Mas eu não estou completa!

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Anonima, 2 filhas, do lar por obrigação

Idade: 32 anos

Desabafo Anônimo: Eu sempre sonhei em casar e ter filhos! Sempre idealizei um casamento com um homem de Deus, que meus filhos fossem educados na fé que fui criada e que eu seria uma profissional bem sucedida, realizada, estável e tranquila financeiramente. E claro, feliz por ter alcançado tudo isso!
Eu alcancei o principal: meu marido é um homem de Deus e minhas filhas estão crescendo saudáveis e no caminho reto. Eu sei que muitas famílias se contentam com isso. Mas eu não estou completa!
Comecei a trabalhar com 16 anos, dava aulas de informática, desbravei, com outras poucas mulheres, um mercado dominantemente ​masculino. Eu me sentia “a top” por me destacar no meu trabalho. Em pouco tempo, assumi serviço de escritório, coordenação e com 19 anos, conheci meu marido.
Namoramos e ficamos noivos. Nossa origem humilde nos permitia guardar muito pouco ou nada para o casamento. Sempre trabalhei muito, fazia bicos com artesanato. Meu trabalho principal sempre envolveu informática. Casamos 6 anos depois de começar a namorar. Tudo muito simples, sem festa. Ganhamos uma rodada de pizza dos amigos. Estava feliz e realizada!
Dois anos depois, nasceu minha primeira filha. Me vi obrigada a pedir contas assim que soube da gravidez. A empresa que eu trabalhava preferiu pagar pra um cara fazer um site (que tinha plataforma grátis na internet) do que pagar pra mim. Atraso de salário, ofensas e sangramentos. Estafa!!! Se continuasse, certamente perderia o bebê. Preferi perder o emprego, a carreira. Fazia artesanato e serviços gráficos em casa. Primeiros sintomas de síndrome do pânico. Ela nasceu linda, perfeita…e foi contaminada com bactéria hospitalar: 15 dias de internação! Ninguém podia ficar um dia sequer comigo, afinal, “eu era a mãe e não trabalhava fora, nada mais justo!”.
Eu ficava em casa com ela 24 horas por dia. Conselhos choviam de amigos, parentes e até desconhecidos na rua. Morávamos de aluguel, tivemos q devolver a casa e voltar a morar com meus pais, na garagem.

Marido perdeu emprego e fez bicos também. Tive sintomas de leve depressão. Tudo mundo acha que é preguiça. Tudo isso dói e me procuro perdida num mar de dúvidas e medos. Marido e eu arrumamos empregos quase ao mesmo tempo. Podia levar a bebê, já com um ano, que ficaria no berçário. Voltei ao mercado de trabalho, mas sofri retaliação cada vez que precisava sair pra cuidar da bebê. “Por isso que prefiro contratar meninas solteiras…” E isso dói ouvir.
No ano seguinte, passei num vestibular ultra concorrido, no curso dos meus sonhos… Só que em uma cidade há 60 km, período integral. Família topou, pra minha surpresa, cuidar da bebê, agora com 2 anos. Larguei o emprego e fui pra faculdade. Nunca me senti tão feliz na minha vida!! O curso que tanto sonhei, seria uma das pioneiras na minha cidade! Antes, tinha crise de enxaqueca pelo menos 1 vez por mês. Em dois anos e meio de faculdade, não soube o que era dor de cabeça.
“Dois anos e meio”??
Sim!!
Me vi obrigada a trancar meu amado curso bem na metade, para ter q voltar a trabalhar. A compra de um apartamento foi muito pesado para o nosso orçamento apertado. Estava feliz por ter um lugar pra minha família morar com dignidade. Meu marido ganhou bolsa na faculdade. Mas eu não tinha opção de terminar a minha. Eu não podia “ser egoísta” e deixar tudo para o meu marido arcar sozinho. Eu tinha que pensar no bem maior. Tinha que trabalhar para pagar a moradia. Largar minha realização. Servir ao sistema.
E chorando muito, tranquei meu curso. Abafei meu sonho para meu marido ter diploma, minha família, um teto. Fui trabalhar numa loja onde o começo foi tranquilo. Me tornei gerente em 6 meses, quando começaram as cobranças excessivas e metas fora da realidade. Voltei a ter síndrome do pânico, sensação de morte me rodeava. A dona da loja dividida sua vida entre tentativas frustradas de gravidez e mais 4 lojas. E no meio disso tudo, fiquei grávida! Minha filha mais velha contava aí com 5 anos.
Sofri como nunca, pelo “crime de conseguir engravidar e afrontar a dona da loja”. Retaliação cada vez pior e me vi, pela segunda vez, obrigada a pedir as contas. Perdi meus direitos trabalhistas por falta de tolerância. Felizmente, com o que aprendi na loja, comecei a trabalhar em “casa” (que era na verdade a garagem dos meus pais, onde eu podia atender as clientes). Minha filha nasceu e um mês depois meu marido perdeu o emprego! Eu não podia acreditar que aquilo tava acontecendo de novo!
Voltei aos meus atendimentos antes de terminar os 40 dias de resguardo. Eu precisava dar conta das contas. Foram sete meses de desespero contidos. Eu contava cada moeda que entrava e saía. Devíamos pouco, mas com o desemprego, esse pouco cresceu. Eu tinha que dar conta da casa, das crianças e de atender…é meu sonho…quase sumiu do meu coração. Estava conformada que eu jamais terminaria minha faculdade. Deixei de almejar, deixei de criar expectativas, aceitei que minha sina era ver todas as minhas amigas diplomadas, com profissões importantes, minha irmã viajando pra fora do país a estudo e eu, uma simples dona de casa, mãe em tempo integral, sem identidade, com um sonho enterrado, vivendo de bico.

Sete meses depois, um bom emprego aparece para o meu marido. Ele também termina a faculdade e, pela primeira vez desde o trancamento, há 2 anos, falamos numa possibilidade de eu voltar para a faculdade. Parece que ganho novo ânimo e sentido! Finalmente serei gente!! Porém, seis meses depois, perdi minha vaga. A matrícula jubilou por passar do tempo de destrancar. Minha bebê tem um ano e meio e me consome 24h horas por dia. Não sinto mais tanta realização em amamentar, ser mãe em tempo integral. Quero ter uma carreira, uma profissão de verdade….mas as pessoas só me dizem que eu deveria esperar as crianças crescerem e serem mais independentes. Que tudo tem um tempo certo e que essa foi minha escolha. Todos falam que minha hora vai chegar​ e que eu não preciso correr!
Mas poxa vida…Ninguém nunca me perguntou se eu estou bem com isso, se eu quero conversar sobre isso, como eu me sinto de, em todo esse tempo, ter sempre abdicado de tudo o que eu queria para dar oportunidade para todos que amo. Mas por que ninguém pensa que eu também gostaria de uma oportunidade? Será que ser mãe me dá um fardo de nunca mais poder ser alguém na vida que não simplesmente (e romanticamente), me anular pelo outro?
Estou errada em querer ter nome de novo, ao invés de ser só “mamãe”, 24 horas por dia, 7 dias por semana, 4 semana no mês??
Cada vez que eu vejo alguma colega minha se formando e abrindo suas clínicas, penso: “Puts! Poderia ser eu, poderia ser minha clínica, mas estou parada no tempo, me deixando de lado, pra não criar expectativas novamente! Ás vezes tenho a impressão que, até eu conseguir me dedicar a uma faculdade nesse nível, já estarei velha e pra morrer de velhice, porque é como se os filhos jamais desgrudassem da gente!
Eu amo minhas filhas, elas são tudo para mim e meu marido é um homem maravilhoso, que aos poucos está desconstruindo o machismo nosso de cada dia (mas ainda há muito a melhorar). Mas eu sinto falta de mim mesma, de ser alguém de verdade e não apenas uma mãe no mundo! Desculpem o tamanho do texto.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Maria disse:

    Olá! Tenho 51 anos, casada, 2 filhos adultos. Tive que deixar a faculdade por que fiquei grávida, foi muito ruim. Batalhei muito ao lado do meu marido e filhos, enfrentamos muitas dificuldades. Hoje, voltei para a faculdade, estou feliz. Sonho é sonho e deve ser realizado, não importa o tempo que demore!

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