Como amamentei após passar por um parto traumático

Amamentar é um processo de aprendizado tanto para a mãe quanto para o bebê. É preciso conhecimento, paciência, tempo e amor para superar o incômodo dos primeiros dias, até finalmente pegar o “jeitão da coisa”. Minha história não foi diferente, apesar de ter passado por um parto traumático e sofrido violência obstétrica. Eu amamentei de forma continuada durante o tratamento de dois traumas decorrentes do parto. Em seis meses, tive quatro cirurgias. Foi difícil, muitas vezes exaustivo, mas vivi uma experiência exitosa e feliz de amamentação, mesmo enquanto tratava traumas físicos e psicológicos.

Ainda antes do parto, eu já tinha muita vontade de amamentar. Durante a gravidez, li diversos estudos, blogs e revistas sobre os muitos benefícios do aleitamento. Estudos indicam que a amamentação tem impactos de curto e longo prazo para a saúde da criança, tais como menores riscos de infecções respiratórias e de ouvido, redução de índices de asma, diabetes e obesidade.[i] Amamentar também contribui para o fortalecimento da relação afetiva entre mãe e bebê. No meu caso, a amamentação me ajudou a criar esse vínculo com meu bebê, principalmente porque tive um parto traumático e fomos separados logo depois do seu nascimento. Até hoje, amamentar é o  nosso momento juntos, uma das principais formas de nos aproximarmos e nos conhecermos melhor. Esse “encontro” diário tem ainda me ajudado a superar a experiência difícil do meu parto.

IMG_8424Minha primeira cirurgia aconteceu minutos depois do parto, após o diagnóstico de uma laceração de terceiro grau do períneo. Horas depois da cirurgia, eu notei que não conseguia urinar normalmente, sentia bastante dor mas não conseguia expelir nada! Tanto a laceração quanto a forte pressão na bexiga durante o parto contribuíram para um problema temporário, mas extremamente desconfortável: uma retenção urinária no pós-parto. Por essa razão, precisei usar uma sonda por 15 dias (inclusive sai do hospital com um bebê, um cateter e uma bolsa de urina!). Tudo isso aconteceu ao mesmo tempo em que o leite “desceu” e o meu corpo passava pela tempestade de hormônios do puerpério. Eu tive medo, estava sem dormir há dias e sentia dor – dor para amamentar, dor nos pontos da cirurgia, dor para sentar em cima do cateter. Assim, me dei conta de que precisava de ajuda.

Por sorte, eu pude contar com uma “rede de apoio” formada por diversas pessoas que conheciam minha história e puderam me auxiliar para que eu tivesse êxito na amamentação. Minha doula e uma enfermeira da maternidade, especialista em lactação, tiveram um papel central nessa “rede”. Eu podia ligar ou mandar mensagem para elas sempre que tinha alguma dúvida sobre como posicionar o bebê no peito ou a quantidade de leite que poderia bombear por dia. Diversas vezes, elas me visitaram em casa não só para me orientar, mas também para me tranquilizar.

Por conta do cateter, eu ainda tinha dificuldade de fazer coisas simples, como levantar durante a noite e pegar o bebê ou trocar sua fralda. Foi no momento de maior dificuldade que eu percebi que o meu marido era o núcleo da minha “rede de apoio”. Era ele quem trazia o bebê para cama para que eu conseguisse amamentar deitada de lado, uma posição mais confortável por conta da sonda urinária. O seu apoio incondicional à amamentação e sua dedicação durante a minha recuperação foram fundamentais naqueles primeiros dias do pós-parto.

Quando eu achava que o período mais difícil havia passado, eu tive o diagnóstico de uma fístula retovaginal, outra complicação decorrente do parto. Meu bebê tinha pouco mais de dois meses quando recebi a notícia. Fiquei sem chão. Graças ao apoio da minha família e de amigos próximos, eu consegui seguir em frente e buscar tratamento adequado. Meu bebê mamava exclusivamente no peito e eu tinha convicção de que eu só interromperia a amamentação em último caso.IMG_8420

Eu passei pela segunda cirurgia quando o bebê tinha pouco mais de quatro meses. Por conta da anestesia geral, a equipe médica sugeriu não amamentar ao longo das 12 horas após o procedimento. Ainda assim, durante a internação eu e o bebê ficamos separados por pouco tempo. Os médicos me apoiaram a levá-lo para o hospital e amamentá-lo normalmente antes da cirurgia e depois do intervalo de 12 horas. Apesar das quatro cirurgias, a quantidade de leite produzida nunca mudou, meu leite não “secou”, nem “diminuiu”, como muitas pessoas me perguntavam à época, até porque eu continuei amamentando e/ou bombeando durante o tratamento.

A minha medicação teve que ser toda adaptada à lactação. Eu tomei antibióticos, anti-inflamatórios e analgésicos por longo período. Os médicos sabiam do meu desejo de amamentar e, por isso, os remédios prescritos eram compatíveis com a lactação. Quando eu tinha dúvidas em relação a um remédio ou creme, eu buscava informações no site http://www.e-lactancia.org, que mantém um banco de dados sobre remédios, substâncias e ervas e suas respectivas categorias de risco. Infelizmente, esse banco de dados está disponível apenas em inglês e espanhol. Mas o Ministério da Saúde também dispõe de manual atualizado sobre o assunto (disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/amamentacao_uso_medicamentos_2ed.pdf)

No total, eu passei por três cirurgias para tratar a fístula e eu amamentei durante todo o tratamento. Hoje, meu bebê tem 11 meses e ainda mama! Eu sinto muita alegria e orgulho por ter podido amamentá-lo, apesar das adversidades. Eu sei que a lactação foi possível porque eu tive a sorte de ter uma “rede de apoio” formada por entusiastas da amamentação, pessoas que conhecem bem seus benefícios para mãe e bebê. Eu também tive muita sorte de contar com uma equipe médica e hospitalar que apoia a lactação, até porque eu tenho ciência de que muitos hospitais no Brasil não permitiriam que um lactente estivesse no mesmo quarto que uma mãe em tratamento. Eu não sou nenhuma “Mulher Maravilha” e, com certeza, amamentar ao mesmo tempo em que tratei dois sérios traumas obstétricos foi muito, muito difícil. Por outro lado, me bastava olhar a sua bochechinha redonda, seu excelente desenvolvimento e suas risadas para ter certeza de que a amamentação foi o caminho certo para mim e para meu bebê.

[i] Fonte: Breastfeeding, Position Statement from the of the Association of Women’s Health, Obstetric and Neonatal Nurses. Disponível em: http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/1552-6909.12530/full

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1 comentário Adicione o seu

  1. maristela disse:

    Parabéns pelo seu carinho, coragem e dedicação! Ser Mãe pode ser às vezes exaustivo mas nada se compara a essa realização!

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