Fiz o que não queria

C., estudante

Idade: 30

Desabafo Anônimo: Relato – violência velada

Quero compartilhar com vocês o que, aparentemente, não foi uma violência ou o que deixaria algumas mulheres vaidosas (será real?), mas a mim me causou muito constrangimento, intimidação e raiva.

Eu estava fazendo uma trilha com um grupo de pessoas na cidade onde eu moro. Éramos aproximadamente 20 pessoas. Logo no início da trilha, um senhor me puxou pelo braço e falou: “senta ali naquele tronco para eu tirar umas fotos”. E então me conduziu até um tronco quebrado, falando como eu deveria sentar e sorrir. Eu não queria tirar nenhuma foto, e sim queria fazer a trilha sossegada. Mas não consegui dizer não, eu simplesmente obedecia. Tirei as fotos e seguimos caminhando com o grupo.

Após algumas horas de caminhada, nós chegamos a uma cachoeira pequena, daquelas em que é possível entrarmos embaixo para massagearmos as costas. E lá fui eu, feliz, tomar banho de cachoeira. E então lá vem novamente o mesmo senhor tirar fotos. E me mandava fazer poses, sorrir, mexer com a cabeça, colocar os pés ou as pernas em tal posição. Eu acredito que meu rosto não era dos mais simpáticos, mas para que adiantou fazer cara feia se eu não conseguia negar? Eu não conseguia dizer não! Algumas outras mulheres estavam muito orgulhosas e vaidosas por serem “modelo” daquele senhor, mas eu me sentia objetificada. Eu não conseguia fazer o que eu queria, não conseguia tomar banho de cachoeira com liberdade, e pior ainda, não conseguia me defender. Não conseguia me defender, não conseguia dizer não, fiquei com medo de criar desconforto no grupo, de ser responsável por uma briga durante o passeio.

Como resultado, deixei de fazer o que eu queria e fiz o que não queria. Senti-me um objeto, onde um homem pode usar a beleza de uma mulher como ele quer. Senti-me violentada, com fotos de meu rosto e meu corpo tiradas por alguém contra a minha vontade. Senti-me incapaz de me defender, sem voz, ensinada a “ser comportada” e a obedecer. Senti-me injustiçada por ter medo de causar constrangimento ao grupo. Senti-me paralisada, sabendo que aquelas fotos era uma violência, mas sem saber como dizer não a elas.

Ainda estou em processo de desconstrução de vários conceitos e comportamentos que me foram ensinados. Mas depois da desconstrução, ainda tenho que aprender a construir a mim mesma. Nós mulheres precisamos construir a nós mesmas. Precisamos tornar real nossos valores, nosso empoderamento e nossa força. Mesmo que essa construção de nós mesmas seja um tijolinho de cada vez.

Um abraço a todas.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s