Só queria poder voltar no tempo

I, 1 filha, bancária, 30 anos.

Desabafo Anônimo: Meu pai se matou.
Simples assim… Acordei como num dia comum, fui trabalhar, sempre na correria normal de quem tem um bebê de 1 ano, com a sensação de estar sendo engolida pela rotina e tarefas. Uma ligação, pessoa estranha falando estranho, pensei: será que clonaram meu cartão? Antes fosse, antes fossem 100 cartões. “Seu pai não está mais entre nós, seu pai faleceu”. Ele não se cuidava, não fiquei surpresa, sempre puxava a orelha dele dizendo que uma hora ia ter um ataque cardíaco, ou sei lá o quê… Naquele momento, com a psicóloga da empresa dele, esperava ouvir tudo, mas nunca o que ouvi: “Seu pai se jogou do prédio. Décimo andar.”
Como assim? Meu pai ama a vida, algo aconteceu no trabalho? Me falaram que não, trabalho normal.
Tive que encontrar forças para pegar um avião e ir ao seu funeral, ver um corpo reconstituído e maquiado, não consigo nem expressar o tamanho da minha dor.
Como assim? Quando nos víamos, ele estava sempre sorrindo, bem… Amava a minha filhinha, deixou uma mãe de 90 anos. Não fazia e ainda não faz sentido.
Ele vivia uma vida dupla, o interior dele estava tomado por tristeza e autopunição, o exterior era de alguém bem sucedido, que amava as coisas simples da vida, como trilha sonora de filmes, andar de metrô num lugar desconhecido.
Nem em meus piores sonhos diria imaginar a possibilidade do meu pai se matar. Acabei tendo que limpar as suas coisas, um quarto que não deixava ninguém entrar, empoeirado e triste, como o seu interior.
Queria tanto ter podido ajudar. Meu pai era um doente terminal e não sabia. Depois vi que ele deu alguns sinais para algumas pessoas, mas, muito comum nos dias de hoje, ninguém levou a sério, ninguém comunicou, estava achando que estava tudo bem. Em dezembro nos vimos pela última vez, puxei assunto: 2016 foi um ano difícil, meu pai concordou e disse que foi um dos piores da vida dele. Sabe quando não vem na cabeça questionar o porquê? Continuamos a conversa com amenidades.
Um mês depois, não tenho mais pai, estou órfã do meu companheiro de viagens, mentor no trabalho, morreu de uma forma brutal.
A religião não traz conforto nesses casos, mas penso que Deus é benevolente, deve estar cuidando dele. Falo isso não muito convencida, pois depois disso não tenho mais certeza de nada.
Morro de medo de perder a minha mãe, minha filha. A vida é tão volúvel.
Demorei 2 meses para conseguir voltar a trabalhar. As pessoas até se compadecem, mas acham que eu tenho que estar sempre sorrindo, superar, pela minha filha, dizem. Tenho vontade de gritar: só faz dois meses que meu chão se abriu e cai num buraco, esse que nunca imaginei que pudesse existir.
As pessoas não conseguem imaginar como dói e nem querem. Ninguém quer ouvir coisas desagradáveis, não é?
Ainda bem que tenho minha bebê, que me preenche, me alegra, me completa…
Mas até quando todos vão medir a dor do outro com a sua própria régua? Ainda lembro a notícia no jornal: corpo de homem que caiu de prédio causa tumulto de pedestres curiosos. Desculpem pelo tumulto, gente, mas era meu pai, uma vida, alguém com sonhos, histórias, mas em tamanho desespero que foi capaz de se jogar de um prédio, mas não sem antes calcular o impulso para cair no estacionamento onde não tinha ninguém passando.
Sigo vivendo e tendo que pedir desculpa pela ausência que tive no trabalho, pela minha resposta atravessada, por não sorrir.
Só queria poder voltar no tempo e me demorar mais no abraço, falar que o amava, que fazia questão de sua presença em minha vida, que o ajudaria em qualquer situação.
Não julguem, depois dessa percebi que ninguém está imune a passar por isso, a vida é cheia de surpresas, algumas vezes indesejáveis.
Fica bem, paizinho! Encontra a paz que você estava precisando.

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