Até hoje nem a mim mesma eu perdoei

Idade: 30

Desabafo Anônimo: #PrimeiroAssédio, #NotOkay, #TheEmptyChair, e essas são apenas as hashtags que me vieram a mente em poucos segundos. O que todas têm em comum? Violência sexual, assunto que apesar de estar aparecendo mais a cada dia que passa nas redes sociais e nas mídias não aparenta estar diminuindo a sua incidência. Milhares, se não milhões, de mulheres (e homens) do mundo inteiro relatam suas dolorosas experiências publicamente e caem no julgo da opinião alheia sobre uma questão pessoal, porém o quão pessoal é a experiência se diariamente pode se perceber que mais e mais pessoas passam pela mesma situação. Sim é a mesma situação sendo ela um estupro, uma encoxada, um catcalling (Um apito alto ou um comentário de natureza sexual feito por um homem a uma mulher que passa) e tantos outros métodos que são utilizados para invadir o espaço pessoal de outro ser humano sem sua permissão. Claro que os diversos tipos de agressão terão diversos tipos de sequelas, mas todos deixarão marcas no sobrevivente. Depressão, baixa autoestima, alterações do sono, retração social, tendências suicidas, automutilação, ansiedade, sentimento de culpa, essas foram as minhas sequelas.
Em pouco mais de um mês eu completo 30 anos e por mais da metade desses anos eu fui uma sobrevivente. Meu #primeiroassédio eu nem faço ideia de quando aconteceu, no entanto, o meu primeiro estupro eu me lembro bem, aconteceu com 11 anos, o segundo com 22 e minha luta contra as sequelas acontece todos os dias. Esquecer, superar e até perdoar foram, em geral, os conselhos que eu recebi. São lindos na teoria, mas na prática são muito difíceis de realizar. Nos primeiros anos eu “esqueci”, com isso desenvolvi uma doença psicossomática (até hoje não me livrei dela). Depois de mais alguns anos, muito álcool, muitas atitudes estúpidas e uma sensação constante de anestesia pra com a vida, eu consegui me abrir com meu irmão, meu namorado da época e algumas amigas (uma ajuda que não tem como ser quantificada em palavras ) busquei ajuda profissional e achei que estava começando a superar, fui estuprada de novo. Perdoar? Até hoje nem a mim mesma eu perdoei, não vou nem entrar no mérito de discutir perdoar os outros.
Perdas. A criança que eu era, a confiança nos outros, a naturalidade de conversar com quem quer que fosse, uma amiga, a dificuldade de mentir para os meus pais, a cumplicidade com o meu irmão, a confiança em mim mesma, a vontade de ter filhos, a mulher que eu poderia ter sido, a vontade de viver.
Como é de se esperar de uma criança lidando com uma situação dessas sozinha, eu não denunciei e por isso eu não me perdoo. De tempos em tempos quando eu vejo alguma notícia de um professor que estuprou uma criança meu coração para, em geral não tenho coragem de ler a notícia porque sou covarde, tenho medo de descobrir que ao me omitir fui conivente com um novo crime. Nunca tive a coragem de perguntar pra minha amiga se ele cumpriu a ameaça e a estuprou também. Das poucas vezes que encontro essa “amiga” atualmente a vontade de tirar essa dúvida me corrói, mas não faço a pergunta. Não sei por onde começar. Não sei o que vou fazer com a informação, principalmente se meu temor se confirmar. Finjo que nada aconteceu, esqueço. Afinal, sou boa nisso.
Ah mas com 22 anos eu não me acovardei, fui lá e fiz a denúncia na hora! Passei por todo o procedimento da coleta de evidencias do corpo de delito, realizado por um senhor (funcionário do IML) absurdamente despreparado para lidar com estupros, chegou ao cúmulo de me perguntar se eu estava bebendo e fazer ‘aquela cara’ quando eu disse que sim. Medicações, depoimentos, retrato falado, retorno, mais medicações, “acompanhamento psicológico”, mais de 7 anos e nada…
Não é a minha intenção desmotivar ninguém de fazer a denúncia, que acho extremamente necessária pois crimes sexuais são dos menos reportados no mundo e não se fazem políticas públicas sem números que corroborem essa necessidade. Mas apenas isso não vai mudar a realidade e não vai desfazer o mal já causado. Creio que tratar estupradores ou abusadores em geral como monstros os exime da culpa e também evita uma solução. São homens e mulheres que tem que ser punidos e, sempre que possível, recuperados. Não acho que eles irão viver vidas normais após um crime dessa natureza, mas as sobreviventes também não vão. Já passou da hora de adereçar esse problema com mais responsabilidade. “Presidente” grabbing by the pussy (referência a Donald Trump), “deputado” dizendo que não estupraria outra deputada por que ela não merece, estudante de medicina estuprando e se formando “médico”, ameaças online de violência sexual, criminalização de vítimas, todas essas situações e outras diversas que estão por aí no nosso dia a dia me ofendem, me fazem lembrar das violências pelas quais eu passei e tiram o restinho de fé que tenho no futuro da humanidade. Mas ainda não são monstros, são pessoas que foram criadas em uma sociedade que não aparenta estar interessada em acabar com a cultura do estupro já que alguns nem admitem que a referida cultura exista.
Quanto aos que já constataram que a cultura do estupro existe, vamos continuar execrando políticos repugnantes, vamos expor machistas/misóginos, vamos acabar com essa pratica de mulher pagar menos ou não pagar em balada pra atrair homens para o estabelecimento (não somos carne no açougue!), vamos lutar para que a denúncia de violência sexual não coloque a vítima no banco dos réus, vamos permitir que sobreviventes se sintam acolhidas ao contarem suas experiências , vamos respeitar sem esperar que ninguém se dê ao respeito e vamos continuar com as hashtags na esperança que um dia não sejam mais necessárias.

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