Nem tudo é frescura

Por Teresa Ruas – 27 Outubro 2015 – Minha Teoria de Vida


Nem tudo é frescura: alguns comportamentos podem ser de origem sensorial

Os nossos filhos, a todo o instante, nos fornecem pistas e expressões comportamentais para que possamos compreender melhor quais, e como são as suas características. E observando a conduta de nossos filhos, por exemplo, na execução das atividades de vida diária- banho, alimentação, escovação dos dentes, entre outras-, e no momento do livre brincar- individualmente e/ou em grupo- nós, pais, temos a oportunidade ‘padrão ouro’ para que conheçamos, bem de perto, as habilidades, as potencialidades e as dificuldades de nossos filhos.

Resolvi escrever este post, pois existem alguns comportamentos-expressos na rotina diária da criança- que são ‘encarados’ pelos adultos como frescura, manha, mania e/ou teimosia da criança. E na verdade, quero demonstrar com alguns exemplos da própria Maitê Maria que, frequentemente, não são! Pelo contrário. Alguns comportamentos podem, primeiramente, ser expressões/reflexos de como a criança está lidando com o meio externo ao seu redor. Ou seja, como o seu cérebro está processando as informações recebidas do meio ambiente- informações captadas por todos os órgãos sensoriais: audição, visão, tato, vestibular, olfato e propriocepção-, e ‘formulando’ uma resposta à demanda ambiental.

Para clarear o que estou pontuando, darei alguns exemplos.  Crianças nos primeiros anos de vida que não gostam de se sujar, brincar de massa de modelar, sujar as mãos com tintas, pisar na grama, colocar meias/sapatos, pisar e/ou manipular a areia, ir ao parquinho, tomar banho, cortar unhas, experimentar novos sabores e texturas em alimentos, entre outras condutas, estão demonstrando, na verdade, como o seu cérebro está reagindo aos estímulos externos recebidos. Não, necessariamente, são crianças cheias de manias ou manhosas, ou que desde cedo já querem tudo ao redor muito bem limpo.

Isto é o que nós mães podemos ouvir de avós, parentes e amigos, não é mesmo? Porém, todas as características citadas acima- alguns poucos exemplos, enquadrados nos transtornos sensoriais- são particularidades do sistema nervoso central de cada criança e, que se estão afetando o dia a dia da mesma, estas devem ser tratadas por um especialista em integração sensorial, ou seja, um especialista que compreende e estuda todo o mecanismo cerebral em receber, processar e integrar as informações que recebemos do meio externo, através de nossos órgãos sensoriais, como explicitado acima.

Pois bem… a noticia muito boa é que todas essas características, se bem trabalhadas e observadas desde o primeiro ano de vida, podem ‘desaparecer’ ou ficarem muito menos evidentes no dia a dia de nossos pequenos. E um dos meios para se garantir isso é favorecer, aos poucos, as experiências que as crianças não gostam. Sendo que aos poucos, é aos poucos mesmo! E principalmente respeitando o ritmo e a conduta demonstrada pela criança.

Maitê Maria, por exemplo, diante de sua história de prematuridade extrema e longa internação, desenvolveu o que chamamos de defensividade tátil nas mãos e pés. Ou seja, não gosta de sujar as mãos, os pés e nem sentir diferentes texturas nos mesmos. Porém, como observei desde muito cedo essas características, já estávamos preparados e conscientes de suas possíveis dificuldades ‘táteis’ na hora de brincar e/ou de se alimentar, por exemplo. Diante disso, aqui em casa algumas ordens foram dadas:

  • 1- Deixe Maitê Maria se SUJAR.
  • 2- Não lave as mãos dela imediatamente. Deixe-as suja por um tempo e não tem problema se ela precisar de um outro banho e/ou outra troca de roupa.
  • 3- Deixe Maitê Maria descalça. Meias, somente diante de um frio extremo.
  • 4- Permita que ela pegue os alimentos de seu prato com as suas mãos, não importando a sujeira que faça.
  • 5- Atividades manuais- como fazer bolinhas de papel- devem ser apresentadas semanalmente, porém, não exigidas.
  • 6- E diante de sua alta para se aventurar pelo mundo, o parquinho e as atividades ao ar livre devem fazer parte do seu dia a dia.

E essas ‘ordens’ já estão fazendo muito efeito no livre brincar de nossa pequena. Todas essas experiências em seu contexto domiciliar, como, por exemplo, se sujar na hora de comer são informações importantes para que o seu cérebro aceite, aos poucos, ter contato com outros estímulos/informações táteis e outras atividades, como a massa de modelar, a tinta, a areia e a grama.

O seu primeiro contato com a tinta foi terrível! Um choro descontrolado, e diante do respeito por ela, não insistimos. O segundo encontro, Maitê Maria apenas segurou os tubos de tintas e viu as diferentes cores no papel, mas sem encostar na tinta. O terceiro, o quarto, o quinto e outros vários já demonstraram que Maitê Maria estava mais preparada para sentir a diferente textura da tinta. Dedinhos e mãos ficaram todos sujos! Que maravilha! E várias pinturas maravilhosas foram surgindo ao longo da atividade! Toda essa experiência com a tinta permitiu que ela experimentasse e aceitasse outras atividades, como, por exemplo, manipular massas de modelar, andar descalça pela grama e areia, e se aventurar pelo balanço do parquinho.

E como pode uma ‘atividade de pintura’ surtir tanto efeito em uma criança de quase dois anos? Isso é o que chamamos de ‘plasticidade cerebral’ e de ‘grande poder da adaptação cerebral’ frente à atividade realizada, nos primeiros anos de vida de qualquer ser humano. Se, aos poucos, vamos oferecendo experiências ‘difíceis’ ao cérebro de nossos filhos, este órgão vai se alimentando delas, e vai, aos poucos, gostando e se adaptando, para após estar bem mais preparado para descobrir e experimentar novas atividades e experiências. Portanto, simples ações cotidianas podem modificar e muito as condutas de nossos filhos. O simples fato de permitir que Maitê Maria se sujasse em casa fez toda a diferença para o seu desenvolvimento cerebral.

E para que os pais e os principais cuidadores possam compreender o que significa algumas condutas e comportamentos das crianças, é fundamental que compartilhemos todas as dúvidas com os pediatras de nossos filhos para que, realmente, possa ocorrer o melhor acompanhamento durante os primeiros anos de vida- momento mais importante para o desenvolvimento global de toda criança-.  Por isso, não deixe de contar como são os hábitos de seu filho na alimentação, como ele se comporta nas atividades de higiene, quais são as brincadeiras que ele mais gosta de fazer, e quais são as que ele não gosta; como é a interação dele com as outras crianças, como ele se comporta diante dos ruídos externos, como ele age diante de brinquedos de parquinho, e entre outras informações que achar importante sobre o seu filho. Todas estas informações são preciosas, pois além de dizer como a criança está lidando com as demandas da infância e do meio externo/cultural, podem ser um meio importante para a prevenção e acompanhamento de transtornos sensoriais.

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