra cuidar mais se Deus me deu ele pode tomar esse que está na minha barriga so queria que fosse logo pq não aguento dizer que amo esse bebe que estou feliz e anciãos por ele ….não tenho coragem pra dizer e até as lágrimas não saem mais eu não quero esse bebe ..

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  2. Mara disse:

    Receba meu abraço. Se perdoe!!! Se abrace

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  3. mariana disse:

    Ola, nao pude deixar de me emocionar quando li seu post. Bom, primeiro eu diria para vc procurar uma ajuda especializada e tentar minimizar essa culpa, ninguem deve/pode julgar vc pelo o que fez e não farei disso em nenhum momento. Sou mãe e sei como uma criança alegra a vida, mas o casamento ou relacionamento tem que ser forte e bom, pois é uma barra bem pesada.
    Eu vejo dois pontos muitos diferentes e muito importantes:
    1) porque vc se sujeitou a ficar com este cara? isso pode ser algo relacionado a auto estima e isso pode ser recuperado com uma boa terapia. Nós não podemos nos sujeitar a viver relacionamentos abusivos em troca de algum carinho, isso precisa ser investigado para que nao aconteça de novo.
    2) tratar essa culpa que nao te deixa em paz…. Seja qual for sua religião, comece fazendo uma oração sincera com Deus e abre seu coração. Sera impossivel passar uma borracha no que aconteceu, mas vc precisa saber viver com o que fez sem que isso te cause este transtorno. Não da para voltar no tempo mas dá para conviver com ele. Não se envolva mais em relacionamentos unilaterais, a vida e um casamento é muito mais do que isso. Procure um psicologo bom, alguem que se identifique, exponha tudo o que sente e peça ajuda especializada, vc precisa disso para conseguir começar a sobreviver. Como eu te disse, nao podemos julgar o que vc fez, hj sou mae de um bebe de 4 meses e isso é magico, mas cada pessoa tem um passado e uma história. Faça isso, comece com uma oração para acalmar sua alma, procure um padre ou pastor (nao sei se tem religiao) e depois parta para entender o que gerou este relacionamento abusivo. O bebe foi consequencia de uma baixa auto estima doentia. Vc vai ficar bem, mas precisa de ajuda especializada.

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  4. GISELE disse:

    Eu passei por isso e por duas vezes, ate hoje me culpo por não ter tido mais coragem mas ao mesmo tempo fico perguntando se aqueles dois filhos que rejeitei seriam esses dois que tenho agora? Tudo na mesma situação filhos do mesmo homem, que não compareceu com nada a não ser com o espermatozoide, hoje pelo que fiz tenho esse medo de ser castigada por ter rejeitado la atras os bebes, mas uma coisa que me ajuda é que nesses dois filhos que tive eu depositei a minha redenção tipo pedi perdão pelo que fiz e a quem eu fiz e prometi que buscaria eles novamente por isso tive dois filhos os quais eu planejei ter, mesmo que criando sózinha com a graça de Deus me estabeleci em um emprego , adquiri um imovel, faltou coisas para meus filhos sim faltou mas aquelas coisas que só dinheiro compra, então te digo pare de se culpar, peça perdão a essa vida que interrompeu e prometa que um dia voce ira permitir que ela entre em sua vida e voce dara o amor que esta guardado.

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  5. Luciana disse:

    Chorar faz bem, mas conversar sobre isso com alguém tbm te faria bem.

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