Tudo o que eu não queria foi o que tive

Sofia, 26 anos, uma filha, desempregada.

Desabafo Anônimo: Tive uma gravidez espetacular, sem enjoos, sem problemas e consegui trabalhar e me divertir até ao fim da gravidez. Fiz uma ótima preparação,tinha tudo planeado para ser um parto natural sem intervenção.
Tive a bebê uns dias antes do Natal.
O parto, nem sei o que digo. Não houve complicações, e dou graças a Deus por isso, mas não foi o que queria e estou frustrada por ninguém me ter respeitado nem perguntado o que eu queria realmente.
No domingo a bolsa estourou e fiquei logo triste porque não estava com contrações e sabia que tinha de ir pro hospital e ficar  à espera. Lá fui para o hospital. Quando cheguei dei entrada nas urgências e ofereceram-me uma cadeira de rodas mas não quis porque estava bem. Mandaram-me para o andar de obstetrícia. Ao chegar lá a enfermeira já brigou comigo porque vinha a pé e não podia, já ali fiquei para baixo. Quis falar mas fiquei com medo. Sabia que não podia responder porque podiam me fazer alguma coisa depois. Ela mandou-me fazer o cardiotocografia. Enquanto estava fazendo comecei a fazer Reiki para ver se me acalmava. Numa das posições, eu coloquei as mãos em cima da barriga mas não fiz muita pressão, a enfermeira percebeu e veio até mim e tirou as mãos de cima e as pôs embaixo. Fiquei sem reação. Eu só sentia as lágrimas me caírem da cara. Acabou o cardiotoco e ela mandou-me esperar pelas médicas. As médicas chamaram-me para examinar, fui examinada e mandaram a enfermeira me ajudar a trocar de roupa. Mas ela sempre “não pode ficar de pé”. Ela pediu a cadeira de rodas e o meu namorado trouxe. Ele quando chegou perguntou se estava bem, ela nem me deu oportunidade para responder, disse logo “não vê que ela está bem”, mas já toda sorridente. Mandaram-me deitar e lá fiquei à espera. Entrei no hospital de manhã, 11h. À noite, 20h, o meu namorado veio me ver, eu estava bem. Já tinha tido algumas contrações, mas uma coisa muito leve. Nessa hora, mandaram o meu namorado sair e veio uma doutora e uma enfermeira, vieram me observar e decidiram induzir o parto. Introduziram uma fita dentro da minha vagina, mas não me disseram nada nem o porquê de ser induzido, nem se eu queria, foi tudo tão rápido. Quando mandaram o meu namorado entrar novamente eu estava em lágrimas, não queria ser induzida. Passei bem a noite com as contrações. Eram fortes, mas não era uma dor que não aguentasse. De manhã, veio outro turno de enfermeiros e veio uma enfermeira que me acompanhou nas aulas de preparação. Ela me observou e perguntou se queria peridural, disse que não e ela não me perguntou mais nada, nem me questionou de porquê não querer. Ela mandou-me fazer uns exercícios para ver se avançava mais o parto. Eu já estava pronta para ir para a sala de parto. Não fui porque a enfermeira viu que eu estava bem ali na sala de indução e quis que eu ficasse mais tempo ali, ao pé dela.
Quando a nova equipe de médicos veio, observaram-me e mandaram induzir o parto mas desta vez pela veia. A médica voltou um pouco mais tarde e mandou-me para a sala de partos. Até lhe perguntei “já?”, ela ficou espantada. Eu não queria sair dali.
Fui para a sala de partos com 3-4 cm.
Foi aí que as coisas começaram a correr mal para mim. Primeiro, cheguei lá e a sala estava fria, tinha a janela aberta e eu fiquei ali numa corrente de ar. Depois a enfermeira perguntou se queria a peridural eu disse que não, ela respondeu “é melhor levar, não vai aguentar”. Fiquei nervosa, as enfermeiras sempre a me empurrar a anestesia e eu não queria, elas quase que me chamavam de parva por não levar, o meu namorado não conseguiu me acalmar. Por fim, pedi a anestesia contra a minha vontade. Enquanto estava a levar a anestesia, a doutora estava a preparar as coisas e deu-me uma contração e eu quis massagear as ancas porque sempre que fazia isso me ajudava. A enfermeira gritou comigo porque não podia mexer, eu sabia que não podia me mexer, mas a médica ainda estava a se preparar. Eu tremia mas não era só de medo, era de frio, continuava com a janela aberta à minha frente, só ouvi a médica à minha trás e comentar “esta parece uma vara verde a tremer”. Pedi “por favor pode fechar a janela”, a enfermeira lá fechou, mas a resmungar.
Depois de levar anestesia só ouvia as enfermeiras a me dizer “já viu como está melhor, mas por que achou que ia conseguir sem anestesia?”
Deixaram-me sozinha no quarto. Dormi umas 3 horas até a médica voltar e me examinou, já estava na hora de fazer força, mas não consegui, não sentia nada, não percebia o que tinha de fazer, a médica teve de usar os ferros para forçar a bebê, porque eu não consegui fazer força.
Tudo o que eu não queria foi o que tive (não queria ser induzida, não queria anestesia e não queria que me cortassem).
E tinha pedido com muito carinho às enfermeiras que queria fazer contacto pele a pele com a bebê, não me ouviram.
Depois de sair do hospital, correu tudo bem em casa e eu estava bem, feliz com a minha bebê.
Agora é que estou sempre a recordar o momento, e até é mau dizer, mas não me sinto ligada à bebê.
As amigas minhas que me contam que quando viram a bebê delas pela primeira vez apaixonaram-se logo e que esse amor cresceu todos os dias. Eu não sinto isso. O que sinto é um bebê que estou a cuidar até a mãe chegar.
Já falei com o meu namorado e ele não me compreende só diz que tenho de andar para a frente e deixar tudo para trás.
O momento que mais esperei na minha gravidez tiraram-me e ninguém me respeitou.
Sinto-me humilhada, sinto que fui “violada”.
Só gostava de voltar atrás para poder fazer as coisas de maneira diferente.
Eu estou com medo de não amar a minha filha.
Estou mais preocupada com a epsiotomia que me fizeram e com o que se passou do que cuidar da minha bebê.

O que faço?
Não me sinto bem psicologicamente nem física, não consigo parar de pensar no corte, nem me consigo tocar na zona, nem deixo o meu namorado ver.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Sophia,

    Primeiramente sinto muitíssimo pela violência obstétrica pela qual você passou. Sinto que não seja possível que você volte no tempo para ter teu parto tão desejado. Não se sinta culpada , nenhuma mulher tinha que passar por isso. E procure falar sobre isso com paginas de partos e mulheres que passaram pelo mesmo, você vai superar e deve sim viver esse luto pelo parto que não ocorreu, se possível procure uma profissional da psicologa. Você vai conseguir compreender melhor tudo o que viveu se reconstruir.
    um abraco gigantesco .

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