E ao acreditar que era assim, assim se tornou.

Luzinete R. C. Carvalho ( Psicanalista ) –  October 9, 2015 at 1:50am

Quero propor uma reflexão muito importante. Para isso quero falar de um filme que vi a muitos anos, recomendo que assista se puder, mas não ter assistido não vai atrapalhar em nada a reflexão que quero propor.

O nome do filme é “O Jardim Secreto”, tem muito mais do que eu vou contar agora, e é belíssimo. Vou resumir para chegar apenas na parte que interessa para nossa reflexão: uma garotinha fica órfã de repente e vai morar em outro país, na casa de seu único parente vivo: um homem que se tornou seu tio quando se casou com a irmã da mãe dela.

Deu para entender? Eles eram estranhos, nunca tinham se visto antes, e só depois de muito tempo vivendo na propriedade deste tio é que ela descobre que tem um primo. E é sobre este personagem que quero falar. Sobre o garotinho que tem a mesma idade que a menina, porém vive trancado em seu quarto e todos dizem que ele é doente e inválido. Movida pela curiosidade e atrevimento, ela acaba encontrando o caminho e entra no quarto, finalmente conhecendo o menino, que lhe chama a atenção por ser magro, extremamente pálido, de pernas atrofiadas, e com um humor terrível, condizente com sua situação e estado de espírito.

Ela o convida para ir “lá fora”, mas ele se recusa, perguntando se ela é burra e não vê que ele não pode sair daquele quarto porque ele é doente e os germes do ar do lado de fora podem matá-lo. Desde que nasceu as pessoas disseram que ele era doente, desde que nasceu as pessoas o TRATARAM como doente e inválido, e de tanto ouvir, e de tanto ser tratado como inválido, ele acreditou nisso. E por ter acreditado, ele se tornou doente e inválido. Todas as pessoas ao redor dele eram muito bem intencionadas, todas cuidavam dele com muita atenção e empenho: seu pai, sua governanta, seus médicos, os demais funcionários da mansão. Todas faziam o que faziam acreditando de verdade que era para o bem dele. Vivia, desde que nasceu, trancando dentro de um quarto escuro, era proibido de sair, e nem as cortinas podiam ser abertas, como se respirar ar puro fosse venenoso. De tanto repetirem, com tanta certeza e propriedade, que ele era doente e inválido, ele acreditou e assim se tornou.

A falta de luz, de sol, de movimento, de atitude, a falta de ar fresco o deixaram adoecido, sua saúde se tornou frágil, suas pernas atrofiaram e seu ânimo se desgastou. E eis que chega esta garotinha e duvida que ele é doente, duvida daquela verdade. Ele, surpreso, se recusa a aceitar que a prima diga tamanho absurdo. Ele se agarra ao que ele considerava verdadeiro, se agarra ao que as pessoas que ele amava e confiava lhe disseram a vida inteira, e com todas as suas forças, até mesmo com fúria, ele se volta contra a menina, grita enraivecido que é doente e inválido sim. A menina, brava, sem nenhuma delicadeza, simplesmente o arremessa para fora da cama, abre as janelas e escancara as cortinas deixando a luz do sol entrar pela primeira vez…Diz que ele não tem doença nenhuma, que apenas precisa respirar e ir lá fora. E finalmente, aos poucos, o garotinho parece sentir que o que ela diz, embora seja tão diferente de tudo que todos lhe disseram a vida inteira, faz sentido em seu coração. O garotinho sente dentro dele, que o que ela diz agressivamente, faz mais eco do que aquilo que todos os outros lhe disseram a vida inteira, delicadamente. E ele sai.

É como se nascesse novamente: respira ar fresco, até se engasga com as respirações profundas que faz, sente o sol em seu corpo, tirando a palidez, trazendo cor, trazendo vida…Vai se tornando mais forte, começa a andar, como um bebê que está realmente fazendo isso pela primeira vez. O processo todo é lindo de ver! Recomendo fortemente, mais uma vez, que assista se puder. A reflexão está em como este menino “perdeu” seus primeiros 10 anos de vida! Outras pessoas, por motivos que eram somente delas, disseram que ele era doente e inválido e o trataram assim. E ele acreditou que assim era, e se tornou doente e inválido.

No filme não existem vilões, não existe a polarização do malvado e do bondoso. Existem pessoas, seres humanos, com dores e traumas, tentado viver suas vidas. Pessoas tentando sobreviver dentro de suas próprias histórias pessoais. O pai do garotinho perdeu a esposa amada no parto, e temia amar o filho e perdê-lo. Temia sofrer mais uma vez a dor da perda de alguém amado, e por isso escolheu não se aproximar do filho.Tentando não sofrer, sofreu mais do que poderia imaginar.
A governanta, por motivos dela, tinha certeza que estava fazendo o melhor que podia para manter no menino vivo.Ninguém fazia por mal.Todos tinham seus motivos. E ainda assim colaboraram, em algum nível, para que um garoto acreditasse ser doente e inválido.
Foi uma menina, estranha, não habituada com aquela “verdade”, que chegou dizendo outras coisas. E chegou nervosa, brava, sem carinho, derrubando o menino da cama e abrindo as janelas. Fica claro que a menina não duvidou do menino, mas daquilo que contaram para ele, e, no fim, ela foi quem mais acreditou e apostou nele.

O que desejo é propor uma reflexão sobre tudo que estão lhe dizendo, durante toda a sua vida. Pense sobre tudo, que sem más intenções, ou com as melhores intenções, estão repetindo para você, sobre você, sobre suas capacidades. Quantas vezes te disseram que não era capaz de algo e você acabou acreditando que não era mesmo capaz? Mesmo sem intenção as pessoas podem causar grande dano, se permitirmos. As vezes não é quem te trata com carinho e parece te compreender no seu fracasso ou na sua fragilidade, que realmente estará te ajudando. Pense que, vez ou outra, pode ser alguém sem nenhuma delicadeza que vai chegar te jogando para fora da cama e abrindo as janelas na sua cara, fazendo seus olhos doerem, que vai te ajudar a descobrir mais sobre você mesmo.

Quantas vezes te disseram que você não iria conseguir realizar alguma coisa e você acreditou e resolveu nem “perder tempo” tentando? Quantas vezes o trataram como fraco ou frágil e você, tal qual o menino do filme, passou a se comportar como fraco ou frágil? E ao se comportar como fraco ou frágil, foi VOCÊ quem pagou o preço, perdendo de descobrir suas habilidades e potenciais? Ao se comportar da maneira como te descreveram foi você quem deixou de tentar, foi você quem desistiu, foi você quem nem começou.
Foi você quem deixou de lado seus desejos e sonhos mais caros.
Foi você quem deixou de viver.
Olhe para você mesmo, e reflita sobre quem você tornou. Você se tornou quem gostaria de ser ou se tornou aquilo que falaram e repetiram sobre você?
Se pressentir que você pode ser mais do que isso que todos estão acostumados a enxergar: SEJA! Não permita que as sugestões que lhe enviaram definam e limitem seu ser, pois no fim, só quem paga esta conta é você mesmo.
Se pressentir que “lá fora” tem mais da Vida para você, ouse abrir a janela, ouse respirar o ar fresco, ouse aprender a andar sozinho, mesmo que isso seja dolorido, mesmo que surpreenda ou aborreça os outros.
Torne-se quem você quer ser, mesmo a revelia de todos os outros.
Aquilo que VOCÊ acreditar sobre você se tornará verdade.
Se tem mais de você dentro de você mesmo, descubra e permita que saia para a luz.
Ninguém poderá fazer isso por você.
E ninguém sentirá mais alegria e alívio do que você, quando encontrar a liberdade de simplesmente SER.

Luzinete R. C. Carvalho ( Psicanalista )

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