Fui educada em família machista

em

Nina, advogada, 43 anos, 3 filhos

 

Fui educada em família machista onde as opiniões femininas (mãe, avó, tias, primas) quando eram ouvidas eram descartadas ou ridicularizadas. Cresci achando que de fato as mulheres a minha volta eram ridículas, submissas, burras e exageradas. E que eu jamais seria como elas. Até eu perceber que também fui tratada como elas e me tornei uma delas.
Sequer minha profissão pude escolher, foi determinado que eu não sabia mesmo fazer escolhas, fui encorajada a acreditar que todas as decisões que tomei sozinha me prejudicaram, me fizeram crer que eu realmente era tão burra, tão irresponsável que eu não tinha a menor capacidade de escolher nada que fosse muito relevante e, mais do que isso, que não fazendo a faculdade que meu pai queria que eu fizesse eu iria magoa-lo de uma forma tão profunda que eu só poderia ser uma ingrata logo com aquele que sempre fez tudo por mim.
E mais uma vez eu abaixei a cabeça e concordei.
Fiz mais uma vez o que me mandaram fazer. Detesto com todas as letras minha profissão, detesto desde o primeiro ano de faculdade, detesto desde o primeiro dia de trabalho. Depois de formada, quando pensei em fazer outra faculdade me disseram que eu era louca, tinha filhos para sustentar, já estava com mais de 30 anos, separada do pai dos meus filhos e dependendo financeiramente do meu pai… me perguntaram se por acaso eu ia pagar a faculdade porque ele não pagaria e também não me ajudaria financeiramente com mais nada, caso eu desistisse de ser advogada.
Sempre quis trabalhar com crianças, meu sonho era pedagogia ou psicologia. Me fizeram acreditar que era um sonho idiota, que eu morreria de fome, que ser advogada era o certo, era o que me traria independência financeira.
Fiz direito e sou dependente financeiramente do meu pai até hoje, mas dizem que a culpa é minha porque nunca me dediquei, nunca estudei, que nunca me esforcei para ser boa advogada, por isso sou um fracasso.
Vivo em depressão desde o dia que “acordei” e que percebi que todas as decisões que tomei em minha vida foram para agradar e obedecer a uma pessoa (meu pai), minha profissão, minha separação, quantos filhos eu deveria ter, onde eu deveria morar, o que fazer com o meu dinheiro, tudo, absolutamente em tudo fui manipulada para fazer o que ele queria. Hoje todos os meus fracassos são porque eu fui preguiçosa e burra e qualquer mínimo sucesso que eu tenha é porque ele me orientou. O s fracassos são sempre só meus, as vitórias são sempre só dele.
Não sei como sair disso. Não sei se tenho coragem de enfrentá-lo a esta altura da minha vida. Deixei a vida passar e hoje me acho velha para recomeçar. Como recomeçar se dependo dele e já tenho 43 anos? Fazer outra faculdade? Quem consegue emprego com quase 50 anos recém formada? Como vou sustentar meus filhos sendo que a pensão que recebo não dá pra quase nada?
Penso que agora é tarde, agora tenho que continuar vivendo desta forma, não tenho mais opção. E assim, eu só deixo a vida passar, um dia após o outro!

 

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1 comentário Adicione o seu

  1. Nina, bom dia querida!

    Sinta-se acolhida e ouvida! Obrigada pela coragem de ter compartilhado sua história!

    Percebo como você se sente oprimida e como isso está te impedindo de viver uma vida plena.

    Também sou advogada e posso imaginar como é duro não gostar do que faz. Eu estou formada há 5 anos e ainda não consegui começar a trabalhar na área.

    Sabe o que mais eu vejo na sua história? Que você fez isso tudo por amor, não é verdade?
    Por amor ao seu pai você viveu pra atingir as expectativas dele.

    Fico feliz em te ouvir falar em acordar. Parece que você percebeu que é impossível ser feliz quando deixa de ouvir sua própria voz.

    Entendo que nesse primeiro momento seja difícil lidar com as emoções que acompanham essa descoberta, mas acredito que tudo isso vai passar com o tempo.

    Se você me permitir, gostaria de te dar um conselho.

    Ache sua força interior e procure se lembrar de todas as coisas que você já fez na vida e que te deram prazer! Se você gosta de crianças, pode pensar em como trabalhar com isso. Não precisa, necessariamente, fazer outra faculdade! Você pode montar um negócio virtual aprendendo tudo pela Internet, ou pode procurar um escritório de advocacia que trate desse assunto pra ficar provisoriamente até juntar o dinheiro..

    Falando em crianças, faça um exercício bem importante de se visualizar como criança e se dar um abraço!

    Você com certeza é muito mais do que apenas uma projeção do que seu pai queria que você fosse!

    Lembre-se de quem você é, agradeça ao seu pai por tudo que ele te deu, e dê um basta. Fale alto pra você mesma: obrigada pai, por tudo que me deu. A partir de agora esse é o meu limite. Vou seguir sendo eu mesma e fazendo aquilo que eu acredito que seja melhor pra mim!

    Um abraço enorme pra você!

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