Meu rancor não me liberta

V., sem filhos, estudante, 31 anos.

Desabafo Anônimo: Sempre fui uma criança e adolescente considerada voluntariosa, cabeça feita, opiniosa. Isso sempre me motivou a dizer o que pensava, a me colocar contra o que me era imposto, mas nunca me impediu de cair em situações problemáticas. Meu corpo sempre foi alvo de atenção, consideravam que eu havia me desenvolvido muito rápido, que eu era mulher aos 12, 13 anos. E isso me lançava em companhia dos hormônios ao mundo dos desejos, dos namoradinhos.

O choque da mudança entre criança e adolescente, vinha acompanhada pelo desprezo do pai, dos olhares vigilantes da mãe e das tias, e da vontade de querer atenção sexualizada na escola, entre os rapazes. Tudo isso parecia fruto de minhas vontades e escolhas. Ninguém me dizia o que fazer e sentir, porque eu tinha um corpão, eu sabia o que queria.

A educação militar da minha mãe, as tentativas de encarcerar a filha, eram respondidas com muita mentira, fugas e completo desprezo a figuras de autoridade. Esse contexto me lançou no primeiro relacionamento aos 14 anos com o professor sete anos mais velho, isso não sem antes ter-me apaixonado por outro professor um pouco mais cedo. Ele cercado de atenção discente, seduzia com piadas e com uma relação “mais próxima” aos estudantes, em pouco tempo participava de nossas brincadeiras e fazia parte de nossa dinâmica estudantil. O namoro logo chegou ao conhecimento de minha mãe, que me obrigou a levá-lo em casa. Na mesma tarde ele conseguiu a confiança dela, onde valores religiosos e conservadores eram compartilhados entre os dois. Eu tento, mas não consigo nem lembrar do conteúdo das conversas naquela tarde, apenas que ele conseguiu convencer a minha mãe que era um homem correto e assim minha mãe permitia a um homem 7 anos mais velho que a sua filha de 14 a namorasse.

O “relacionamento” durou cerca de dois anos, as conversas sobre casamento e filhos se intensificavam e o choro sem sentido aparecia nas situações mais diversas. Sexo não houve, porque a vigilância moralista da minha mãe impedia que ficássemos a sós, mas as “aulas” eram constantes e o tom professoral em relação ao meu corpo dominava suas ações. Inconscientemente veio o nojo, o desprezo, a raiva por aquele homem. O namoro que se dependesse de mim teria acabado na primeira diferença de conduta e opinião, ou melhor, nem teria começado, durou mais que deveria porque me sentia perdida, me sentia ninguém longe de um homem que tinha tudo, sabia de tudo. Aos 16 anos achava que estaria sozinha, sem ninguém e que não valeria mais nada.

E mais uma vez meu voluntarismo me inclinava a sair o mais rápido possível daquele namoro. Não que isso tenha me ensinado a ponderar sobre minha condição de mulher, o direito ao meu corpo e as situações que caía sem saber, amparada por uma falsa sensação de liberdade. Mais uma vez esse voluntarismo me lançava a um relacionamento complicado, dessa vez com um colega de sala, onde as provocações, os jogos de sentimento, os abusos psicológicos me aprisionavam numa dinâmica pouco saudável onde ele sempre saia ganhando. A minha mãe fez deste período da minha vida um verdadeiro inferno, colocou pessoas para me seguir, incentivou meu pai a me agredir, acabou com a minha auto-estima e me lançou mais ainda para este relacionamento que ela não aprovava, uma vez que o adolescente era apenas um adolescente como eu. Entretanto, diferentemente da situação anterior, consegui refletir sobre a situação que eu estava, consegui refletir sobre os papéis que eu caía e questionar a falsa sensação de “liberdade sexual” que me lançava a situações que me rebaixavam a distração sexual, ao mesmo tempo em que construí um verdadeiro abismo entre eu e minha mãe.

Embora nestas duas situações eu consiga problematizar os papéis de gênero, do namorado pedófilo e do namorado egocêntrico maniqueísta, até hoje ainda é difícil para mim perdoar o papel da minha mãe nessas duas situações. Guardo um rancor extremo pela forma como ela permitiu um homem mais velho namorar uma filha menor de idade e a destruir minha adolescência com um namorado da mesma idade que eu. Todas as conquistas que tenho em minha vida, em especial a de saber quem sou, a de cuidar de mim, a de refletir e questionar, a de elaborar melhor as minhas escolhas não contam com a participação dela em minha vida, muito pelo contrário. A distância que tomei dela, dos valores, das condutas, são para mim os fatores que propiciaram o meu crescimento, meu fortalecimento, a consciência de si em minha vida.

Claro que isso dói, o ressentimento dói, especialmente porque hoje ela amarga o meu distanciamento, o meu rancor por muitos aspectos do passado e o meu silêncio, sem ao menos saber o motivo. Ela participa muito pouco de minha vida, entrei em um novo relacionamento que não estabelece com ela nenhuma conexão, eu não aceito conselhos e cada vez que ela me pede algo ou me endereça algo eu só sinto vontade de ir na direção oposta, se ela quer netos, eu só consigo pensar o quanto que ela me reprimiu sexualmente como se eu fosse um bicho para que eu não engravidasse e que, portanto, eu nunca terei filhos. E isso não é bom, significa que eu não me libertei dessa dinâmica entre mãe e filha da adolescência, queria poder sentir indiferença, seria uma conquista e não me amargaria tanto, mas ainda não consigo. Eu ainda me importo em ser desagradável, em fugir, em negar, em mentir. Meu rancor não me liberta mais, foi importante para me distanciar e afirmar outros valores e identidade numa fase onde eu chorava sozinha e não encontrava entendimento. Mas agora na vida adulta, deveria ser substituído por maturidade em superar a relação complicada com a mãe, sem a negar, mas sem se sentir presa a este sentimento de rancor.

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