A difícil arte de maternar

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Se olharmos no dicionário (pode ser até o conceituado e outrora famoso Aurélio) vamos descobrir que a palavra maternar não existe. Amplamente utilizada nos dias de hoje em blogs, matérias, desabafos e qualquer assunto relacionado a maternidade, essa palavra, de sonoridade agradável, acaba sintetizando a complexa arte de exercer a função materna com todas as suas vírgulas, ponto e vírgula e pontos finais.
A maternidade não é algo que surge facilmente, a todo vapor e com total segurança. Nenhuma mulher sabe o que é esse mundo (e todas as suas nuances) até que torne-se, de fato, mãe. Não importa se ela gerou, adotou, se está cuidando de algum parente ou qualquer outra circunstância. A partir do momento que somos responsáveis ou co-responsáveis pela criação e educação de um ser vivo, estamos conjugando o inexistente “verbo” maternar. Ou, ao menos, deveríamos.

Costumo dizer para todas as minhas amigas gestantes de primeira viagem ou esperando o primeiro filho que, ainda que eu disserte para elas toda a beleza e dificuldade do primeiro mês de vida de um bebê, eu não conseguiria expor, nem de perto, o que será a realidade que irão viver. A descoberta de um amor incondicional e diferente de tudo que viveram ou sentiram, a insanidade e o cansaço impostos pelas noites em claro, pela privação de sono, fadiga mental e etc…

Não existe aquela maternidade romantizada e perfeita colocada de forma utópica pelas propagandas de TV, em alguns livros e fotos de revistas. Aquela mãe maquiada, sem olheiras e sorrindo com a aquele bebê miúdo em sono profundo costuma estar bem longe da vida real. E isso pode assustar muito. O choque pode ser grande. Longe de mim tirar o brilho da maternidade. Foi a melhor coisa que me aconteceu, mas não vou negar jamais que eu não tinha a menor ideia do que eu enfrentaria quando minha primeira filha nasceu. E olha que ela foi imensamente desejada por dois anos, após 4 perdas gestacionais.
Lembro como se fosse hoje, em uma das madrugadas de choro intenso por cólica ou refluxo oculto, com ela aos berros e eu, em pé sacudindo e cantando, virei para meu marido (também acordado e super parceiro) e perguntei: “como uma pessoa tem o segundo filho???”.

Hoje eu rio da situação, mas, na época, foi desesperador. O despreparo, o desconhecimento, a insegurança e a mudança radical na nossa rotina diária são algumas das questões que nos levam para longe da nossa zona de conforto. Sem mencionar as particularidades e unicidade de cada bebê. O que funciona pra um, nem sempre funciona para outro e, portanto conselhos, dicas e pitacos nem sempre são tão bem-vindos assim.
Nosso vida vira de ponta cabeça e somos obrigadas a deixar de ser o centro do nosso mundo para ceder essa posição para o ser mais especial que conhecemos até então. É bem exigente, diga-se de passagem.

Mais uma vez, eu não romantizo a maternidade e nem a arte de maternar. É punk, por vezes, insano, cansativo, exigindo muita doação, de tudo. Doação de tempo, corpo (desde a gravidez), espaço, de sono. Mas vale a pena. Passa. A gente se ajusta, a gente aprende, a gente dá conta. E sabe o mais bonito disso tudo e que essa parte sim, eu abrilhanto: é o amor que recebemos. Passamos a ser amadas e queridas de uma maneira tal nunca antes vivida. Nossos bebês nos buscam através de todos os sentidos: seja pelo cheiro, mais tarde, pela voz, pelo olhar, pelo toque. A meu ver, essa é aquela parte que faz tudo fazer sentido, tudo valer a pena.

A gente nunca mais tem aquele sono de 12 horas ininterruptas e despreocupadas, mas eu não trocaria um único dia com minhas filhas por algum dia da época em que elas não faziam parte da minha vida. Apesar de tudo, de não ser exatamente um arco íris, essa maternidade é bem colorida sim e somos nós quem definimos o tom que ela vai ter em nossas vidas. Não é fácil. Não mesmo, mas não tem preço.

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