Meu filho queria viver, mas não teve ajuda

Juliana, 1 filho, desempregada, 19 anos.

Desabafo Anônimo: Estava me organizando pra fazer a matrícula da faculdade, a vida correndo bem, solteira e sem qualquer tipo de relação desde julho/2016. Em outubro, mesmo menstruando normalmente, sabia que estava diferente e resolvi fazer um exame de sangue. E lá estava a contagem, 1000…. Olho para a tabelinha de semanas ao lado e na hora do nervosismo, não vi que a mesma contagem para até 4 semanas, voltava no segundo trimestre. E aí, pirei. Comecei a achar que estava doente, já que não tinha a possibilidade de estar grávida de 4 semanas. Marquei uma transvaginal por conta própria, numa clínica particular. Ao iniciar o exame, a surpresa do médico ao dizer “não pode mais ser transvaginal porque você está gravidíssima”. E foi assim que descobri que seria mãe. Deu medo, desespero, vontade de tirar, vontade de morrer mas, no meu íntimo, já podia sentir os indícios de um amor lindo. Contei a minha mãe e ao que deveria ser o pai, visto que ele simplesmente disse que eu iria tirar e com a minha resposta negativa, sumiu. Eu seria mãe solteira, aos 19, dependendo financeiramente da minha mãe. Mas eu seria.
Logo comecei o pré-natal, tinha pressa, visto que já tinha descoberto tarde.
Sempre disse que seria mãe de um menino, Bernardo seria o nome. Mesmo com a incerteza do sexo, eu simplesmente não conseguia me referir ao meu bebê com a possibilidade de ser “ela”. Eu sabia que seria meu Bernardo, sabia que seria o meu menino tão sonhado, mesmo que não planejado. 19 semanas e um pequeno sangramento, numa sexta à noite, corri com a minha mãe para a emergência do hospital público onde seria meu parto. Examinada, sangramento “dedo de luva”, coração do bebê batendo e colo fechado, precisaria de uma ultra pra descobrir o motivo, mas eles só faziam ultra de segunda à sexta, até às 18h. E a médica simplesmente me disse que “pode ser um aborto, mas não tenho o que fazer sem uma ultra e nem é sangue suficiente pra te internar, vai pra casa ou procura X maternidade, de repente lá faz uma ultra”. E assim, fui para outra maternidade; lá, a mesma resposta. Sábado de manhã voltei pra emergência, ainda tinha sangramento e eu queria uma resposta. A médica foi atenciosa e disse que podia ser apenas um descolamento leve, visto que era pouco sangue, me deu o pedido da ultra (porque a do dia anterior nem isso tinha feito) e disse pra eu fazer repouso e voltar na segunda. Segunda, primeira da fila pra ultra, tudo ok com o bebê, nada na placenta, nenhuma alteração. A empolgação voltou, os presentes chegavam ainda em cores unissex, porque meu pacotinho não colaborou na ultra novamente.
20 semanas e 5 dias, madrugada de sexta pra sábado, 4h da manhã e eu acordei sentindo algo escorrer, corro pro banheiro e ao abaixar a calcinha, um coágulo de sangue cai. Gritos, choro, minha mãe corre comigo pro hospital porque eu não conseguia nem me mexer. Enfermeira grossa, batimentos acelerados, soro pra sei lá o que e espera pela médica que estaria numa cesárea, mas veio com a cara amassada de quem estava dormindo. Má vontade ao ponto de não conseguir achar o coração do bebê, toque doloroso e “ah você tá com tudo prontinho pra abortar, vou te internar”. E ali começou a maior dor que eu já senti. Subi pro pré parto, outra médica me atendeu e com muito carinho, achou o coração do meu filhote, me deu outro toque e disse que o colo estava fechado. Mas que sim, podia ser um início de aborto. Visto que havia muito sangue.
Eu não conseguia mais chorar, olhava pra minha mãe, pro teto e não sabia o que sentir. Até que pedi pra ela me deixar sozinha e naquele momento, me vi de joelhos, implorando a Deus pra não me levar meu filho. De nada adiantou. Na segunda, após dois dias de repouso absoluto, fui e voltei da sala de ultra andando, nada foi me dito além de “não dá pra ver o sexo porque a perninha tá cruzada”. Aproveitei pra escapulir e ir ao banheiro que era em frente ao quarto, não aguentava mais fazer xixi na “comadre”. Senti uma pressão e olhei, era cinza. Gritei. A enfermeira me leva ao leito pra esperar o maqueiro e ali, a certeza de que nada estava bem. Pré-parto e eu escuto “você tá com adramnia, o pouco que andou, dilatou milímetros do colo e o cordão umbilical escorregou, a gente não sabe quando sua bolsa rompeu, mas seu bebê tá vivo, ele tá lutando pra ficar numa boa com o pouco líquido que tem”… Questionei o que seria feito, disse que autorizava uma cesárea, mesmo que ele fosse sobreviver pouco, queria tentar, mesmo sabendo que era praticamente impossível um bebê de 21 semanas sobreviver. E fui informada de que iriam esperar meu filho morrer e depois, induziriam meu parto. Isso demorou 1 hora. Eu sentia o cordão pulsando no meio das minhas pernas. Mesmo com as enfermeiras dizendo que estava demorando mais que o normal, que não tinha explicação. Meu filho queria viver, estava lutando por isso. Mas não teve ajuda. Foram quase 7h de uma dor desesperadora. Mas nada superava a dor da minha alma. Eu iria parir meu filho morto. E foi o que aconteceu. Me concentrei e fiz força, estava serena, sem chorar, desacreditada de tudo aquilo. Pari meu filho e, então, a notícia, era o meu menino. Todo formadinho, quase 20 centímetros mas só 390g. De perninhas cruzadas e mãozinha no queixo. A pele ainda meio transparente. Um rostinho já lindo. E me foi levado a vida… vi a enfermeira indo e tudo o que eu queria era gritar pra ela me dar meu filho. Mas de que adiantaria? Nada o faria viver… Fiz curetagem e tive alta no dia seguinte. Saí de lá com a certeza de que nunca mais seria a mesma. Eu sou mãe, mãe do meu menino Bernardo. Mãe do meu pacotinho tão amado. E ninguém me tira isso.

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