Uso de álcool e outras drogas por mulheres

Trecho de capítulo do material didático do SUPERA (Sistema para detecção do Uso abusivo e dependência de substâncias Psicoativas: Encaminhamento, intervenção breve, Reinserção social e Acompanhamento).

BRASIL. O uso de substâncias psicoativas no Brasil: módulo 1. 11ª Edição. Brasília: Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas, 2017, pp. 77-81.

O uso, abuso e dependência de álcool e outras drogas são mais frequentes em homens, mas essa diferença vem diminuindo ao longo dos anos. Por exemplo, a dependência de álcool no Brasil é de 19,5% entre os homens e 6,9% entre as mulheres, indo para 7,3% e 6,0%, respectivamente, entre 12 e 17 anos.

Uma característica importante é que o processo entre o início do uso, primeiros sintomas de dependência e busca por tratamento é mais rápido entre as mulheres, não só para álcool, mas para outras drogas também. Os aspectos relacionados ao uso de álcool em mulheres são muito diferentes dos relacionados ao uso de outras drogas e, por isso, serão abordados separadamente.

Álcool

A relação com o uso de álcool é diferente entre os gêneros e algumas características biológicas, psicológicas e psicossociais contribuem para tal. O corpo feminino tem menor quantidade de água que o masculino (51% X 65%, respectivamente) o que determina que, com a mesma quantidade de álcool, a concentração será maior no organismo feminino.

Outra particularidade feminina é a menor quantidade de álcool desidrogenase (ADH), a enzima responsável pela primeira etapa de metabolização do álcool no organismo, o que faz com que a mulher atinja maiores concentrações de álcool no sangue e demore mais tempo para metabolizá-lo do que o homem, bebendo quantidades equivalentes. As alterações hormonais também são importantes nas mulheres, pois o período pré-menstrual está associado a um aumento do consumo de álcool. Aquelas que apresentam tensão pré- menstrual (TPM) têm maior probabilidade de desenvolver abuso ou dependência de álcool do que as que não apresentam esse problema, provavelmente em busca de alívio para a tensão. Além disso, alguns outros fatores de risco para o desenvolvimento de problemas relacionados ao uso de álcool, por mulheres, são bem conhecidos:

  • História familiar de problemas com álcool;
  • Idade: mulheres mais jovens são usuárias de álcool com maior frequência do que as mais idosas;
  • Estado civil: solteira, separada ou divorciada;
  • Trabalhar em ambiente com predominância de homens;
  • Ter um parceiro (namorado/marido) com problemas relacionados ao uso de álcool;
  • Ter sofrido abuso físico, emocional ou sexual na infância ou ter sido vítima de violência nos relacionamentos amorosos na idade adulta;
  • Uso precoce de álcool, nicotina e outras drogas;
  • Problemas de comportamento na infância relacionados ao controle de impulsos;
  • Fatos estressantes durante a infância e adolescência, como morte de um dos pais, privação econômica e doença na família, também aumentam a chance de problemas decorrentes do uso abusivo de álcool.

Problemas psiquiátricos: os transtornos psiquiátricos mais associados ao alcoolismo em mulheres são: depressão, transtornos de ansiedade, transtornos alimentares (principalmente bulimia do tipo purgativo) e transtorno de estresse pós-traumático. O tratamento adequado dessas patologias é fundamental para a superação dos problemas com álcool.

A evolução dos problemas relacionados ao uso de álcool também ocorre de maneira um pouco diferente entre as mulheres.

Em geral, as mulheres dependentes de álcool:

  • Iniciam o consumo e têm problemas com o álcool em idade mais tardia;
  • Consomem quantidades significativamente menores de álcool do que os homens;
  • Têm mais comorbidades psiquiátricas;
  • Mais frequentemente identificam um evento estressante como o desencadeador do início do consumo excessivo de álcool;
  • Apresentam mais tentativas de suicídio;
  • Procuram tratamento, em função de problemas de saúde ou familiares, e mais comumente abusam de outras substâncias lícitas (tranquilizantes, anfetaminas).

Outras drogas

Embora o uso de drogas por mulheres tenha sido bastante estudado nas duas últimas décadas, ainda há carência de dados.

Os fatores de risco para problemas com drogas entre elas são parecidos com os já citados para álcool, mas apresentam certas particularidades.

Quando comparadas às dependentes de álcool, as mulheres com dependência de outras drogas que procuram tratamento:

  • São significativamente mais jovens;
  • Procuram tratamento por conta própria;
  • Têm menos relacionamentos estáveis;
  • Apresentam mais tentativas de suicídio e transtornos de personalidade.

Vale ressaltar também suas diferenças, em relação aos homens usuários ou dependentes de outras drogas, nos seguintes aspectos:

  • Fatores genéticos: os fatores genéticos para uso, abuso ou dependência de drogas são mais importantes para homens do que para mulheres, enquanto que os ambientais têm maior influência sobre elas. Nas mulheres, o início do uso de maconha e cocaína está mais relacionado a fatores ambientais, mas a evolução para abuso ou dependência está mais condicionada a fatores genéticos;
  • Fatores psicológicos: em relação aos homens, as comorbidades psiquiátricas são mais comuns em mulheres com problemas com drogas, principalmente depressão e ansiedade;
  • Fatores biológicos: o ciclo hormonal interfere no efeito das drogas nas mulheres. Na fase folicular (início do ciclo menstrual até a ovulação) os efeitos reforçadores da cocaína são mais intensos. As tentativas de parar de fumar são mais eficazes na primeira fase do ciclo menstrual do que na segunda. O uso de maconha é aumentado nas mulheres que têm mais sintomas de tensão pré-menstrual;
  • Fatores socioculturais: as questões socioculturais influenciam o consumo de drogas em mulheres em diversos aspectos. A pressão social para manter um corpo perfeito é muito grande entre as mulheres, e observa-se um elevado consumo de drogas associadas a controle de peso, como anfetaminas, nicotina, cocaína e outros estimulantes. Outra questão importante é que os médicos prescrevem medicamentos com potencial aditivo, como tranquilizantes, mais frequentemente para mulheres do que para homens. Finalmente, o consumo de drogas pelas mulheres, principalmente as ilícitas, é altamente influenciado por parceiros sexuais.

Drogas e gestação

O uso de bebidas alcoólicas e outras drogas na gestação pode causar uma série de prejuízos para a mãe e o bebê. O uso dessa substância por mulheres grávidas pode acarretar ao feto a Síndrome Fetal pelo Álcool (SAF), que se caracteriza pela presença de defeitos congênitos ocasionados pelo consumo materno de álcool durante a gravidez. Ela é considerada a causa mais comum de retardo mental infantil de natureza não hereditária.

O uso do tabaco durante o período gestacional também foi associado a uma série de complicações, como parto prematuro, restrição de crescimento intrauterino, deslocamento de placenta, abortamentos espontâneos e placenta prévia. Em relação ao desenvolvimento do bebê, o tabaco pode causar baixo peso no nascimento, redução da circunferência craniana, síndrome da morte súbita infantil, asma, infecções respiratórias, redução de QI (Quociente de Inteligência) e distúrbios do comportamento.

A cocaína, o crack e seus derivados também podem ocasionar problemas no processo gestacional e ao desenvolvimento do feto. Foi verificada uma série de anomalias congênitas, como hidrocefalia, problemas cardíacos, fissura palatina e alterações no aparelho digestivo e urinário em bebês de mães usuárias de cocaína, crack e seus derivados durante a gestação. Isso mostra que a cocaína tem uma ação tóxica direta sobre o desenvolvimento fetal.

É necessário investigar o uso de álcool, tabaco e drogas em todas as pacientes gestantes durante o acompanhamento pré-natal. A gestação é uma oportunidade ímpar de tratamento do uso de substâncias em mulheres, pois a ideia de proteger o bebê pode ser um importante fator de motivação.

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