Me senti desprezada na minha autonomia

Anônima, 1 filho, bióloga, 31 anos.

Desabafo Anônimo: Quase um ano após o nascimento do Nilo, tomo finalmente a iniciativa de escrever meu relato de parto. Confesso que em diversos momentos me senti até mais inspirada do que agora, mas estive vivendo boa parte desse tempo de maneira tão intensa e confusa, que só agora, que avalio as coisas com mais sobriedade, é que consigo realmente sentar e digitar. Talvez, nesses momentos anteriores, poderia ter saído inclusive um relato de parto mais emocionado ou emocionante, mas com certeza agora, eu sei que sairá um relato de parto consciente. Consciente, eu digo, principalmente pelo estado de clareza em que minha mente se encontra agora, podendo inclusive, fazer uma avaliação realista do evento. Sinto que já se afastou a aura que me envolvia nos primeiros meses do pós-parto, o que pudesse conferir mais romance à minha escrita, mas acho até melhor um relato mais realista. Reservarei-me a não citar os nomes das pessoas da equipe que acompanharam meu parto, justamente porque escreverei absolutamente tudo o senti e vivi. Não quero de maneira alguma expô-los a situações constrangedoras, mas não vou me furtar nem por um momento de oferecer meu ponto de vista de todo o processo que vivi, tendo essa equipe me prestando assistência. Inclusive, considero este texto como um exercício de protagonismo do gestar, parir e maternar. Considero que esse texto vai além de um relato de parto, mas um relato de vida, ou parte dela, que mais do que uma maneira de expressão é uma prática de cura. De cura de todas as feridas abertas que demoram pra cicatrizar, que precisam ser remexidas, remoídas, fuçadas, até que se possa por fim chegar a uma síntese que traz paz e serenidade. De cura de toda uma história de vida que inconscientemente esquecemos para não cutucar nossos fantasmas ocultos e que se afloram incondicionalmente nesse processo tão nobre, tão lindo, tão cheio de graça, mas sim, cheio de desafios e angústias também, que é o nascimento de uma nova vida.
Antes de iniciar propriamente a contar minha história, não posso deixar de expor que se são os hormônios que fazem essa reviravolta arrebatadora dentro de nós mulheres, eu definitivamente considero que parto e pós-parto são o maior barato! Mas pra falar desse barato todo também sou obrigada a dizer que existem os momentos de bad trip… E são nesses momentos que a gente quer parar de brincar, quer parar o mundo pra descer, mas… não é tão simples assim. E é justamente em momentos como esses que eu percebo que tudo mudou. Que não sou mais aquela jovem tão descolada de antes, que tenho medos e ressalvas, que reproduzo coisas que achava que nunca ia fazer, assim como deixei de fazer coisas que antes eram tão simples… Que agora sou eu e este novo ser para sempre, ou pelo menos por muito tempo. Mas que ao mesmo tempo sou uma nova mulher, cheia de desafios sim, mas com uma percepção muito mais ampliada, com a sensibilidade para pequenas sutilezas antes invisíveis, com o corpo mais maduro e a mente mais criativa. Posso dizer que a maternidade e todos os seus processos subjacentes é a maior revolução que a mulher pode vivenciar!
Descobrir que estava grávida foi uma (agradável) surpresa em meio ao um turbilhão de acontecimentos. Tinha concluído o meu mestrado, razão pela qual passei dois anos no Sul do Brasil, e estava voltando pra Brasília, lugar em que morava anteriormente e onde era lotada num confortável cargo público da área ambiental. Meu companheiro, Ricardo, com quem estava junto há alguns anos resolveu ficar no Sul, por conta do seu trabalho e também por motivos familiares, já que seus pais precisavam de seu apoio. Então, estava eu novamente em Brasília, depois de muitas idas e vindas, agora em caráter mais perene, a menos que eu conseguisse uma transferência para o Rio Grande do Sul.
Estava eu sozinha em Brasília, agora já distante dos meus velhos amigos dali, sobretudo porque cada um já tomava rumos muito diversos. Estava eu em Brasília, sozinha, inclusive vislumbrando a possibilidade do fim de um relacionamento que não vingaria ao longo do tempo, mais uma vez à distância. Mas não, não estava sozinha! Senti uma náusea incomum um dia. Lembrei-me da minha menstruação tão regular, que não vinha há mais de 30 dias. Depois de algumas semanas, descobri que dentro de mim aconteciam revoluções por minuto. Justamente após um dia em que bebi sozinha quase uma garrafa de vinho, me senti tão enjoada, que não poderia ser simplesmente uma ressaca. Resolvi fazer um exame de farmácia.
A novidade se confirmou e por um tempo eu fiquei pensando nos rumos que tomaria minha vida dali em diante. Liguei para meu companheiro e dei a notícia a ele por telefone. Ao que ele me respondeu que já sabia. Como assim? Como ele pôde receber a notícia com tamanha serenidade? É verdade que tínhamos uma vida sexualmente ativa e não usávamos métodos contraceptivos, apenas um calendário que nos dizia quando poderíamos ter sexo, mas ainda assim, eu estava chocada! O fato de ele ter recebido tão calmamente essa notícia também me acalmou bastante, como se uma saída de nuvem estivesse desembaçado meu horizonte. Mas ainda assim eu estava insegura com todo o panorama de futuro que se abria dali em diante.
Resolvemos nos ver com mais frequência do que o inicialmente programado. Eu passei a dividir um apartamento perto do trabalho com um amigo e mais um amigo do meu amigo. Tudo parecia bem. A gestação foi muito tranquila. Não tive nenhuma intercorrência. Mas mesmo sabendo que tinha um ser dentro de mim, ainda assim, em muitos momentos me sentia muito só e minha atitude era de quase total recolhimento. Embora minha mãe morasse bem próximo, nos vimos em poucas oportunidades. Meu companheiro também… Por mais que ele se esforçasse para vir de tempos em tempos, outras coisas também aconteciam na vida dele, e senti que ele não se engajou tanto na gravidez como eu esperava. Na verdade, depois de um tempo preferiu fazer uma viagem de bicicleta, que inclusive lhe rendeu um livro.
Passei por algumas consultas de pré-natal muito ruins em Brasília. Com médicos que me atendiam em 10 minutos, que me prescreviam remédios para uma série de coisas, desde enjoos e dor de cabeça, até azia e prisão de ventre… mesmo sem eu me queixar de nenhum desses sintomas. Como sempre estive muito bem, resolvi ignorar todos eles. Já tinha bastante noção do panorama cesarista da atenção ao nascimento no Brasil, ao passo que comecei a me aprofundar em informações voltadas ao nascimento humanizado. Encontrei um grupo de gestantes que funcionava junto ao Hospital Universitário de Brasília, o qual já tinha conhecimento de sua existência através de uma amiga com quem morei na Casa do Estudante, na UnB, na época da graduação. Nesse grupo (que acontecia toda semana, mas que eu só conseguia comparecer uma vez ao mês), encontrei pessoas maravilhosas, com quem pude compartilhar vivências, obter informações de qualidade e tirar dúvidas. Nunca vou me esquecer dos momentos riquíssimos em que estivemos juntos. Esse grupo fortaleceu minha ideia de buscar um parto natural, respeitoso e digno, que muitos chamam de parto humanizado hoje em dia.
Decidimos, eu e meu marido, que voltaríamos a morar no Sul, e que inclusive eu buscaria ser transferida, a fim de morarmos juntos numa cidade do interior, com mais qualidade de vida. Diante disso, começamos a vislumbrar um parto domiciliar. Resolvemos também que não procuraríamos saber o sexo do bebê, teríamos bebê surpresa, acreditando que não saber seu sexo, além de trazer um ar de mistério e magia, também desestigmatizaria alguns conceitos da sociedade que se formam em torno de questões de gênero e consumo desde antes do nascimento.
Continuei fazendo pré-natal em Brasília com uma médica que não era minha melhor amiga, mas que era minimamente atenciosa. Ao mesmo tempo, procurei equipes de parto humanizado no Rio Grande do Sul, que em contraposição à Brasília (que tem um crescente incremento em iniciativas de humanização do nascimento), é o estado com maior número de cesáreas do Brasil. No Grupo de Gestantes recebi uma indicação de um médico obstetra que faz acompanhamento humanizado da gestante, bem como trabalha com uma equipe de enfermeira obstétrica e doula que acompanham o parto em casa. Eu e meu marido gostaríamos que o nascimento ocorresse na casa onde morávamos, numa cidade do interior do Rio Grande do Sul, mas conversando com a equipe, por conta do tempo de deslocamento, percebemos que seria inviável. Então resolvemos alugar um apartamento em Porto Alegre, para que, ao menos temporariamente, tivéssemos um lar na capital para receber nosso filho.
Quando estava com quase 36 semanas de gestação, voltamos em carro, de Brasília para o Rio Grande do Sul. E com quase 38 semanas, mudamo-nos para Porto Alegre, levando também nosso cão Xiru. O apartamento era muito agradável, e tinha até uma banheira maravilhosa na sala de banho. Quantas vezes eu me deitei ali, imaginando a chegada do Nilo dentro da água…
Aproveitei essas semanas em Porto Alegre para fazer um chá de bebê com os amigos do Sul e para (finalmente) conhecer a doula que faz parte da equipe que me acompanharia. Causou-me surpresa ao saber que além do valor global que eu pagaria à equipe da qual ela fazia parte (valor este, que no meu ver envolveria toda a atenção que eu demandasse antes durante e após o parto), eu teria que pagar mais uma considerável quantia só para ter este encontro com ela. Não questionei. No nosso encontro, ela mais falou do que ouviu e no final eu me senti meio deslocada. Não sei por que, mas nesses últimos momentos de gestação especialmente, eu parecia estar vivendo uma realidade paralela. Parece que estava buscando guardar as energias para o parto, então, os questionamentos e reivindicações pareciam muito cansativos, ao passo que durante todo esse período preferi ficar mais recolhida. Erro meu, penso eu agora. Deveria ter exposto todas as minhas angústias e demandas, pois hoje entendo que só se posicionando a gente não se machuca intimamente, e não carrega essas feridas que um dia vão se abrir e precisar de cura. Nesse período entre o final da gestação e o parto, falamos poucas vezes, apenas por mensagem e senti muita falta do tal apoio emocional que as doulas buscam oferecer. Mandei-lhe por e-mail meu Plano de Parto, e como resposta, eu obtive que dentro das possibilidades, minhas escolhas seriam respeitadas. Mandei também esse mesmo Plano de Parto para o médico obstetra e para a enfermeira obstétrica, de quem não recebi nenhuma resposta. Na verdade, nem sei se leram. Consultei-me também com uma pediatra antroposófica indicada pela minha equipe de parto e senti simpatia por ela. Ela nos visitaria em casa no caso de parto domiciliar num prazo de 24 horas, e no caso de parto hospitalar, nos acompanharia desde antes do nascimento até quando fosse necessário, procurando sempre os procedimentos menos intervencionistas possíveis. Conversamos muito, inclusive sobre a importância da atenção ao bebê logo após nascimento, pois o que ocorre muitas vezes é que a mulher se prepara muito para dar a luz e de repente quando o bebê nasce (no contexto hospitalar, é claro), passa por uma série de procedimentos invasivos que passa pelo corte precoce do cordão umbilical, separação da mãe nos primeiros minutos, aspiração, manuseio desnecessário, banho nas primeiras horas, vacinas, etc. Concordamos que as intervenções seriam apenas as estritamente necessárias, caso nós fôssemos para o hospital.
Numa das consultas de pré-natal, eu com já 38 semanas, o médico nos perguntou se o nosso parto seria hospitalar. Esse momento me gerou muita estranheza, pois embora eu tivesse iniciado o pré-natal com ele com 30 semanas, já tínhamos tido tempo suficiente para nos conhecer e ele deveria saber que o principal motivo pelo qual eu procurara sua equipe seria a assistência ao parto domiciliar. Estranhei mais ainda porque na consulta anterior ele tinha feito um lindo discurso dizendo que o único sentido que ele via na atenção médica, era a formação de um vínculo de confiança entre médicxs e pacientes. E estranhei mais ainda, porque estava escrito no meu prontuário que nós planejávamos um parto domiciliar. Então, ele não se lembrava de mim? Das minhas escolhas e preferências? Não leu meu prontuário? De que adiantava então as caras e longas consultas de mais de uma hora de duração, se em algumas semanas ele de mim já se esquecera? Será que tinha muitas pacientes? Diante do panorama do nascimento no Rio Grande do Sul, em que são poucos os médicos que buscam uma abordagem humanizada, isso é bem possível. Isso porque ele mesmo já postou nas redes sociais o quanto acha complicado atender tantos partos no mês, visto a dificuldade de fornecer uma atenção personalizada às mulheres… Mas o pior ainda estava por vir. Ao verificar no meu prontuário que de fato estava escrito “parto domiciliar”, ele deu uma notícia muito dura para quem estava no final de uma gestação com tudo programado para o parto domiciliar: que sua esposa, que era a enfermeira obstétrica que acompanharia meu parto, tinha passado por uma cirurgia e que somente se recuperaria dentro de duas semanas. E que se o bebê viesse nesse meio tempo eu teria que ir para o hospital, ter meu filho assistida por ele. Procurando alternativas, resolvemos contatar outras enfermeiras obstétricas que pudessem acompanhar o nascimento do nosso filho em casa. Encontrei uma enfermeira que poderia me acompanhar em casa até o momento expulsivo apenas, mas não poderia permitir que o bebê nascesse em casa, devido aos protocolos de segurança que precisam seguir. Fiquei muito consternada com toda essa história e não poderia deixar de questionar mesmo que internamente que tipo de relação é essa entre médico e paciente que se propõe a ser humanizada, mas que ao mesmo tempo desconsidera elementos essenciais do devir feminino num momento tão sensível. Onde está a relação de confiança e de vínculo de que tanto ele falava, se no momento em que eu mais precisava de confiança e de vínculo eu não encontrei? O que eu encontrei foi a recomendação “converse com seu bebê e peça pra ele esperar”… esperar mais duas semanas até que a enfermeira obstétrica tivesse se recuperado da cirurgia e pudesse me assistir?… É claro que eu era condescendente com a situação da minha parteira, que precisou passar por uma cirurgia naquele mesmo período. Mas também me perguntei muito sobre o porquê de tudo aquilo. Pois me pareceu muito mais um lapso em que, equivocadamente, o médico e a enfermeira pensaram que meu parto não seria em casa.
Já estava no período provável para o parto, o tempo ia passando e o bebê não parecia dar sinais de querer nascer logo. Assim, fiquei feliz, pois ganhávamos tempo até a recuperação da parteira. Durante essas duas semanas eu realmente gostaria que ele esperasse mais um pouquinho para vir ao mundo. Parece que ele realmente me ouviu quando eu conversava com ele, pedindo para esperar, pois foi o que de fato ele fez. O tempo ia passando, a parteira se recuperou da cirurgia e ao saber da notícia, eu logo me adiantei em falar para bebê que estava tudo pronto para ele nascer…
Quarenta semanas, e quanto maior minha barriga parecia ficar, mais eu estava ansiosa pela chegada do bebê, ainda que secretamente. Por fora eu estava bem tranquila, só expressava uma pequena chateação pelo imeeeeeenso inchaço. Já era dezembro e as pessoas já começavam a perguntar se eu não iria pra um hospital logo, porque o bebê poderia estar sofrendo, dentre milhares de coisas que as mulheres geralmente ouvem quando resolvem esperar a hora dos bebês, contrariando a lógica predominante de se tirar os bebês das barrigas de suas mães num momento determinado. Mesmo que mantendo a compostura, sorrindo e dando uma resposta tranquila e educada, eu ficava chateada e inquieta. Quarenta e uma semanas e nem sinal de trabalho de parto. Semanalmente eu ia ao consultório, sempre estava tudo bem, mas nenhum indício de que o bebê estava chegando. Fiz duas ecografias com avaliação do perfil biométrico, que indicava mais uma vez que estava tudo ótimo, mas mesmo assim o médico que fez o exame não se furtou de exclamar “que bebezão esse! Tu vai fazer parto normal?… corajosa, hein!!!” Eu confesso que só superei tudo isso porque estava muito bem informada e serena suficiente para levar em frente as minhas escolhas.
Ao final das 41 semanas, numa quinta-feira já de verão, em que as chuvas deixavam as flores do jacarandá espalhadas por todas as calçadas da Zona Norte, estava eu ainda aguardando qualquer indício de manifestação da chegada do bebê. Mas não havia nada além das suas fortes movimentações no meu útero e das contrações de treinamento. Bom, indubitavelmente era sinal de que tudo estava bem, mas essa demora (que só existe no nosso tempo de seres humanos inseridos numa sociedade) acabou por consumir boa parte das minhas energias. Ansiedade e preocupação começaram a invadir meu ser e confesso que, embora estivesse determinada a esperar sua vinda espontânea, comecei a sentir medo por coisas como sofrimento fetal. Nessa mesma quinta-feira, fomos a uma consulta, em que o médico obstetra e a enfermeira obstétrica me informaram que após as 42ª semana (isto é, sábado) eu não poderia mais ter o bebê em casa, e pior ainda, se eu não entrasse em trabalho de parto até domingo, na segunda-feira eu teria que ir ao hospital e fazer indução. Essas palavras soaram de maneira muito estranha pra mim. Primeiro porque ia contra todas as coisas que postulei sobre o meu parto. Hospital? Indução? E a história de esperar a hora do bebê? Me pareceu que aquela equipe de parto, não diferente das demais, apenas ampliou o espectro de paciência, em que obstetras comuns esperam até 38 semanas, esses humanizados esperam até 42. E me questionei mais ainda sobre que tipo de contabilidade das semanas de gestação é essa, que desconsidera um item fundamental, do qual eu e meu marido sabíamos exatamente: a data da concepção. Embora informada e segura, não tive muita coragem de enfrentar uma equipe médica presumidamente humanizada que me dava informações presumidamente baseadas em evidências científicas. A relação de confiança que se construía ao longo dessas consultas ao menos era para me embasar nas minhas escolhas, mas certamente, me desencorajava das minhas decisões iniciais. Mais do que isso, também comecei a duvidar da equipe. Será que esse protocolo tão rigoroso que não espera além das 42 semanas cravadas para um parto domiciliar não estaria contrariando a mais natural fisiologia humana e a busca do evento do nascimento no seio familiar? E que critérios são esses que se permite que o parto em casa aconteça às 42 semanas, mas não permite que aconteça às 42+1 ou + 2 dias? Se o cálculo das semanas é tão incerto e arbitrário (eu considero apenas uma estimativa), como se basear nisso para impedir que um momento tão especial aconteça no aconchego da minha casa? Mais ainda: Por que induzir o parto? Chegamos verdadeiramente num limite inadiável? Será que não seria uma conveniência médica esse caso, afinal, na segunda-feira seria um bom dia para o meu obstetra acompanhar meu parto no hospital (já que não teria mais a opção de ser acompanhada em casa com enfermeiras) sem desmarcar suas consultas de terça-feira (ele atendia às terças e quintas no consultório). Por que agora, depois de tanto preconizar o nascer natural, de tanto ojerizar as intervenções, por que agora falamos de indução? Será que eu já não sou mais capaz de parir fisiologicamente só por conta das 42 semanas? Será que minhas aptidões fisiológicas femininas deixaram de valer, só por conta das 42 semanas? Será que o bebê não resolvera mesmo esperar mais e mais depois das conversas que tive com ele? Saí daquela consulta muito triste e chateada com equipe que escolhi. Mais tarde, fui ao Centro Espírita perto da minha casa, tomei um passe e sentia as lágrimas escorrerem em rios pela minha face.
No dia seguinte, uma sexta-feira, numa das poucas mensagens que troquei com minha doula, ela me sugeriu que pedisse ao meu obstetra que também é homeopata, uma fórmula que me ajudasse a entrar em trabalho de parto. Como os chás de gengibre e canela não pareciam surtir efeito, quase no fim da tarde mandei um whatss para o médico, que em minutos me respondeu com a fórmula. Mandei manipular por telefone, e meu marido buscou antes das 18h30, quando o comércio fechava. Comecei a tomar conforme a prescrição e era minha última esperança de que tudo desse certo para eu entrar em trabalho de parto logo, pois passando de sábado, eu não poderia mais ter o bebê em casa.
Às 22h, estava numa lanchonete perto de casa com meu marido e falava com expectativa de que algo iria acontecer muito em breve. Estava com essa sensação. Ao chegar em casa, fui ao banheiro e percebi que meu tampão mucoso tinha saído. Fiquei tão feliz, tão feliz, tão feliz!… Que mesmo sabendo que isso não necessariamente poderia ser o início do trabalho de parto, eu tinha certeza de que era chegada a hora. E assim começaram as contrações. Esparsas, fracas, irregulares. Mas sim! Eu entrei em trabalho de parto! Uma das minhas maiores dúvidas era se eu conseguiria entrar em trabalho de parto naturalmente e o meu maior medo era ter que ir para o hospital na segunda-feira passar por uma indução. Mandei mensagens pra doula, parteira e médico. Todos informados, eu poderia ficar em casa tranquila, aguardando as coisas engrenarem para acioná-los na hora certa. Ainda tinha esperanças de ter um parto domiciliar. Minha doula tinha falado que uma mulher tomou aquela homeopatia e seu bebê nasceu em duas horas! Eu tinha até o final do dia de sábado para que o parto acontecesse em casa.
Fui (tentar) dormir e ao longo da noite em meio a sonos entrecortados de contrações, sonhava com coisas esquisitas que nem conseguia identificar logicamente. Numa hora dessas eu me perguntei intimamente se já não estava eu na partolândia… O dia amanheceu e eu acompanhei a luz apontando na manhã nublada. Meu marido acordou no seu horário usual e iniciamos o dia como de costume. Café da manhã, conversa, passeio com o cachorro. Nada parecia ter mudado com exceção de que entre um momento e outro, sentia uma contração. Ainda irregulares, mas agora mais fortes. Durante a caminhada, tinha que parar e esperar. Se meu marido falava comigo, tinha que esperar passar a contração para prosseguir. Assim foi todo o dia de sábado. Fui tentar dormir à noite, e já não conseguia nada mais do que pequenos relances de sono. As contrações ficavam mais fortes e pareciam percorrer uma área maior do meu ventre. Mas não engrenavam, então fiquei tranquila, imaginando que se algo acontecesse, seria dentro de algumas horas.
Domingo foi um dia muuuuuuito longo. Primeiro porque eu não tinha dormido e pela segunda vez passei a noite em claro e vi o dia amanhecer. Segundo porque desde a madrugada de sexta pra sábado monitorava no relógio a duração e a regularidade das contrações e não percebia evolução. Terceiro porque meu corpo já não aceitava mais alimentos e embora eu sentisse fome, não conseguia me alimentar sem botar tudo pra fora. Ricardo também parecia impaciente, pois já havia dois dias que não saíamos da circunscrição do bairro. Como sua ansiedade sempre me deixava também ansiosa eu propus que ele fosse a uma festa que ele tinha mencionado, onde encontraria os amigos e se distrairia um pouco. Assim, eu poderia ficar mais tranquila em casa, meditar um pouco, entrar em contato comigo mesma e com o bebê, fazer uma caminhada, talvez. Depois de tentar ingerir uma refeição que eu mesma preparei com muito custo, e que com nenhum esforço consegui regurgitar, resolvi fazer uma caminhada com nosso cão Xiru. Detalhe: um labrador bem Grande, louco por sair do apartamento pra passear e fazer suas necessidades fisiológicas. Foi difícil mantê-lo sobre controle, principalmente quando vinham as contrações e eu precisava parar e respirar fundo. Quando passava por alguém na rua, fazia bastante esforço para que não percebessem que eu poderia estar sentindo alguma dor. Consegui caminhar muito bem e inclusive, cheguei até uma simpática pracinha quase deserta a umas dez quadras de casa, sentei-me um pouco e deixei o cachorro alucinar. Vi pais e filhos, crianças com uns dois anos, e fiquei pensando como seria a vida que daqui a alguns momentos se inauguraria de maneira definitiva.
Aquela caminhada foi muito boa. Ao voltar pra casa, senti que as contrações estavam cada vez mais frequentes, ao passo que liguei para o Ricardo voltar pra casa. Quando ele chegou, conversamos um pouco e no fim da tarde resolvemos contatar a equipe. Ele ligou para a doula, pedindo que viesse. Não me lembro ao certo o que ela respondeu, mas pareceu que ela não iria vir em casa naquele momento. Sabia que a doula e a parteira estavam num evento em Viamão mais cedo, e que na madrugada anterior tinham atendido um parto. Temi que pudessem estar cansadas demais para me atender. Depois de algumas horas ligamos novamente para a doula, solicitando que ela viesse até em casa. Já era noite, e eu resolvi ligar para o médico e informar da situação, já que não havia recebido nenhum contato da parte deles. Contei que estava tudo bem, que me sentia tranquila e disposta e que o intervalo das contrações já estava mais regular, com duas contrações em dez minutos. Falei com ele da nossa vontade de que o parto acontecesse em casa e, num momento de silêncio, em que ele pareceu ser conivente com a proposta, me enchendo de esperança, ele passou o telefone para sua esposa, a enfermeira obstétrica. Ao que expus nossa insistência no parto domiciliar, ela respondeu de maneira fria e até mesmo grossa eu diria, que ela segue protocolos rigorosíssimos, que as english midwifes só esperam até 41 semanas, que ela já espera até 42, que ela não iria colocar o seu diploma em jogo só porque “eu gostaria muito de ter o bebê em casa”. Mas, que mesmo assim, elas poderiam me acompanhar em casa até antes do início da fase expulsiva, quando eu deveria ir ao hospital e lá seria atendida pelo meu médico. Aquilo foi muito chocante para mim. Porque eu estava num momento tão importante e emocionante da minha vida, porque eu estava extremamente sensibilizada com as circunstâncias, porque eu estava com contrações (que são sim doloridas), porque eu julgava e ainda hoje julgo que tinha plenas condições de ter o bebê em casa, porque eu precisava de palavras de acolhimento e apoio (mesmo que fosse para no fim dizer que não havia mais a possibilidade de ter o bebê em casa), me senti desprezada na minha autonomia e mais: senti que cada vez mais o meu parto tomava características de um evento do qual eu não eu tinha domínio e que outras pessoas passavam a decidir por mim. Diante de tudo isso, pensei que só me restava manter a calma, para não atrapalhar o processo que já se alongava há dois dias, para que eu conseguisse que as contrações se engrenassem, para que ao menos eu pudesse passar aquela noite em casa, sem ter que ir para o hospital de madrugada. E foi assim que resolvi me portar, apesar de ter me debulhado lágrimas depois dessa ligação telefônica.
Era umas 22h quando a doula chegou em casa com uma aparente cara de cansada, mas com cheirinho de quem tinha recém tomado banho. Gostei daquele cheiro de xampu. Ela pediu para ver minhas secreções e diante disso, resolveu ligar para a enfermeira obstétrica a fim de que ela também viesse. Elas me acompanhariam até o momento em que eu estivesse com dilatação suficiente para entrar na fase expulsiva. Chegou a enfermeira e uma das primeiras coisas que ela fez foi monitorar os batimentos cardíacos do feto. Tudo bem. Fez também um toque para avaliar a dilatação, o qual eu permiti por ter curiosidade em saber. Dois centímetros. Fiquei tranquila, pois imaginei que se estivesse mais dilatada, talvez tivesse que ir logo para o hospital, e eu queria ao menos passar a noite em casa. Naquele dia eu nem me liguei sobre a eficácia desse procedimento, que hoje eu vejo que só serviu para a própria equipe avaliar o tempo que haveria para o desencadeamento da fase expulsiva (depois fiquei sabendo que o médico atendera um parto hospitalar naquela madrugada, então era conveniente se houvesse mais tempo para que o médico pudesse me atender). Hoje em dia considero que o toque era importante para eu saber que as coisas estavam indo bem, mas não totalmente necessário… A enfermeira sugeriu que o Ricardo fosse dormir um pouco, para ele estar bem para me levar ao hospital quando fosse necessário, assim, elas ficariam comigo. Achei bom, pois ao longo de muitas conversas que tive com meu marido, ele sempre expressava algum medo ou ressalva em relação a esse processo, apesar de seu entusiasmo em relação ao nascimento. E muitas vezes eu me questionei se ele estava preparado para acompanhar o nascimento do nosso filho, embora eu estivesse me preparando para isso há meses – afinal um parto em casa envolve gritos, envolve dores (não necessariamente sofrimento), envolve vísceras, envolve sangue… nem todo mundo tem estômago para isso! – Na maior parte do tempo da gestação eu estava sozinha, desde os primeiros meses em Brasília, até nos próprios pródromos e fase latente, na qual eu mesma preferi ficar sozinha, talvez por considerar que eu conseguia cuidar de mim mesma, e temer administrar toda uma situação na qual a insegurança do meu companheiro pudesse afetar meu momento tão especial. Depois pensei que o melhor momento o Ricardo perdeu, pois era a oportunidade que ele efetivamente teve de acompanhar de perto esse processo que vinha se tornando tão intenso. Pois em casa, ele estaria ao lado, presente. Já no hospital…
Fiquei então toda a noite em casa, tomando chás e a homeopatia, tomando banhos quentes de chuveiro, fazendo exercícios na bola de pilates, caminhando pelo pátio do prédio. Aquela madrugada foi o auge do meu trabalho de parto. A casa estava silenciosa, à luz de velas, eu coloquei minha trilha sonora cuidadosamente feita para esse momento, finalmente me deitei naquela banheira maravilhosa (dizem que não é bom usar a banheira nos momentos iniciais, pois imersão em água quente pode retardar o trabalho de parto, quando ele ainda não engrenou), e até consegui dormir um pouco entre uma contração e outra. Mas também considero que tenha passado muito rápido, ao contrário das noites anteriores. Durante esse tempo, a doula me acompanhou, fazendo massagens e me ajudando a vocalizar corretamente durante as contrações. Enquanto isso, a cidade dormia. Dormiam também meu marido, meu cachorro e a enfermeira obstétrica. Logo o dia amanheceu e a enfermeira obstétrica sugeriu de fazer um toque para avaliar a dilatação. Concordei e depois me arrependi. Oito centímetros. De repente então, parece que entramos numa corrida. Pegar a bolsa do bebê, reunir alguns itens e ir para o hospital. Eu que não tinha juntado absolutamente nada, até mesmo por acreditar que não seria necessário ir para o hospital, de repente, do nada, daquela madrugada linda, amanhece um dia de urgências. A enfermeira era uma das mais ansiosas ( parecia até que o bebê iria nascer ali mesmo), e quando pedi um vestido e ela me alcançou um que não gostei, ela fez cara feia pra mim. Eu mesma então fui até o armário, peguei um vestido bem bonito e me vesti sozinha. Mal tive tempo de reunir o que precisava, quando fui apressada novamente. Aquilo ali foi uma quebra muito grande do meu processo, que, comparando com o longo tempo que passei no hospital, considero que se tivesse ficado em casa mais um tempinho, o Nilo teria nascido lindamente naquela banheira. Toda aquela agitação para sair, toda a mudança de ambiente foi extremamente negativa no meu ponto de vista.
Às 7h da manha, saímos então, eu, Ricardo, Xiru e a doula no nosso carro. A enfermeira saiu no seu carro. Ela já havia contatado seu marido, meu médico, que às 5h tinha saído do hospital, depois de atender um parto. Vi a cidade começar a viver, numa manhã quente de 14 de dezembro, no banco de trás do carro, com nosso cão me lambendo do porta-malas. Entre uma contração e outra, mil coisas passavam pela minha cabeça. Às 7h30 chegamos ao hospital e a entrada já começou a se apresentar conturbada. A doula me perguntou se eu conseguia manter uma aparência de que estava bem para não precisar subir à ala da maternidade de cadeira de rodas. Não que eu achasse isso humilhante, mas julgando ter condições de me movimentar, preferia sem dúvida chegar ao quarto por conta própria. O Ricardo ficou na recepção fazendo meu cadastro e não mais o vi nas horas seguintes. Subi o elevador com a doula, que ao entrar na ala obstétrica foi questionada de me acompanhar, quando quase que imediatamente surgiu o médico dizendo que estávamos com ele, me cumprimentou entusiasmado e nos guiou até o quarto PPP (um ambiente hospitalar equipado para receber as parturientes de maneira humanizada, possuindo uma cama PPP – para antes do parto, durante o parto e após do parto, luzes refratárias, bola de pilates, barras de alongamento, banheiro com chuveiro quente). Ali dentro já havia pessoas desconhecidas, uma moça que me ofereceu um jaleco verde horroroso para vestir, mediu minha pressão, e sei lá mais o quê – creio que já estava delirando, porque a partir dali, minhas lembranças são poucas e bem pontuais, considerando que eu passei mais de 8 horas naquela sala. Tinha um relógio na parede, para onde eu olhava de tempos em tempos. Hoje percebo que aquele relógio foi angustiante, pois só me dizia que o tempo estava passando e tinha a impressão de que o trabalho de parto parecia não evoluir, tal como creio que fui induzida a pensar em alguns momentos. Enquanto isso, Ricardo esperava ansiosamente do lado de fora, pois na sala só poderia entrar um acompanhante, no caso, a doula, que naqueles momentos tinha mais condições de me apoiar, com suas técnicas de alívio de dor.
Ali então, passei muito tempo naquele quarto, que embora se propusesse ser acolhedor no sentido mais hospitalar da coisa, tinha elementos que me assustavam, como um monte de equipamentos e instrumentos médicos, até mesmo um fórceps bem à minha vista, para o qual eu muitas vezes olhei e senti arrepios na alma. Bem, do que eu me lembro naquele quarto, sei que usei chuveiro, a bola, usei as barras, recebia massagens, vocalizava, e realmente achei que o bebê estava chegando logo logo. O médico se sentou numa cadeira ao lado da cama e ficava o tempo todo usando o telefone celular, provavelmente postando nas redes sociais, onde ele é tão ativo. Periodicamente ele fazia o monitoramento dos batimentos cardíacos, e às 10h da manhã, o médico propôs de fazer um toque para avaliar a dilatação. Durante o procedimento, não mais que de repente, minha bolsa estourou. Não posso deixar de imaginar que o movimento do médico possa ter sido proposital no sentido de acelerar o processo. E eu que tantas vezes imaginei que meu bebezinho ia nascer empelicado!… O líquido estava translúcido, o que era um bom sinal. A dilatação em nove centímetros. Desde o início da manhã até agora, só dilatara um centímetro. Óbvias as razões! Toda essa quebra no processo, de sair do conforto do meu lar, me deslocar, entrar num lugar burocrático, asséptico, institucionalizado, cheio de olhares, julgamentos e preconceitos, me afastar dos entes amados… só poderia dar nisso! Ao que o médico decidiu unilateralmente injetar ocitocina com soro glicosado na minha veia, porque segundo ele, o trabalho de parto não estava evoluindo. Imediatamente eu respondi “NÃO”! Mas nesse momento, depois de mais de 60 horas de trabalho de parto, depois de estar num ambiente hospitalar, o que eu mais queria era ter meu bebê em meus braços. Nessas circunstâncias nem saberia dizer se algo poderia ser diferente, pois creio que as indicações médicas deveriam ser no mínimo conscientes e embasadas. Principalmente porque eu escolhi um médico que é ativista do parto humanizado, baseado em evidências científicas e principalmente do protagonismo da mulher, premissas nas quais acreditei firmemente, principalmente depois de ler seus dois livros. Mas depois de tudo não pude deixar de pensar que aplicar ocitocina poderia convenientemente acelerar um trabalho de parto de uma mulher há tantos dias com contrações, acompanhada por um médico que não dormira à noite. Mesmo chateada, aceitei a ocitocina, preferindo acreditar que aquela decisão estava contextualizada e cientificamente embasada. Tantas coisas já estavam saindo diferentes de tudo o que tinha imaginado… mas depois de algum tempo me senti muito frustrada, elucubrando por que? Daí vem as dúvidas, junto com a culpa cristã que só servem a uma sociedade patriarcalista que reafirma seu status quo através do domínio de um conjunto de técnicas sobre o corpo da mulher. Por que precisava de um hormônio sintético para me ajudar? Por que naquela hora, o médico não parecia estar me dando o poder de escolha? Pra onde foi o protagonismo feminino nessa hora? Será que o meu corpo era defectivo ou será que não tinha a capacidade de produzir os hormônios na velocidade da conveniência médica depois de tantas quebras no meu importantíssimo processo de parir? Eu continuo acreditando que eu poderia ter tido o meu filho da maneira mais natural se eu tivesse tido todo o tempo de que precisava.
Depois disso, fiquei com uma merda de agulha enfiada no meu braço, o que limitou e muito minha liberdade de movimento. Não senti que o soro tivesse potencializado minhas dores, mas com certeza aumentou a frequências das contrações. Num determinado momento, senti minha vagina muito quente (o círculo de fogo!), e quando expressei isso, logo a doula e o médico se movimentaram arrumando a cama, para que eu nela subisse, e quando desejasse, me posicionasse de cócoras para a saída do bebê. Foi ai que me dei conta de que iria parir de cócoras na cama PPP! Eu já tinha imaginado diversas posições de parir, inclusive a litotômica, mas jamais tinha concebido que eu efetivamente pariria de cócoras.
Então, eu chegara finalmente no período expulsivo! Não sei que horas era aquilo. Mas o médico registrava tudo no partograma. Como eu queria ver aquele gráfico! Sei que subi na cama num determinado momento, mas não sabia exatamente se tinha que fazer força, pois não sentia essa vontade de fazer força que tantas mulheres falam. O bebê não parecia estar passando pelo canal vaginal ainda. A doula me massageava com óleo de coco, e a barra de apoio da cama PPP ficou muito escorregadia por conta do óleo que impregnava todo o meu corpo. Só depois de muito tempo, quando as contrações estavam praticamente emendadas uma na outra – e eu pedi uma trégua!, quando o médico me respondeu “não tem trégua, agora vai”, eu senti um estímulo muito grande para fazer força. Foi quando senti outra movimentação no quarto, começou a chegar gente, pessoas desconhecidas, uma auxiliar do médico, a doula trocou de lugar com o Ricardo, que entrou todo paramentado, vestindo roupas verdes de hospital (quando a doula se despediu de mim, me lembro de ter pedido que ela fornecesse instruções para o Ricardo me ajudar…), e finalmente entrou a pediatra. Vi que definitivamente parecia ter chegado a hora de o Nilo nascer. Eu estava exausta, fatigada, nos breves intervalos das contrações eu me deitava na cama, depois de já tantas vezes fazer força quando as contrações se intensificavam. Lembro-me de relatos de parto que li e de vídeos que assistir em que as mulheres simplesmente esperaram que o bebê surgisse, mas eu efetivamente tive que fazer muita força. Primeiro porque esse era meu impulso e depois porque não me parecia que aguardar passivamente iria ajudar meu bebê a nascer. O período expulsivo foi muito longo (por volta de 5 horas) no ponto de vista do médico, e numa outra oportunidade, depois do parto, ele me disse o absurdo que cogitou o uso do fórceps! Bem, depois de vários minutos de contrações contínuas, encontrei uma posição bem adequada na postura de cócoras, que é o movimento da báscula, na qual uma projeção da bacia pra frente produz a perfeita abertura para a passagem do bebê. Quando fiz isso, o médico me incentivou, falando que era assim mesmo (nesse caso, creio que ele poderia me dar a letra antes, em vez de recorrer a procedimentos mais invasivos como foi o caso da ocitocina. Porque se a sua postura de se invisibilizar na sala de parto – tal como ele se intitula como homem invisível em um dos seus livros – ou se exime de adotar posturas intervencionistas, valorizando o protagonismo da mulher, ou apóia de maneira mais acolhedora, com dicas úteis. E não se esconde por trás de um telefone celular navegando pelo whatss e redes sociais e age apenas para estourar uma bolsa ou aplicar um soro). Detalhe: ele tirou muitas fotos da minha vagina no momento do nascimento. Eu estava tão louca nessas horas que não tinha a mínima condição de me manifestar. Eu estava tão concentrada no meu processo, no meu momento, que ao ver aquilo, não consegui sair do meu mundo pessoal (minha partolândia!) para reinvidicar um pouco de privacidade. Me pergunto para onde foram essas fotos. Ainda vou cobrar dele.
Bem, estava eu de cócoras no quarto cheio, cansadíssima, fazendo as últimas forças do meu ser para trazer o Nilo ao mundo (ele já tinha coroado), quando num intervalo das contrações eu cantei bem baixinho pra mim mesma “bem vindo meu novo ser, cercado de proteção, de tanto amor, tanta paz, dentro do meu coração”, e foi quando numa sequência de forças feitas com o apoio do Ricardo e de mais uma enfermeira nas minhas costas, a cabeça do Nilo surgiu e logo seu corpinho escorregou rapidamente para fora de mim! Nasceu!!!!
Nasceu nosso novo ser! Ricardo que viu o sexo! E com surpresa e felicidade disse: é um menino!!! Eu me deitei na cama, exausta, enquanto um monte de coisas que eu nem sequer conseguia processar acontecia. Todo mundo parecia se apressar em algo. Quando levantei, vi que tinha mecônio no campo. O médico usava um pequeno aspirador manual no nariz do bebê. A pediatra avaliava se o bebê tinha inspirado ou engolido mecônio. Eu pedi o bebê pra mim. Limparam-no um pouquinho e me deram. Coloquei no meu peito imediatamente. Ele estava enrolado no pano verde do hospital. Ele mamou… o primeiro contato. Eu dizia “oi meu amor….” Mas logo a pediatra disse “vou ter que levar”. O médico então se adiantou para cortar o cordão, pediu que o Ricardo fizesse, e eu vi tudo acontecer desajeitadamente rápido.
Levaram meu bebê, o pai foi junto e eu fiquei sozinha com o médico naquele quarto. Exaurida, sem condições de protestar, de questionar… Diziam que estava tudo bem. Mas se estava tudo bem, por que levaram meu bebê? Enquanto isso, o médico tracionava minha placenta através do que sobrou do cordão umbilical. Eu pedi que não fizesse isso. Ele disse que já estava saindo. Eu disse que estava doendo. Ele disse que só eram as contrações que expulsavam a placenta. Quando de repente, senti algo saindo de dentro de mim. Eu mal vi minha placenta. O médico já colocou num recipiente. Eu perguntei se poderia tê-la. Ele disse que não, no hospital, nada pode ser levado. Mas aquilo era meu! Era parte de mim!… O cansaço era tanto que eu não conseguia protestar. Recebi um único ponto por uma pequena laceração num lado de um grande lábio. Depois disso não vi mais o médico. Logo veio uma auxiliar de enfermagem e me limpou com gaze e água. Vestiram-me mais uma camisola verde de hospital, me perguntaram que roupa que eu queria que vestissem no bebê – eu disse: vermelha – e me disseram que logo eu o teria em meus braços. Convidaram-me a passar para uma maca, e logo o Ricardo chegou com nosso filhinho. Colocaram ele entre as minhas pernas, na maca e seguimos para uma outra ala da maternidade, para ficarmos por uma hora em observação. Lá, recebi comida. Agora tudo parecia melhor. O bebê nos meus braços, mamava. Tão lindo! Tão pequenino… Ele fazia pequenos suspiros entre as sugadas, parecia que estava cansado… Certamente fez tanto esforço quando eu para nascer… Eu conversava com o Ricardo, tantas coisas… não me lembro de todas. Mas me lembro que ele me contou que todo esse tempo ele ficara esperando numa antesala, onde entravam e saíam familiares de gestantes com cesáreas agendadas, aguardando a chegada do bebê na sala onde ficam os bebês recém nascidos para que pudessem vê-los e fotografá-los através do vidro, e que tudo isso acontecia dentro de meia hora – o tempo de a gestante ir para a sala de cirurgia para a retirada do bebê. E ele ali, durante mais de oito horas, esperando pelo nascimento natural do seu filho…
Logo fomos para um quarto, onde passamos duas noites. Lá tomei meu primeiro banho depois do parto, barriga flácida, ainda grande… sentia como se todos os órgãos estivessem flutuando no meu celoma. À noite, conversei com Ricardo sobre o nome do filhote, que ainda não havíamos decidido. Dormi com meu bebê do lado do meu corpo, contrariando as recomendações da enfermeira, que chegou já à meia noite para me aplicar uma injeção, pois meu filho tinha fator RH (+) e os antígenos gerados no meu corpo por conta do meu fator RH (-) poderia acarretar eritroblastose fetal num novo bebê gerado com RH (+).
Passei o dia com minha sogra, que me trouxe flores e chocolates. O Ricardo teve que resolver as questões de desocupação do nosso apartamento temporário. Não voltei mais àquele lugar onde tanto imaginei o nascimento do meu filho. À noite o médico apareceu para uma visita. Conversamos um pouco. Ele disse que meu período expulsivo foi muito longo (quase cinco horas), que meu partograma era muito diferente do normal. Quando eu citei meu cansaço, ele disse que eu tinha forças para mais 30 horas de trabalho de parto. Fiquei feliz com a afirmação, mas talvez se ele dissesse algo do tipo lá na hora do parto, teria sido mais animador do que agora. Acho que me faltou um pouco disso, de informações do andamento do meu trabalho de parto, de palavras de incentivo sim, por que não? Eu digo palavras de incentivo no sentido de acolhimento da mulher, de acompanha-la nessa travessia desse evento tão novo para uma primigesta. Naquela mesma noite o médico me deu alta para a manhã seguinte.
A pediatra veio visitar o bebê na manhã seguinte e também deu alta para ele. Disse que estava tudo ótimo, que a aspiração feita não encontrou resíduos de mecônio no pulmão do bebê e que certamente ele apenas defecou durante o período expulsivo, em que as próprias contrações uterinas comprimem o bebê. Acredito que isso seja bem verdade porque quando a bolsa se rompeu, não havia mecônio. O líquido estava translúcido. Em minha opinião isso não deixou de ser uma série de procedimentos médicos desnecessários, motivados unicamente pela precaução. Coisa que em casa, seria evitado. Em casa, eu poderia ter ficado com meu bebezinho desde o primeiro momento, sem interrupções. Em casa, não lhe teriam levando para longe de mim. Não teriam lhe aspirado tão invasivamente. Não teriam lhe perfurado tão logo, aplicando vacina e vitamina k. Não lhe teriam dado banho tão cedo. Tudo o que eu tinha combinado com a pediatra que contratei especialmente para nos acompanhar com todo esse cuidado de receber nosso filho o mais naturalmente possível não aconteceu. Decerto ela também não leu meu Plano de Parto. Continuo não acreditando que as intervenções fossem estritamente necessárias.
Nessa mesma manhã, saímos do hospital, passamos numa gruta ali do lado e batizamos nosso filho, numa cerimônia íntima e simples. Nilo seria seu nome. Escolhemos Nilo, por ser um nome simples e universal. Agora, voltando ao mundo real, se inaugurava toda uma nova vida para nós. Mal sabia eu de todo o processo de formação de vínculo que se iniciava, da dimensão dos desafios, de toda a revolução hormonal que já estava acontecendo, das noites que se seguiriam sem dormir, da interpretação das demandas do bebê, dos choros do bebê, da alegria do primeiro sorriso, da primeira gargalhada, de cada conquista do seu desenvolvimento, das infinitas mamadas, da dor e do prazer de se tornar mãe. Embora não tivesse enfrentado outros desafios como dificuldades na amamentação, cólicas, refluxos, e tantos outros problemas que alguns recém-nascidos apresentam. Que bom que não passei por essas questões, afinal, estávamos sozinhos eu e meu marido para compreender toda essa dimensão da vida que se inaugurava para nós. A doula e a enfermeira obstétrica deveriam me visitar nos primeiros dias pós-parto, mas isso também não aconteceu. Desta forma, passei o meu puerpério seguindo meus instintos, pesquisando na internet e acompanhando o grupo de puérperas do Whatsapp, uma derivação virtual do grupo de gestantes do HUB.
A vinda do Nilo chegou para me mostrar uma diversidade de coisas novas. Desde uma sensação de extrema felicidade até a exaustão advinda de noites não dormidas. Me sentir completamente sozinha (mesmo com meu marido por perto, oferecendo o apoio que ele conseguia) não foi fácil… Mas creio que essa solidão eu sentiria em qualquer circunstância, pois é uma overdose de hormônios fazendo revoluções mirabolantes no nosso corpo e mente. Só depois de um tempo eu consegui processar todo esse novo universo que se abria pra mim. E definitivamente me sinto mais completa agora. E essa sensação de completude só me faz lembrar o quanto eu era vazia antes… Nilo vai fazer um ano dentro de poucos dias. Quatorze de dezembro de dois mil e quinze, um divisor de águas. Um marco do nascimento: nasceu um filho, mas também nasceu uma mãe, que com todo um instinto que se aflora buscou acolher em seu seio essa vida que agora tenho comigo. Uma vida que derivou de duas vidas… Depois de quase um ano de renúncias, de mudanças, de abnegação, posso dizer que por mais difícil que tenha sido eu considero que é maravilhoso! É sentir uma parte do divino dentro de si. A vida é realmente um milagre. Não tenho palavras que consigam expressar a miscelânea de sentimentos envolvidos. Só posso dizer que sou muito grata por ter tido essa oportunidade. Uma oportunidade de gerar e de dar a luz a uma vida! Não podemos nunca deixar isso cair num lugar comum. É maravilhoso! É mágico!
E este meu relato vem muito no sentido de demonstrar essa busca por oferecer um nascimento digno e respeitoso para nosso(s) filho(s), por mais que muitas coisas não tenham saído como o planejado. Nilo nasceu de parto normal no hospital. Tudo correu bem. Mas confesso que ainda não estou em paz com muitas coisas que aconteceram, principalmente em relação à assistência que recebi da equipe que contratei para me acompanhar. Não deixo nunca de questionar por que não tivemos nosso parto domiciliar planejado, se eu estava tão preparada para tal e se estava fisiologicamente apta. Embora eu ainda me sinta machucada em alguns aspectos, eu creio que escrever faz parte do processo de cura. Porque esse processo de gestar, parir e maternar também dói. E é uma dor não necessariamente física, mas sentimental, que nem todos conseguem entender, interpretar ou até mesmo conceber que exista. Talvez só quem passa por isso pode ter a sensibilidade de escutar ou ler empaticamente relatos como este. E espero que este relato, se lido, possa tocar profundamente no coração das pessoas que buscam de alguma maneira tornar o evento do nascimento mais digno e respeitoso. Que esse relato possa reverberar pro universo, trazendo sororidade não apenas entre as mulheres, mas todos os que se envolvem direta ou indiretamente, e que possamos formar uma rede de amor e fraternidade, para buscar compreender toda a maravilha que envolve o nascimento humano.

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