Ele quis ficar comigo!

em

Ana, 2 filhos

Estava eu grávida comprando presentes de natal. Senti uma pressão enorme no útero, pensei em dar uma passadinha no hospital mais próximo, só pra conferir, afinal, estava de 5 meses e meio quase fechando o 6º. O que poderia estar errado, né? Quando deito na maca, o médico diz: Ana, tu estás com 7 dedos de dilatação, esse menino quer nascer e ele está nascendo!

Fiquei em choque, procurei as câmeras, fiquei tonta, pensei estar em um sonho, parecia que eu tava bêbada, quis ir embora e ninguém deixou (lógico né). Internei, fiquei dois dias tentando segurar pra ele tomar a tal injeção que ajudaria o pulmão… e ele veio! Médicos disseram pro meu pai e meu marido que os dois tinham poucas chances, eu tinha mais do que ele, as chances dele eram pouquíssimas. Ninguém me disse isso, claro! Nasceu, nem vi ele, vi o rosto do meu marido chocado e um micro-bebê azul com um pote de sorvete na cabeça! Fiquei lá sozinha numa maca, sem o bebê. Fiquei um dia sendo medicada, toda grogue, mas vendo as outras mães com seus bebês. E o meu? Onde estava? Ninguém me dizia! De madrugada uma mãe me disse que talvez ele estivesse na UTI neonatal, me disse onde era, e eu peguei meu soro e fui: bêbada, apavorada, vivendo um pesadelo, um filme de terror. Aqueles corredores pareciam não ter fim pra minha fraqueza!
Cheguei e deixaram eu entrar. Me encaminharam pra uma das salas da UTI. Eu olhei aquela cena de terror, uma coisa que nunca tinha visto antes, um monte de bebês com problemas. Fui direto pra um que tinha a cabecinha torta pra um lado com tudo pra fora, desmaiei dura no chão… levantei, me senti melhor e me levaram até um bebê minúsculo, cheio de aparelhos, onde estava escrito: “Gabriel – recém nascido de Ana Claudia”… quem era Gabriel? Eu nem tinha escolhido nome ainda! O que eram todos aqueles aparelhos? O que estava acontecendo? Desmaiei ali de novo! Daí me sedaram por um dia todo! Aí fui começando a entender, aceitei, e a partir dali, encarei minha nova jornada de peito aberto! Sai alguns dias depois, de alta, sem meu bebê! A pior sensação do universo!
Ele estava estável, apesar de ser prematuro extremo, ele ia ganhar dois quilos e iria pra casa! Peguei ele no colo uma vez. Ele nunca tomou meu leite, pois não podia! Eu tinha leite que jorrava! Doava todos os dias, o dia todo, me sentia um pouco mãe assim, dando de mamar pras outras crianças!

Com um mês na UTI as coisas mudaram: ele pegou cândida! Em dois dias estava morrendo! Pela primeira vez! Ficou gravíssimo por muito tempo, nunca mais vi ele se mexer, abrir os olhos, nunca mais peguei no colo, nunca mais dei banho de leito! Não podia tocar o dedo no meu filho, pois ele criou um edema enorme, passou de 2 quilos pra 8 quilos de inchaço(água, não sei o que era!). Não se viam os olhos mais, era um risco que parecia que iria explodir, ele todo parecia que ia explodir, a pele estava criando hematomas horríveis pois estava abrindo! Era horrível! Ficou muito tempo assim!

Uma noite, acostumada com o estado grave dele(sim a gente acostuma nesse estágio), cheguei pra ver ele pra dormir lá, pois trabalhei o dia todo e fui cuidar do meu maior com 3 aninhos. Veio uma equipe médica inteira em volta do leito, com cara séria! Disseram que precisavam me informar que ele tinha entrado em falência múltipla de órgãos, todos os órgãos estavam parando, era questão de horas pra parar coração e ele ir embora! Eu faleci ali, desmoronei por alguns segundos e quando eles acharam que eu ia sentar e chorar, eu arregacei as mangas e disse: “então ele vai morrer no colo da mãe!”Os médicos proibiram porque ele estava muito mal! Mas ele iria morrer, não iria mudar nada! Peguei uma das cadeiras, as enfermeiras compadecidas com a situação viram que eu pegaria ele de qualquer jeito, ajeitaram ele deitado no meu colo o mais confortável possível e elas e equipe ficaram monitorando a madrugada toda! Primeira vez que pegava meu filho no colo depois de um ano! Sentir o cheiro dele, a pele… fiquei cantando, fazendo carinho, esperando ele ir embora, mas sabendo que ele não ia! As enfermeiras trocaram o plantão às 7 e iam embora chorando! Se despedindo daquela cena! Fiquei 16 horas com ele no colo! E a mesma médica que decretou que ele já estava quase morto veio me dizer com uma cara espantada que os órgãos vitais estavam voltando! Ele quis ficar comigo! Ele sentiu meu peito e não quis ir embora! Foi um dos momentos mais bonitos! A partir dali ele teve mais um monte de coisas, boas , ruins, paradas cardíacas, respiratórias! Mesmo dia em que pela manhã, tínhamos tido uma reunião com os médicos e tive que decidir operar ele de uma retinopatia que o deixaria cego e ele ter 30% de chance de viver, pois era crítico o estado dele, ou não operar e rezar pra que não evoluísse pra uma cegueira! Decidi pela vida do meu filho! Eu decidi sozinha. Não sofri, sofrimento era o que meu filho estava passando, e meu filho maior esperando um irmão que nunca vinha brincar com ele e uma mãe que estava perdendo os melhores momentos dele! Uma vez dei a extrema-unção com um padre no meu bebê, pois tive medo que morresse sem a benção de Deus! Foi dilacerante!
Um ano e meio daquela tortura, morar num hospital, meu filho pegar todas as doenças possíveis lá dentro, pus hospital na justiça e o trouxe pra casa! A médica resolveu me fazer surpresa, não me disse quando! Cheguei um dia e ela simplesmente disse: “e aí, mamãe, pronta pra levar ele pra casa?” E eu morri! Choquei! Perguntei “quando?”… ela disse AGORA! Todas as enfermeiras e médicas caíram no choro! Eu não sabia se ria ou se chorava! Liguei pra família, vieram todos correndo(meus pais). Saí de lá absolutamente do nada, com 8 páginas de recomendações, um tubo de oxigênio do meu tamanho, duas sacolas de lixo de aparatos médicos, medo e uma esperança absurda! Enfim eu seria mãe! Ele chegou em casa, pus no berço, era um vegetal, raquítico, horroroso, igual aqueles bebês que vemos em países onde eles morrem de fome, sabe? Tadinho! Um buraco na barriga onde se alimentava, onde eu teria que alimentar agora! Meu filho corria pra todos os lados, feliz, gritando: “Gabriel tá em casa!” Queria brincar, tadinho! E assim passamos dois anos duros, não dormia, eu aspirava ele de meia em meia hora, era horrível! Ele não tinha voz, chorava mudo então eu tinha que ficar olhando 24 horas pra ele pra ver se estava bem!
Ele foi crescendo, com tanto amor que começou a engordar, tirou a sonda da barriga, comia já! Com dois anos e meio consegui tirar o oxigênio dele, sozinha! Os médicos lentos não queriam se responsabilizar, eu me responsabilizei, eu sabia que ele já ia dar conta! Primeiro passeio na rua, correndo sem nada! Nunca vou esquecer! Hoje meu pequeno guerreiro é surdo unilateral, tem atraso global do desenvolvimento, vai ter que tomar GH (Growth hormone, ou hormônio do crescimento), não fala muito e tem tamanho de 3 anos (tem 5). Mas tem uma alegria, uma vontade de viver que não passa! Tem mais de 100 picadas de agulha em cada mão, fora pés, coxas, pescoço, embaixo dos braços! A médica disse que ele nunca ia correr, ele nunca ia ter uma vida normal! Ele é a criança mais normal do mundo! Pulmão perfeito!
Eu agradeço a Deus todos os dias por ter passado por isso, queria não ter passado, né? Mas se não tivesse passado eu não seria a mulher que sou hoje! Tô chorando escrevendo isso, pelas as lembranças, o cheiro do hospital, o gosto do medo, da solidão, naquele hospital de madrugada!

Sou a mulher mais feliz do mundo por Deus ter me escolhido pra carregar toda essa bagagem! Se ele achou que eu ia aguentar, ele tava certo, em momento nenhum eu duvidei! Hoje ele disse “TE AMO MAMÃE !” Vocês têm noção do que é isso? Ele não completa frases sozinho! Tô muito feliz!

Desculpa o texto, obrigada quem leu até o fim! Mães de UTI, é duro, muitos não conseguiram sair com suas mamães de lá. Dos que nasceram com ele (eram 10), 8 morreram, é muito difícil! Mas Deus sabe o que faz! E se você está passando por isso agora, olha bem pro Gabi, pra esse sorriso, e tenha esperança! Ela não morre nunca! Tenho uma frase nas costas que diz que a força deles não vem do corpinho, vem de dentro! Hoje sei que somos capazes de passar por qualquer coisa de cabeça erguida! Juntos!E que sou mais forte do que imagino! Vocês também são! Todas nós! Por hoje é só!

Quer conhecer mais sobre a vida do Gabi?

https://www.facebook.com/especialeogabi/

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3 comentários Adicione o seu

  1. vivizzzss disse:

    Texto lindo e intenso…

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  2. Fernanda disse:

    Linda história… obrigada por compartilhar ela… chorei do início ao fim… vc é uma guerreira de

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  3. sofiaccadori disse:

    Maes de uti e seus relatos de superacao.Amooooo. Somos, nós maes e nossos filhos, mais que vencedores!

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