Não seja esse ser humano

Atualizado em 16/04/2017.

Parafraseando e complementando as preciosas palavras de Débora Nisenbaum,  infelizmente, todas nós já conhecemos alguma mulher que esteve (ou ainda está) em um relacionamento abusivo. O nome da violência é razoavelmente novo, engloba um monte de ações violentas, mas o fato, em si, não é novo. Em minha experiência pessoal e profissional com mulheres nesse contexto, aprendi:

1. Essa mulher não é burra ou safada.

É fala comum dizer que a mulher que está em um relacionamento abusivo é burra, pois “não vê” que está sendo maltratada. Ou ainda que, tendo visto a condição da sua relação, é uma safada, pois não sai dele.

Acredite, amig@, ainda não conheci mulher que não sinta que seu relacionamento tem um “algo” diferente, mesmo que a mulher interprete esse “algo” apenas como cuidado, carinho ou proteção excessiva do outro. E para ser até mais direta, conheci mulheres que tinham alguma intuição de que seu relacionamento andava passando dos limites, ainda que sua mãe, avó, irmã, tia, vizinha tivesse passado pelo mesmo problema. Os exemplos de relacionamentos próximos mais saudáveis, ou mesmo os relacionamentos fantasiosos retratados nos contos de fada, em algum momento daquela trajetória de vida, saltavam aos olhos da mulher violada, ainda que nem sempre ela fosse capaz de elaborar o quão grave era o seu próprio relacionamento, ou mesmo que todos os transtornos sofridos em sua vida vinham justamente daquele relacionamento. Principalmente por força dos amigos e parentes ou por relatos que elas encontram, em algum momento, há o questionamento do porquê do seu relacionamento não ser exatamente aquilo que ela imaginou inicialmente.

Como socióloga, vemos que há uma teia enorme que envolve e mantém aparentemente mais mulheres que homens em relacionamentos abusivo. Para esse viés interpretativo, há diversos fatores históricos, sociais, econômicos, culturais (ou tudo junto) presentes. Ou seja, trazer toda essa elaboração que deve ser própria da mulher ao nível consciente, capaz de provocar uma reação, não é tarefa fácil ou rápida.

Mesmo assim, ainda não conheci mulheres assim que não estejam tentando criar estratégias para amenizar ou extinguir sua dor. As diretrizes são muitas: conversas com o agressor, exercícios infindáveis de paciência e de compreensão com o outro, apelos à religiosidade, imposição de dificuldades para acesso do outro ao álcool e às drogas,  e tantos outros métodos que são testados dia-a-dia, hora a hora, em um exercício ansioso para evitar contrariar o parceiro.

Sendo assim, não subestime a capacidade de avaliação de uma mulher sobre seu próprio sofrimento, apesar de muito poucas saberem diretamente que estão em um relacionamento abusivo.

2. Essa mulher não gosta de sofrer ou de apanhar ou de ser traída.

Não, conscientes e respeitosos de si mesmos, nem homens, nem mulheres gostam de sofrer, apanhar, serem enganados, serem humilhados, serem roubados ou qualquer outra coisa que cause aflição interna ou externa. E eles também não desejam que seus filhos, familiares ou amigos passem por qualquer constrangimento, o que muitas vezes, faz com que a mulher esconda sua situação de sofrimento.

Por mais “incrível” que possa ser, não conheci mulher que deseja passar por aflições afetivas. E ao passar, uma das reações possíveis é dizer a si mesma que não está sofrendo, apanhando ou sendo humilhada, dando a falsa impressão de que elas “gostam” de sofrer. E se o agressor for alguém do afeto da mulher (algo muito comum), ela não costuma gostar que ele também seja exposto, piorando a interpretação de que ela “gosta” de se atormentar. Pior é quando há filhos envolvidos: mulher em situação de abuso não quer isso para os filhos, então, ela costuma negar ou enfraquecer o que vive, piorando o machismo interpretativo de que “gosta” de padecer.

Ou seja, não é bom passar por constrangimentos.

3. Essa mulher pode estar sofrendo até muito mais do que você sabe ou imagina.

Mesmo oferecendo ajuda especializada e respeitosa, nem sempre a mulher diz todas as violências a que está sendo submetida. E o rol abusivo nunca deixa de nos estarrecer. Pode sempre aparecer mais alguma violência escamoteada de carinho, cuidado e proteção do outro. Exemplos são as violências de cunho sexual, sempre muito veladas. Elas não são apenas aquelas que estão mais visíveis ao campo do Direito quando se fala em estupro, por exemplo. Podem ser abusos de toda sorte, passando desde o menosprezo ao corpo da mulher ou o rebaixamento dessa mulher em atos sexuais que ela não aprova ou não deseja.

Imaginemos que essa mulher suspeita de algo errado na sua relação. Suponha ainda que falar sobre os “destemperos emocionais” do parceiro é muito duro para ela. Falar dos constrangimentos sociais e profissionais que ela está vivendo por conta desse relacionamento é horrível. Falar que ele é estúpido, grita, humilha, ameaça, mente, atemoriza, é terrível. Mas quantas mulheres dizem que o companheiro forçou a relação sexual? Ou que ele usou de métodos sexuais que ela não aprova ou não gosta? Ou que ele mina sistematicamente sua autoestima com palavras de menosprezo ou escárnio ao seu corpo e ao seu comportamento sexual? Poucas dizem, né? Mas muitas sofrem isso…

Isso sem mencionar a quantidade de mulheres que padecem nos mais diversos vícios que possuem ligação com a situação de sofrimento que vivem, como o abuso de medicamentos, bebidas ou drogas. Desfortunadamente, nem sempre isso é dito ou mensurado.

Então, nunca acredite que sofrer é bom ou que é “pouco” o que essa “safada” está passando.

4. Essa mulher busca ajuda que ela entende que precisa, não necessariamente a que você acredita ser necessária.

Aí você quer ajudar a mulher a sair desse relacionamento. Mas nem sempre a mulher deseja a solução que você está propondo. Então, você argumenta: amiga, você não pode ser “fraca” assim; no “seu” lugar, eu faria isso ou aquilo; ah, mas ele não ia fazer isso comigo nem morta, “só com você” mesmo; mas como assim “você não está vendo”?

Acredite: eu sei que você quer ajudar, mas não está ajudando.

Saiba que mulheres em situação de abuso costumam ter a autoestima comprometida. E não só ela: seus relacionamentos familiares possivelmente estão transtornados. Seu desempenho profissional costuma estar afetado. Sua vida social frequentemente está aturdida. Sua saúde física pode estar abalada. Sua capacidade de autoavaliação e busca por ajuda frequentemente está prejudicada.

Desse modo, comparar sua vida afetiva, mostrar seu modo brilhante de ser, falar da diferença entre o seu parceiro e o dela ou julgar o modo como ela procede não é a melhor coisa a se fazer. Contribuir para a renovação da autoestima, oferecer escuta sem pré-julgamentos, apoiar conduzindo (muitas vezes, pelas mãos mesmo), ter paciência, não deixá-la sozinha ou se fazer presente são soluções mais sábias, mais respeitosas e mais duráveis.

5. Essa mulher poderia ser você.

Nossa, mas você é uma mulher inteligente, bem sucedida, estudada, tem apoio total da família e dos amigos, aceita seu próprio corpo, é “ligada” em tudo e, muitas vezes, até se identifica como feminista. Como poderia sofrer assim?! Pois bem, amiga, é triste falar, mas você pode, sim, passar por um relacionamento abusivo. E relatos assim começam a aparecer em todos os lugares.

Não precisa ir muito longe. Lembre-se de quantas amigas, parentes, conhecidas que eram como você e passaram exatamente por um namorado ou marido que as humilhava sistematicamente. Ou ainda que as enganava publicamente, em desacordo com o pacto afetivo firmado pelo casal. Ou, então, aquele cara que insistia em gritar, bater na mesa, rebaixar a mulher e seu afeto, chutar as portas, enfiar o dedo na cara, dar umas puxadas no braço ou forçar o sexo constantemente. “Mas só de vez em quando”. Algumas, não? E lembra que muitos desses relacionamentos seguiam o padrão separa-retorna-separa, mostrando que elas estavam lutando incessantemente para serem felizes. Lembra?

Lembra que algumas delas diziam que tinham filhos. Outras diziam que não tinham para onde voltar. Certas mulheres acreditavam integralmente que o companheiro, no fundo, é uma pessoa boa, só fica assim quando bebe, quando fica chateado com alguma coisa. E ainda há aquelas que não possuem fonte de renda fixa. Tem também as que sentem vergonha de dizer ao mundo que foram abusadas. Vemos as que foram espoliadas financeiramente e afetivamente, e não acreditam que poderiam ter relacionamentos melhores. Lembra?

Pois é, amiga, não seja esse ser humano a não querer compreender a mulher em situação abusiva. Apenas não seja.

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