Explicar é fundamental, mas explicação tem limite

01/08/2012 por  – Ninguém cresce sozinho

Entre o mundo adulto e o mundo da criança existe uma linha tênue que separa o que deve e o que não deve sair da boca do adulto e chegar aos ouvidos da criança. Esqueça a mania de explicação. Criança quer resposta apenas para aquilo que pergunta. Se ela pergunta para confirmar algo que já sabe ou foi informada, devolva-lhe a pergunta. Isto a ajuda na elaboração do pensamento. Se ela quer saber alguma coisa nova, responda de maneira simples e objetiva, não introduzindo nada além daquilo que ela perguntou. Quando a resposta é insatisfatória ou provoca novas questões, a própria criança interrogará com outras perguntas. É a criança quem deve dirigir o conteúdo da resposta, não o adulto.

Antes de responder a uma pergunta, investigue com a criança o que ela já sabe (entende) sobre o assunto em questão, evitando, assim, falar sobre o que ela não perguntou. Uma criança que pergunta aos pais o que é transar, porque um amigo na escola falou sobre isto, pode apenas querer saber o significado da palavra. E, a primeira resposta não é a explicação do ato sexual, mas uma explicação que aborde o namoro adulto, o ficar junto. Se a resposta é dada pelo referencial do adulto ela certamente não atenderá a expectativa da criança.

Adultos que explicam demais fazem isto por uma questão sua – consciente ou não. Falam, falam e falam, a partir do seu olhar e discurso, não levando em conta as hipóteses investigativas da criança. Não é incomum encontrar pais explicando para uma criança de 5 anos, por exemplo, o que é fertilização in vitro, aborto, tipos de parto, quando ela ainda se pergunta onde ela estava quando não estava na barriga da mãe. A pergunta “como eu fui parar na barriga da mamãe” ainda não foi posta pela criança e só será quando ela tiver alguma hipótese sobre a origem da vida, que tentará confirmar com uma pergunta (na verdade, com muitas perguntas!). Então, por que introduzir o assunto? Não falar tudo não é omitir ou mentir. É falar a verdade possível de ser compreendida pela criança em cada etapa do seu desenvolvimento intelectual e emocional.

Tudo, diz respeito à falta de limite, aos conteúdos intelectualizados e às necessidades dos pais. Entre tudo e nada residem os afetos, que valem mais do que o conteúdo em si. A maneira como os pais respondem as perguntas da criança é fundamental para criar um clima de confiança e, portanto, de novas possibilidades de perguntas. Por isto é importante cuidar para que a resposta não vá além do que a criança quer saber. Quando isto acontece, em geral ela trilha dois caminhos, o do desinteresse (ela deixa o adulto falando sozinho) ou da incompreensão (“O que isto tudo tem a ver com o que perguntei?”). O que era para ter algum nexo, tornar-se estranho.

O mundo tem que ser explicado à criança a partir do que ele lhe desperta. E o Mundo da Criança, como bem disse Toquinho,

É sempre colorido, muitas vezes de papel
Com arcos, flechas, índios e soldados
Cheinho de presentes feitos por Papai Noel
O mundo da criança é iluminado.

Baleias gigantescas, violentos tubarões
Mistérios de um espaço submerso
Espaçonaves passam por dez mil constelações
O mundo da criança é um universo
O mundo da criança é um universo.

Pipas, peões, bolas, balões, skates e patins
Vovó, vovô, mamãe, papai, família
É fácil imaginar uma aventura
Dentro de uma selva escura
Com perigos e armadilhas
Viagens para encontrar minas de ouro
Piratas e um tesouro enterrado numa ilha.

Imagens, games, bate-papos no computador
O tempo é cada vez mais apressado
E mesmo com todo esse imenso interativo amor
O mundo da criança é abençoado
O mundo da criança é abençoado.

Para explicar o mundo para a criança é preciso conhecer seu mundo, um universo de hipóteses que ela mesma cria. O adulto deve acolher, confirmar, ponderar e reconstruir cada uma das hipóteses, mesmo com o tempo cada vez mais apressado, para que criança possa ir conhecendo e entendendo o mundo como ele é. Criança precisa ser criança. Adulto precisa se lembrar disto, inclusive nos momentos de explicação.

Explicar é fundamental, mas explicação tem limite

 

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