Me sinto fraca

A.P.F., 28 anos.

Desabafo Anônimo: Das 120 pessoas das quais sou docente, 3 meninas estão grávidas (+ou- 14 anos)… Essa semana a PEC foi aprovada, e a polêmica sobre aborto foi solta. Não preciso falar que na sala de professores o povo lida com a impotência (política e profissional) ignorando a PEC e culpabilizando mulheres por gravidez indesejada (ou desejada se a criança for “indisciplinada”). Chegando ao ponto de ter quem disse que menor de 13 ser estupro mesmo que ela “consinta” é só na lei, porque “abriu as pernas porque quis” e que “se foi estuprada já pode abortar, é só provar que foi estuprada”.
Eu já esperava por isso, mas eu não sei muito bem onde foi que eu achei que daria conta. Eu aceitei que não daria conta de maternar “consanguineamente” quando reconheci que queria do fundo do coração ser docente e não me via em condições de dar conta dos dois em “tempo hábil”… porque filhos precisam de atenção integral e parceria, e docência também. E eu realmente prefiro adotar do que botar alguém no mundo sem nenhuma “mini bolha de respeitos mútuos”.
Não sou uma pessoa hetero, cis, monogâmica, religiosa. É quase impossível encontrar parcerias respeitosas, e muito difícil construí-las. E a educação não é desvalorizada à toa… Ela é desvalorizada ao associarem tanto exatamente à “mulheres” ao “feminino” e é assustador.
Hoje eu não sei mesmo se vou dar conta nem de adotar… não por falta de querer. Mas por ainda não dar conta de mim. Não consigo pensar em largar a profissão, mas está difícil me imaginar com saúde emocional suficiente para lidar com tanto disso.
É assustador como a culpabilização e a solidão assombram a “profissão professor” e a maternidade. E como professores ao invés de olharem pra si responsabilizam ainda mais as mães.
Eu não tenho dado conta nem de não dar trabalho e custos nem pra minha mãe… Não tenho dado conta de fazer amizades, de sair sozinha na rua sem ser pro trabalho. Me cobro dar conta de construir a longo prazo boas relações profissionais, e é difícil encarar esses profissionais com esses discursos. É difícil engolir a reza depois do hino nacional, ou no conselho de classe, engolir o machismo em sala de aula, em recreio, no horário do planejamento didático (que teve político chamando de descanso pedagógico). Como vou aprender a digerir isso tudo se eu não der conta de engolir?

E vou tendo dificuldade de engolir comida, comida de verdade, a cada absurdo engolido como um sonho, ou alguma besteira açucarada ou gordurosa para ajudar a descer o discurso alheio pelo nó da garganta.

A impotência esfrega na minha cara que talvez eu nunca conheça a maternidade, não só por a nossa sociedade estar em condições péssimas para recepcionar uma vida nova. Mas, por eu não saber se um dia serei boa companhia para uma vida que já tá aí, lidando sozinha com essa sociedade de merda. Me sinto fraca. Fraca por duvidar da minha capacidade de dar a alguém menor de idade condições melhores do que a merda do estado dá. Fraca por “ser o estado” profissionalmente e não dar conta de ser melhor sozinha. Fraca por não conseguir dar isso nem a mim.
Como vou maternar alguém se não dou conta de mim? Como vou educar 120 sem dar conta de mim e rodeada de profissionais que nem reconhecem que não dão conta de si?

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