Eu só preciso estar ali

Uma senhora se aproxima de mim e conta que será avó mais uma vez. Ela perdera seu único neto há três meses, em um bárbaro acidente de carro. Seu luto permanece, mas agora a notícia de outro neto chegara assim, de improviso, a nova gestação da nora, também com três meses. Ela me conta. Está feliz e confusa. Eu a abraço. Eu só preciso estar ali para ouvir e abraçar.

Uma moça decide que é hora de tentar mais uma vez. Ela passara por uma perda gestacional de gêmeos, depois de mais de um ano de tentativas e muitos percalços no casamento. Seus medos permanecem, mas a decisão de buscar mais uma vez o sonho fora tomada. Ela me conta. Ela está ansiosa. Eu a abraço. Eu só preciso estar ali para ouvir e abraçar.

Uma mulher divide as angústias de modificar a medicação mais uma vez. Ela adoecera, psicose puerperal, ninguém conhece muito bem a doença (nem ela própria). A vida como mãe, esposa, familiar e profissional segue à muita custa. Sua vontade de seguir o tratamento são tão grandes quanto os desgastes que a doença lhe trouxera. Ela me conta. Ela está atribulada ainda. Eu a abraço. Eu só preciso estar ali para ouvir e abraçar.

Até um ano atrás, eu ouviria esses mesmos problemas. E ficaria triste. Coitada. E falaria, tentaria consolar, diria que Deus tem o momento certo de tudo, que basta essa mulher confiar e tudo recomeça, tudo melhora (“viu? já está melhorando”). Olharia com pesar, com ternura e seguiria minha vida adiante.

Agora não. Eu ouço. Permaneço muda. Deixo que elas falem o quanto bastar. Minha prioridade de vida é um monte de coisas, inclusive ter tempo de ouvir uma mulher em sofrimento. Abraço profundamente cada uma delas. Em princípio, nenhuma palavra minha é tão boa quanto o carinho que consigo transmitir com meu calor humano. Em todos os casos, uma lágrima escorre, seja na frente delas ou não.

E por que eu conto isso? O que eu aprendi nesse ano de Temos que Falar sobre Isso? O que os dois anos de ONG tem a ver com isso? Aprendi:

Eu não tenho que dizer nada. Eu não preciso criar justificativas naturais e sobrenaturais para nada. Eu não tenho que emitir opinião nenhuma, a menos que me peçam. Eu não tenho que dizer “eu imagino como deve estar sendo”, quando na verdade, eu não sei mesmo. Eu preciso é estar ali. De braços abertos. De computador ligado. Ouvindo relatos. Lendo desabafos. Eu preciso exercitar minha empatia com ações, e não só um pesar. Ela é mulher, mãe, avó, filha, profissional. Não interessa. Eu preciso estar ali.

Nossas experiências de vida são diferentes. Muito diferentes. Isso não me torna maior ou menor, mais bonita ou mais feia, mais felizarda ou não. Minhas particularidades afetivas, de saúde, familiares ou profissionais não me elevam ou me rebaixam em nada. Cada uma sabe a dor que carrega. Eu devo apenas receber as diferenças, assim como eu quero que as minhas sejam recebidas.

E porque eu sei que a minha vida é muito diferente de cada uma delas, e porque eu me dispus a estar ali, não cabe a mim diminuir a dor de amor de uma adolescente, diminuir uma perda gestacional de uma mulher pobre, ou diminuir a doença de alguém. Eu não sei nada, absolutamente nada da dor dessa mulher, até que ela mesma seja capaz de vir a mim e contar. Ainda sim, sinto que eu realmente não posso exterminar o mar de sofrimento que habita muitas de nós. Mas posso ajudar a amenizar. Eu só preciso estar ali.

E como eu nem tenho a perspectiva real da dor que cada uma carrega, eu não sei nada de outras vidas (além da minha própria), eu também não sou capaz de avaliar quanto tempo cada uma levará para pacificar seu entendimento. Eu não sei fórmula de nada. Por mais profissional que eu seja, por mais “clareza feminista” que eu imagine que tenha, cada uma tem seu tempo de construção e reconstrução. Eu preciso conhecer os canais de ajuda que existem. Mas eu realmente não sei quanto tempo isso levará. Eu só preciso estar ali.

E depois de tudo isso, eu vejo o quanto nosso mundo é solitário… mas também como estamos lutando para mudar isso sim! Como muitas de nós consegue desabafar virtualmente e sentir alívio sim! Como outras pessoas são capazes de sentir empatia na dor alheia sim! Como mesmo sem poder tocar a outra, eu sou capaz de ser empática sim! Como, muitas vezes, conselhos inusitados aparecem e as mulheres encontram apoio sim!

Nisso, eu vejo que a TQFSI tem que estar ali. Eu tenho que estar ali. Calada. Apenas estar ali, ouvindo, acolhendo. Eu só preciso estar ali.

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