Foi uma longa história de abuso e violência doméstica

em

 Virginia, 1 filho, assistente administrativo

Idade: 34

Desabafo Anônimo: Eu tinha por volta dos 6 ou 7 anos, não tinha noção do que sentia. Tinha perdido meu pai aos 3 ou 4 anos de câncer, não me recordo ao certo do tempo com exatidão. Então eu disse à minha mãe : todas as crianças têm um segundo pai e eu não! Se eu entendesse o que aquelas palavras me trariam…

Ele entrou nas nossas vidas como um herói, com seu uniforme de marinheiro, parecia perfeito. Mas foi uma longa história de abuso e violência doméstica que só se encerrou quando eu tinha por volta de 12 anos. E durante uma briga dele bêbado com minha mãe, terminou em eu correndo pedindo ajuda aos vizinhos pra levar minha mãe pro hospital com o olho sangrando. Depois daquele episódio ela não voltou mesmo mais pra ele. Infelizmente recorreu a outro abusador (mas essa é outra história).

Sobre esse homem, o cara que eu pensei que era o substituto do meu pai, antes dele finalmente sair de nossas vidas…antes disso…ah, eu conheci o que é temer alguém! Lembro de inúmeros episódios horríveis. Minha mãe costumava sair pra ir na casa da minha avó em busca de ajuda financeira, ou mesmo saía pra vender suas revistas e produtos e ele se sentia o próprio rei da casa. Lembro de brincar com minhas irmãs de cavalinho: eu entrava debaixo da rede e fingia que era um cavalo e ele uma vez abusou disso e montou sobre mim. Me obrigou, em outra ocasião, a tomar banho de porta aberta, reclamando pra minha mãe que eu só podia estar fazendo coisa errada pra ficar de porta trancada no banheiro. Me obrigou a comer verduras (cortou cebola em pedaços grandes, pimentão sei lá mais o que) e sem minha mãe em casa me obrigou a comer tudo (depois eu vomitei ).

Um dia, muito nervosa, pois minha mãe saia demais e me deixava sozinha com as meninas e ele, eu decidi fazer uma carta e contar tudo pra minha mãe. Infelizmente ela encontrou a carta num dia de bebedeira e briga deles e eu levei uma surra dela pra desmentir tudo que escrevi. Mas tudo que parecia ruim podia piorar e piorou. Em uma ocasião de necessidade, fomos morar vizinhos da casa dos pais dele. O pai dele tinha hábito de ir pescar num riacho perto e nós crianças achávamos o máximo irmos pra esse riacho. Fui eu e uma outra neta(neta de sangue dele, pois eu não era) nessa pescaria. Ele então quis me ensinar a nadar e enquanto me segurava ali na água do riacho, enfiou o dedo dentro do meu shorts e enfiou na minha vagina. Não profundamente, mas o suficiente pra me assustar e me desvencilhar dos seus braços. Sem falar em outro episódio grotesco onde fomos colher milho e ele pegou minha mão e pôs sobre o seu pênis…mas ele não era meu problema principal, era o filho dele…o marido da minha mãe, quem eu tanto sonhei que substituiria meu pai.

Uma certa noite, minha mãe não dormiu em casa. Foi ao centro, foi assaltada e ficou tão transtornada que teve que passar a noite na casa de uma conhecida pois não conseguia vir pra casa. Naquele tempo era tudo muito difícil, e sem dinheiro era bem pior… então tivemos que passar a noite com ele. Quando recebemos a notícia, ele já estava bebendo, mas era comum. Certa hora da noite, eu já dormindo na minha caminha…sinto aquela presença ao meu lado e acordo atordoada. Então vejo ele deitado apenas de cueca ali do meu lado, na minha cama. Eu tinha apenas entre 10 e 12 anos… não consigo dizer minha idade exata, pois quando me recordo parece até mesmo que foi ontem. Eu pulei da cama desesperada, fui ver minhas irmãs, vi que estavam bem e então pensei em fugir mas não achei a chave da porta. Resolvi abrir a janela, pulei a janela e fui pra rua. Era madrugada, morávamos no interior, mal tinha luz na rua, poucos postes a pouco tinham chegado na cidade a rede elétrica. Fiquei ali no frio pensando que não podia ir e deixar minhas irmãs. Voltei e sentei no sofá esperando o dia amanhecer. Minha mãe chegou, eu contei a ela, mas ela estava tão transtornada que só conseguia ouvir aquele meu relato como intriga e me deixou de castigo.

Depois do episódio que ele feriu o olho da minha mãe e que ela finalmente se separou dele…pensei que ali tinha encerrado aquele calvário, mas não. Ele foi trocado por outro… Mas quem sofreu mais nesse novo relacionamento não fui eu, foram minhas irmãs que deixei pra trás pois eu já era adolescente e fui morar na casa de parentes. Durante anos tive dificuldade pra perdoar minha mãe, sempre a culpei por eu ter sofrido tudo aquilo mas hoje eu entendo que assim como ela era uma vítima. Quando meu filho nasceu, tive medo de deixa-lo sozinho com meu marido, imaginava que ele abusaria do nosso filho. Demorou muito tempo até eu sentir confiança de novo. Hoje penso como existem tantas crianças por aí e mães que precisam de assistência psicológica devido a abusos como esses que eu vivi.

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