Eu amo os filhos que tive. Amo o que não tive

em

Micaela, 3 filhos, historiadora

Idade: 27

Desabafo Anônimo: Já se foram mais de três anos desde que o perdi. Ele, que existia apenas dentro de mim, mas existia. Ele, que já era uma pessoa. Seu coração batia no compasso do meu e sua alma se alimentava da minha.
Conforme ele crescia, meus sonhos de uma vida ao seu lado cresciam junto. Tinha nome escolhido, algumas peças de roupa. Existia nos planos da irmã.
Era desejado pela família. Recebíamos presentes e nutríamos todo um mundo de esperança.
Estava tudo onde deveria estar.
Até que eu dormi. E talvez, só talvez, se eu não tivesse dormido teria percebido a tempo de salvá-lo que ele se perdia de mim.
Não tive tempo de sonhar e o pior pesadelo de quem deseja um filho se fez verdade. E a verdade era vermelha. Além de vermelha se espalhava pelo chão do meu banheiro. E o vermelho se misturava ao sal das minhas lágrimas e ao som do meu desespero.
A frieza de uma enfermeira ao anunciar um aborto ainda não confirmado ainda ressoa em meus ouvidos, e mais do que qualquer outra coisa que já tenha escutado antes, nada me marcou tanto, ou me feriu com a mesma força ou profundidade.
Eu estava ali, numa maca fria entre uma mulher com câncer e outras duas em trabalho de parto, era o perfeito quadro da miséria humana e da plena felicidade no mesmo metro quadrado.
Não houve consolo ou explicações. Houve um laudo, inconclusivo.
Houveram lágrimas e poucos abraços com palavras de conforto que machucavam tanto quanto a própria perda.
Houve uma solidão extrema. A permissão que existe de luto pelos entes queridos não se aplica aos não nascidos, não se aplica àqueles que o coração parou de bater antes que olhos tenham conhecido a luz do sol, não é permitido chorar por quem nunca emitiu o primeiro choro.
Seu luto tem tempo contado, e seu nome jamais pode ser dito, afinal talvez se tenha outro, talvez este não fosse saudável, talvez não se tornasse uma boa pessoa, talvez seu espírito não estivesse pronto, é um tanto de talvez que serve apenas para abafar o choro de uma mãe sem filho.
Meu corpo demorou a entender, demorou a dormir, demorou a parar de desejar a barriga, os seios inchados, as dores do parto. Meus ouvidos ainda causam um arrepio em todo meu ser cada vez que ouço a palavra mãe.
Minha mente idealiza aquela voz que jamais será ouvida, o sorriso que jamais será admirado, a maciez da pele e aquele cheiro que jamais serão sentidos.
Era meu filho, mas por ele ninguém me chama de mãe. Ninguém chora por ele além de mim. Ninguém fala sobre ele ou deixa transparecer qualquer coisa que me indique que ele já tenha sido lembrado com pesar por não ter chegado a conhecer meu colo.
Ele tem uma irmã mais nova agora, uma irmã de uma gestação que sequer existiria se a dele tivesse tido um final feliz. E todos me dizem que eu devo ser grata por isso. Agem como se o trauma dessa perda fosse suprimido por um outro sorriso, um outro choro, uma outra pessoa em meu colo sendo nutrida de mim e por mim.
Mas a mães sabem, que um filho nunca substitui outro, mesmo que não se saiba a cor dos olhos ou cabelo, mesmo que não se conheça a voz ou que nunca se descubra o doce favorito desse filho. Eu amo os filhos que tive. Amo o que não tive.
O amor que existe em meu peito busca desesperadamente preencher o vazio que sua partida deixou.
E assim como eu, milhares de mulheres seguem, secando as lágrimas sozinhas, amando e preservando a memória daqueles que não tiveram uma história.

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5 comentários Adicione o seu

  1. Meu amor, minhas lágrimas se juntam às suas.

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  2. Audrey disse:

    Micaela querida
    Entendo e respeito sua dor e ela é incomparável….
    Porém por vezes Deus ou a vida (seja como você deseja interpretar) escreve certo por linhas tortas… E a vida as vzs é cheia de mistérios e dores que por vezes são curas…
    Veja: já parou para pensar que o filho que você perdeu trata se dessa filhinha caçula que você teve?!
    Quantas vezes um serzinho não vive o bastante pq seu corpo físico ainda precisa ser curado no plano espiritual para depois voltar a vida?!
    Não sei qual sua crença, mas essa pode ser uma explicação pra sua perda e para o seu presente de ter tido essa filhinha…

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  3. Lilian disse:

    Micaela, traduziste perfeitamente meus sentimentos, no meu caso foram três perdas consecutivas. Eu tenho um filho que nasceu antes das perdas e um bálsamo para as dores que restaram, pois como falaste um filho nunca substitui o outro e todos os “talvez” só servem para sufocar mais ainda o choro de uma mãe sem o filho. Obrigada por ter escrito esse texto.

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  4. GISELE disse:

    Já parou para pensar que “ele” voltou , foi-se embora no momento em que sentiu que não teria forças para sobreviver por muito tempo e voltou nutrido reforçado na imagem dessa menina caçula que voce tem, repare bem nas atitudes dela e veja que ali se encontra aquele que foi buscar forças para ficar a seu lado por um periodo bem longo.

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  5. Ágata disse:

    Querida Micaela,
    Estamos juntas nessa dor que não se acalma. Tb perdi minha Catarina com 39 semanas de gestação. A certidão de natimorto não tem o nome dela, a minha licença é de somente 30 dias, como se ela não fosse uma pessoa.
    Conte comigo para o que precisar. Vou deixar meu email caso vc queira entrar em contato: agatagava@hotmail.com
    Um abraço fraterno bem apertado

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