Vamos refletir mais um pouco?

Por Luzinete Carvalho – 06 Junho 2017 – Visão Clara


– Fazer papinha, com tranquilidade, cabeça fresca, com tempo e alegria é muito legal.

– Ser a ÚNICA responsável por fazer TODAS as papinhas, todos os dias, para sempre: não é legal.

– Lavar e separar uniformezinho da escola, dobrar com carinho, sentindo o cheirinho do amaciante de camomila, guardar na mochila em algum momento entre um banho demorado e uma refeição deliciosa, é uma delicinha.

– Ser a ÚNICA responsável por lavar, dobrar e preparar os uniformes da escola, TODOS os dias, depois de uma correria dos infernos, fazendo mil outras coisas: não é delicinha.

– Amamentar com licença maternidade valendo, com pediatra humanizado apoiando, rede de apoio para dar conta da louça, da casa, da comida, com possibilidade de vida pessoal e sendo respeitada em casa e em público = amamentar é amor líquido

– Amamentar tendo que retornar ao trabalho e fazer ordenha no banheiro, com pediatra que manda dar chupeta e suquinho com 2 meses, com todo mundo falando que o seu leite é fraco ou é pouco, tendo que manter a casa impecável e ser chamada de exibida quando amamenta em público = amamentar é uma luta, um martírio, uma insanidade, tem nada a ver com amor.

– Separar um tempo tranquilamente para levar o Fulaninho e a Sicraninha para cortarem o cabelinho, num lugar legal, com gente bem humorada e preparada para lidar com crianças, e aproveitar para passear, tomar sorvete, comprar coisinhas, numa tarde super gostosa, sem nada mais para fazer, é transformar uma necessidade (cortar o cabelo) em um evento familiar super divertido.

– Precisar arranjar um tempo na agenda, em meio a compromissos, trabalho, reuniões, casa para arrumar, comida para fazer, uniforme para lavar e dobrar, e só lembrar de cortar o cabelo das crianças porque a professora da escola já mandou 5 recados na agenda avisando que o cabelo no olho está atrapalhando a aprendizagem das crianças, e ela tem certeza que cabelo no olho causa traumas, e ter que arranjar uma brecha, na correria, entre o horário de almoço do Fulaninho e o sono da Sicraninha, chegar num lugar qualquer onde as pessoas não tem o menor jeito com crianças famintas e sonolentas, é transformar uma necessidade (cortar o cabelo) num inferno de Dante pessoal.

– Amar os filhos quando eles se comportam como “quer” a sociedade, quando se está de cabeça fresca, bem alimentada e com sono em dia = nível fácil, amor incondicional, coisa linda de deus.

– Amar os filhos quando eles se comportam como se pretendessem derrubar a sociedade na base do grito e do escândalo, quando se está a meses sem dormir nem 3 horas seguidas, sem lembrar quando comeu pela última vez = nível antecipação de carma, amor duzinfernos, coisa terrível do demônio.

– Amar ser mãe quando se tem marido que se responsabiliza (dos que não falam que ajudam, e nem dizem que “é só pedir”), quando se tem rede de apoio, quando se pode escolher parar de trabalhar, ou reduzir carga horária, ou trabalhar com o que quer e ter direitos respeitados, enquanto Fulaninho e Sicraninha ficam bem cuidados sem que ninguém julgue = claaaaroooo que maternidade é algo maravilhoso.

– Amar ser mãe quando o marido ainda não percebeu o que está acontecendo, ou sozinha, sem rede de apoio, tendo que trabalhar em dupla, tripla jornada, lembrar de tudo, pensar em tudo, dar conta de tudo, além de ter cada escolha questionada e julgada = aos diabos a maldita maternidade compulsória.

Se os exemplos te parecem apenas exagerados, pergunte para uma mãe e a deixe contar como é de verdade.

Tudo depende do ponto de vista e do tipo de realidade que cada uma vive.

Tudo tem a ver com reconhecimento e manutenção de privilégios.

Desfrutar da maternagem, em seus inúmeros formatos, é privilégio de poucas.

Por isso o importante é pararmos de julgar as mães.

É importante pararmos de brigar umas com as outras, pois não é nem a romantização da maternidade, nem a desromantização da maternidade o verdadeiro problema.

O problema é o sistema.

O sistema que isola, exclui e depois cobra.

O sistema que dificulta, impossibilita e depois julga.

O sistema que nos faz questionar umas as outras para não questionarmos o sistema.

Foco no sistema.

Este sistema que assiste nossa queda enquanto se mantém inabalável.

Vamos ousar dar as mãos e focar no sistema.

Vamos tornar o sistema visível e faze-lo cair enquanto nos elevamos todas juntas.

Juntas somos mais fortes que o sistema.

Juntas somos mais fortes.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Gisele disse:

    Quem disse que temos que viver no “sistema”, você está ligada ao sistema deixe de vive-lo, segui-lo, faça você o seu sistema, está cansada não procure culpados haja como acha que é o teu certo, sempre cuidando da saúde de resto você é responsável, não entre no sistema, mães são as únicas que não precisam disso, se preferir pode culpar a maternidade mas não é verdade, nós criamos nosso tempo, nossas regras, mães tem esse poder, use o seu a seu favor e o resto é o resto.

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