Quanto um ser humano precisa chorar e se desesperar para ser levado a sério?

Por Luzinete R.C. Carvalho – 22 Fevereiro 2017


Quanto um ser humano precisa chorar e se desesperar para ser levado a sério? Qual é a medida de choro e/ou desespero “suficientes” para que um ser humano possa ser ouvido sobre algo? Como se mede isso?

Quanto tempo devemos deixar uma mulher chorar e se desesperar por algo até resolvermos ouvi-la? Quanto tempo devemos ignorar o desespero de um homem antes de decidirmos dar-lhe atenção? Quanto tempo de choro e/ou desespero é necessário para que o choro e o desespero possam ser vistos como “verdadeiros”?

Quanto um ser humano precisa chorar e se desesperar para ser levado a sério? E se este ser humano, por um acaso, for um bebê ou uma criança?

Necessita-se urgentemente de respostas sinceras e objetivas para essas perguntas. Necessita-se para que, finalmente, possamos começar a mudar a maneira como lidamos com as crianças e suas demandas emocionais.

Necessita-se urgentemente, para que possamos aprender mais sobre a prática da empatia. Necessita-se urgentemente, para que sejamos capazes de cuidar melhor das nossas crianças, levando-as a sério, acolhendo seus choros que indicam necessidades físicas e emocionais.

Para que possamos ser capazes de oferecer segurança e acolhimento ao invés de medo e abandono.

Por que temos tanta dificuldade em acolher o choro das crianças? Por que precisamos minimizar o sofrimento das crianças? Quais são as limitações que nos impedem de acreditar na sinceridade das crianças?

Por que pensamos que as crianças são incapazes de compreender explicações e argumentações, mas acreditamos facilmente que desde o nascimento elas são portadoras do raciocínio lógico necessário para nos manipular e tiranizar? De onde vem esta nossa tendência para enxergar de forma tão negativa nossos próprios filhos?

Por que quando os pais se recusam a deixar seus filhos chorando são vistos como fracos e manipuláveis? Por que consideramos “normal” que uma criança chore em determinadas situações e por isso não precisa de acolhimento, devendo ser ignorada porque “logo” o choro vai parar? Quer dizer que porque uma hora ela para de chorar então por isso ela não deve ser levada a sério? Quanto tempo ela precisa chorar para ser levada a sério?

Quanto um ser humano precisa chorar, e de quais maneiras ele precisa demonstrar seu desespero para que possa ser levado a sério? E se este ser humano for uma criança?

Correríamos acolher um adulto que está a 5 minutos chorando alto? Parece muito tempo deixar um adulto chorando por 5 minutos antes de ir perguntar o que está acontecendo ou de que forma podemos agir para que ele se sinta melhor?

E se for uma criança? É viável deixa-la chorando por 5 minutos antes de perguntar-lhe como podemos ajuda-la a sentir melhor?

Se uma criança para de chorar depois de 15 minutos, e vai brincar ou interagir, quer dizer que tudo está bem e que o choro era “frescura” ou “falsidade”? E se o adulto para de chorar depois de 15 minutos, e vai trabalhar e fazer suas coisas, quer dizer que tudo está bem e que o choro era “frescura” ou “falsidade”?

Com qual rapidez atendemos a um adulto, que supostamente já tem conteúdos internos para lidar com as situações? Com qual rapidez atendemos a uma criança, que está vazia de conteúdos?

Não é justamente por isso que ela precisa ser acolhida durante a infância, para então chegar na vida adulta tendo memórias afetivas sólidas e positivas, que sirvam como base para superar problemas e adversidades? Acolhemos o adulto e abandonamos a criança, para que ela cresça e se torne um adulto que vai precisar do acolhimento que não teve na infância?

É isso mesmo? Vamos sempre remediar os sintomas? Qual a lógica disto?

Quanto um ser humano precisa chorar e se desesperar, e por quanto tempo, e quantas vezes, e quantos dias seguidos, para ser levado a sério? Quanto um ser humano precisa fazer antes de desistir?

O que precisam fazer para que despertem a nossa humanidade e nos tirem desta inércia emocional? Parece que nada está sendo o suficiente.

Precisamos mudar isso. Precisamos conseguir agir com empatia e ter a disposição de ajudar um outro ser humano a se sentir melhor. Se estamos incapazes de agir assim, então é porque estamos nós mesmos muito frágeis e fracos.

Uma ótima maneira de encontrar a própria redenção é começar a oferecer aquilo que nos faltou, sem medos ou receios. Não porque somos fracos e cedemos a “qualquer” choro, mas porque somos fortes pra caramba e sabemos acolher qualquer choro.

Nos fazem acreditar que acolher as crianças é sinônimo de fraqueza dos pais. Não.

Conseguir acolher, saber saciar as necessidades, estar presente, compreender e AMAR é coisa de gente muito forte.

Amar é coisa de gente muito forte.


Conheça o trabalho maravilhoso da Luzi na página Visão Clara

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