Eu não consigo sonhar como antes

em

Eliza, 18 anos.

Desabafo Anônimo: Oi, tenho 18 anos, sou órfã desde os 11, moro sozinha em Curitiba, sou negra, sou designer de interiores, tenho uns problemas de saúde, nunca conheci o meu pai, e temo que nunca amei alguém de verdade. Sempre lutei atrás dos meus sonhos, sou da classe média baixa.
Sabe quando você faz planos a sua vida toda, e quando as coisas começam a dar certo, algo maior estraga? A minha vida é assim.
Com 10 anos meu sonho era ser cantora e morar com a minha mãe em uma casa nossa, com 30 anos minha mãe foi diagnosticada com um tumor no cérebro, ela simplesmente desistiu, tentou até o seu limite, mas depois viu que não ia adiantar, e desistiu. Após a sua morte eu também desisti, desisti de mim, me senti tão fraca, tão inútil por não ter feito nada, ela faleceu na minha frente, no meu quarto, e eu não fiz nada, simplesmente dei um abraço e senti o seu coração, para mim ainda tinha alguém ali, mas infelizmente não. Com 11 anos eu entrei em depressão, perdi 1 ano no colégio e desisti de cantar e de desenhar, e virei um nada. Odiava a minha família, odiava a minha pessoa, odiava o fato de eu não ter ouvido conselhos dela quando precisava, e comparava a minha vida com a das outras, com 13 anos eu bebi, fumei, me mutilava, me batia, me dopava, aos 14 eu tive o meu primeiro namorado, pensei que foi amor, durou 3 anos, ele foi a melhor pessoa que eu já conheci na minha vida, ele me ajudou tanto, eu não me sentia tão lixo assim porque eu sentia que tinha alguém que se importava comigo, dei um tempo na mutilação pois todos da minha família acabaram descobrindo e eu só me dopava para esquecer e não sentir nada, nem dor, nem ódio, nem amor. Nesse tempo eu senti tanta coisa que eu não sei descrever, era saudade, era felicidade, era liberdade, voltei a cantar e descobri o que eu queria ser, porém ainda assim eu me sentia fechada e sufocada, eu queria algo maior. O ensino médio me dava sono, as pessoas manipuladas e padrões me davam nojo, e tentava não ser eles. terminei meu namoro, conheci outras pessoas interessantes, mas eu estava cansada, eu queria apenas ter mais amigos, sair mais, sentir algo diferente, me conhecer, ter contato com a natureza e acreditar em algo, queria sentir a minha mãe para eu não ficar sozinha. Conheci umas músicas legais, voltei a cantar e a desenhar, estudei assuntos que iam me atribuir algo, fui pra tanta rave que nem sei os nomes, conheci tantas pessoas incríveis, tantas substâncias loucas, perigosas e maravilhosas, conheci a liberdade. Estava tudo indo bem, alguns problemas em casa com a minha avó, mas tudo bem né, em 2016 em maio eu encontrei umas cartas da minha mãe, umas fotos e pesquisei um pouco, e eu descobri que ela sempre soube que ia me deixar cedo, apenas não aceitava e não acreditava. Tive uma recaída, minha família não é das melhores quando o assunto é psicológico, tudo é Deus, e eu nem acredito em Deus. Eu cheguei no meu limite, voltaram as mutilações em segredo, mas era tão segredo que eu parecia um quadro pintado, só mostrava uma imagem, a descolada, a festeira, a feliz, corajosa, forte. (Esqueci de citar, mas entre 2015/2016, eu me aceitei negra, aceitei ser eu mesma, criei um blog que me ajudou muito, fiz um big chop, e me vesti do jeito que eu queria).
Eu ficava boa parte do meu tempo pensando no quanto eu queria ir embora daquela cidade, e deixar o passado para trás, em novembro de 2016 eu decidi me mudar, eu tinha uma pensão da minha mãe, e eu queria ir embora, resolvi que Curitiba era o melhor lugar para mim, me mudei.
Estou aqui. Eu planejei tanta coisa, anotei cada coisa, nada deu certo, nada. Estou aqui, quero continuar aqui, mas está sendo tão difícil, eu tive tantas decepções em tão pouco tempo. Realmente, ser adulto é uma merda, mas ultimamente eu percebi que eu estou em um nível a baixo da merda, estou desesperada, eu estou tão sozinha, tão triste, quero um abraço da minha avó (ela me criou, eu morava com ela, só eu e ela) saudade do meu avô, ele e ela são as coisas mais importantes da minha vida e eu tenho tanto medo de perder eles e não estar lá para me despedir, mas eles estão tão feliz por mim. E eu já desapontei tanto eles, eu tenho que ser forte, eu sei, já estou acostumada a não ter ninguém do meu lado, já me acostumei a crescer sem tapinha nas costas e sem conselhos, talvez seja só mais uma fase, mas parece que a minha vida inteira é uma fase de tragédias e êxtase de felicidade. Não é fácil como eu pensei, mas também já passei por coisa pior, só que minha mente está juntando tudo e transformando tudo em uma grande merda. Eu já fiz bem pra muita gente, mas também já fiz pessoas chorarem, e eu nunca mais quero fazer isso, a n ser que seja de saudade porque vai ser recíproco alguma coisa. Bom, me mandem energias boas, porque eu não estou bem, e nunca estive tão mal assim. Minha criatividade foi embora, e meus sonhos também estão indo, eu sei que tenho que ser forte, sei que não posso abaixar a cabeça, mas é tão difícil! Eu não consigo respirar porque parece que tem um caroço na minha garganta, eu não consigo falar sobre isso com alguém, eu não consigo sonhar como antes, eu simplesmente, não consigo.

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2 comentários Adicione o seu

  1. Delfina disse:

    Muito doloroso tudo o que você passou mas não desista. É ruim, dói, é casantivo, é depressivo mas vai passar caso você não desista. Morar sozinha não é fácil, pior ainda quando os planos começam a dar errado. Respira, pegue um caderno e anote tudo o que você pode fazer para melhorar a sua situação. E vai tentando dar volta a situação. Espero que você fique bem

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  2. GISELE disse:

    A menina que perdeu o bem precioso está gritando por ajuda, dê isso a ela, volte para seus avós, aproveite o colo o abraço o carinho o amor que eles tem pra te dar, viva a criança que precisou crescer bruscamente, digo a criança não a adolescente que se frustou fez de um tudo e pulou para a fase adulta por sentir que era esse o caminho, volte e refaça tudo novamente, voce sabe que tem condições para tanto, mas deixe a criança sofrer o luto, crescer como deve ser em todas as fases de nossas vidas, lembre dinheiro não é tudo, familia sim esse é o bem maior, voce não passara fome, não andara sem roupas, nem estara ao relento, pobreza não é defeito, ter grana para esbanjar também não é o unico caminho, volte abrace seus avós reviva suas dificuldades e depois sim se despeça deles já como a mulher que te tornou. Bjs

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