E eu mudei. Mas ele não.

em

Camila, 29 anos, 2 filhas, universitária.

Sempre vejo os desabafos na página e sinto muita vontade de falar. Mas nunca tomei coragem. Acho que hoje é um daqueles dias mais difíceis em que falta alguém para falar.
Minha história é chata, mas é difícil pra mim.
Sofri abuso sexual aos 6 anos (a primeira vez que eu me lembre) do meu padrasto. Minha mãe sempre soube, mas não conseguiu se separar dele – está com ele até hoje. Minha infância foi difícil e quase não me lembro de momentos felizes, assim como minha adolescência. Aos 15 anos, decidi que não aguentava mais e tomei veneno. Passei 3 dias na UTI. Sobrevivi.
Aos 17, com o dinheiro do meu primeiro emprego, sai de casa e fui morar sozinha, decisão que foi tomada quando peguei o marido da minha mãe me vendo trocar de roupa e a confrontei pra que mandasse ele embora, ou eu iria. Obviamente, ele ficou.
Fui morar sozinha e entrei numa onda de auto destruição. Me envolvi com drogas, amigos errados, abandonei os estudos, eu era uma bagunça que não entendia meu lugar no mundo.
Conheci meu marido nessa época. Ele era usuário de drogas e eu entrei na onda dele. Aos 22, engravidei. Aí tudo mudou pra mim. A vida tomou sentido e eu resolvi que seria uma pessoa melhor, que nunca seria a mãe que eu tive. E eu mudei. Mas ele não.
Sofri muito durante a gestação porque a família dele não sabia da doença dele (viciado em cocaína) e não entendiam meu mau-humor com o filho amado e perfeito deles.
Sem contar a falta que a minha própria mãe fazia. Ela falava comigo, mas não era presente e uma parte de mim sempre quis isso.
Quando a bebê nasceu, minha mãe vinha me visitar, mas trazia o marido dela junto. Como ela me criou me silenciando e acoada, eu nunca consegui brigar com ela. Mas quando vi o marido dela, aquele monstro nojento com a minha filha, surtei. Disse tudo que estava engasgado. Ela? Se afastou de mim.
Nessa, meu marido foi ficando cada vez pior e decidi contar aos pais dele para que eles ajudassem o filho com o vício. Contei. Passava noites em blogs de co-dependentes com esposas de usuários enquanto ele estava na rua e voltava de madrugada. Com muita luta, consegui que internassem ele. Mas não resolveu. Ele saiu da clínica e voltou ao uso. Engravidei de novo na troca de remédio, quase entrei em depressão pela gravidez. A situação estava um caos, uma filha de 3 anos, a família dele lavou as mãos sobre a doença, eu estava sem ninguém. Ninguém entendia meu desespero pela gravidez: “filho é benção”, eles diziam.
Hoje eu aprendi a engolir tudo isso. A doença dele está aqui o tempo todo e ele não quer ajuda. Ele se droga todos os dias. E eu choro todos os dias. Olho pras minhas meninas tão inocentes e queria tanto consertar tudo. Ele não é uma pessoa ruim, mas é distante e indiferente. Não me toca, não olha pra mim. Não fazemos sexo há mais de 6 meses. E isso me deixa muito mal – tenho problema com sexo pelos abusos, é delicado pra mim. Às vezes, tenho certeza que ele tem outra.
Eu voltei a estudar, hoje faço faculdade. Tento ter força pelas minhas filhas e por mim também, mas tem dias que isso tudo – meu passado, minha mãe, a doença do meu marido, a incerteza do futuro – me consome. Os pais dele não se envolvem com o problema do filho, dizem que querem ajudar, mas não têm coragem de brigar com ele, dizem que não adianta. Convivem com ele diariamente, mas só vêem as qualidades dele.
Acho que não sou merecedora de felicidade. Nem minha mãe me quis.
Se não fossem minhas filhas, eu não queria mais viver. Sinto que ninguém gosta de mim. Quase não tenho amigos… Eu luto muito pra fazer minhas filhas felizes e não deixar que elas vejam o que acontece com o pai delas, eu as amo mais que tudo. Mas é difícil carregar tudo sozinha. A rotina dele é uma só: trabalhar, usar droga, trabalhar, usar droga. Eu faço tudo sozinha em casa e com as crianças. Elas dormem comigo e ele na sala, já que passa a noite em claro. Não dormimos juntos há 2 anos.
Desculpa o desabafo, acho que nem dá pra entender direito. Mas valeu poder pôr pra fora, obrigada.

Anúncios

1 comentário Adicione o seu

  1. Naiara disse:

    Amiga
    Vc com certeza é mais forte q pensas, e embora possa parecer q nunca irá passar esse tormento, tenha certeza q irá passar sim!
    Vc tem filhas lindas q te amam, e isso é um amor tão puro, foca nelas toda vez q pensar em deixar a peteca cair!
    Vc nunca se arrependera de lutar e viver por elas!
    A dor deve ser sentida, sinta tudo de uma vez se possível, e dpois levante se e siga de mente aberta, permita q pessoas se aproximem de vc.
    Vc é linda por dentro e por fora! Parabéns por ter mudado por suas filhas! És um exemplo a ser seguido! Podes ajudar outras mulheres inclusive a tomar a decisão q tomaste ao descobrir a gestação!
    Procure um centro de apoio psicológico, tem gratuito pelo sus, para ajudar com as questões do abuso! Vc consegue!
    Acredite em vc! Tenha orgulho de vc!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s