Uma cicatriz na alma

1 filho, auxiliar administrativa

Idade: 21

Desabafo Anônimo: Durante toda minha gravidez sonhei com o parto normal, alguns julgamentos me foram feitos, mas nada que fizesse minha ideia mudar. Apesar de ter convênio e ter o utilizado no pré-natal, minha intenção era que o bebe nascesse na casa de parto, o que me foi negado quando levei meu exame de estreptococos positivo. Enfim, acabei cedendo a pressão familiar e quando minha bolsa estourou, fui direto ao hospital,  máquina de cesarianas de São Paulo.

Cheguei e logo fui internada com a médica me desejando boa cesárea (oi?). Fui até o pré-parto onde me colocaram no soro devido ao resultado do estreptococos, e dai em diante meu tormento começou…

Assim que disse que tentaria o normal, iniciaram a indução com o misoprostol, mas não sem antes uma médica extremamente estúpida vir fazer o toque em mim e me dizer o quanto meu colo era horrível pra parto normal… Não sei ao certo o quanto isso me machucou, mas hoje sei que minha cesárea foi decretada ali. Enfim, 1:30 depois o misopostrol (remédio este que ninguém me explicou ao certo o que era) começou a fazer efeito e as contrações passaram rapidamente de cólica para algo extremamente doloroso, excessivo e irregular (e assim permaneceram até o fim). Foram horas assim, quase 12 sem que ninguém monitorasse minhas contrações, e numa solidão absurda. Sem ter meu marido, que segundo as enfermeiras, constrangeria as outras mulheres que estavam ali e até mesmo sem minha mãe, que presenciou um dos momentos mais dolorosos dessa experiência: não a deixaram entrar na sala pra me ver, me disseram que eu deveria ir ate ela, vazando líquido, sangue e com contração, a enfermeira segurando meu soro me levou ate o corredor, eu, frágil e com um lençol no meio das pernas e ainda sim sujando o chão, pude abraçar minha mãe…

Eu que cheguei as 13h com 3 cm de dilatação, e mesmo após duas aplicações do misoprostol e dolorosos exames de toque, quase amanhecendo do dia seguinte, alcancei apenas 5cm. Me laudaram como “falha na indução” e me indicaram a cesárea… Ali, eu já não tinha mais controle de mim. Eram mais de 12h horas de solidão, dor e isolamento por parte dos profissionais (ouvi o típico: se quer normal, deixa chorar), queria meu filho, meu marido, paz…

Não sei se a dilatação suficiente não aconteceu por falta de incentivo ou excesso de angustia (os dois?), mas as 4:30 da manhã, eu estava chorando e urrando de dor na mesa de cirurgia. O anestesista não vinha e acredito eu, que poderia estar passando por algum tipo de hiperatividade uterina, já que eu tinha mais de 6 contrações a cada dez minutos e não conseguia me mexer (talvez se esse momento tivesse durado mais, meu filho haveria entrado em sofrimento). Alguns minutos depois ele nasceu, grande e lindo 51 cm e quase 3.700 kg.

Hoje as lembranças do quarto escuro, da solidão me perseguem. Após meu parto, fomos todos bem tratados, como quem diz: já que tivemos o parto que o hospital é especializado, eis a recompensa…

A violência obstétrica demora a vir a nossa cabeça como ela é: um atentado a dignidade da parturiente e vai muito alem da cicatriz da cesárea, é uma cicatriz n’alma.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Chris disse:

    Sinto muito por você ter passado por essa experiência horrorosa num momento que deveria ser lindo…
    Somente com denúncias ao Ministério Público, histórias como a sua serão menos frequentes. Temos que aumentar as denúncias!

    Curtir

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